SESSÃO NOCTURNA DE 9 DE JUNHO DE 1888 1941
Quer dizer, nós gastâmos 12,43 por cento das nossas receitas com o exercito e cada habitante para ter a ua propriedade, a honra e a patria defendidas, contribue para o exercito com 1$010 réis por anno.
Havemos concordar que é baratinho. A maior parte da gente gasta mais que isso em loterias. Nós já gastámos proporcionalmente muito mais do que gastâmos hoje.
E verdade que foi n'uma epocha calamitosa em que a patria estava talada pelas forças inimigas. Tinhamos então uma despeza bastante grande relativamente aos nossos recursos, que eram pequenos.
Em 1810 tivemos em armas 110:000 homens alem das forças do exercito alliado. Gastámos muito dinheiro em fortificações, pois só as linhas de Torres Vedras mandadas construir por Wellington, e que foram executadas em dez mezes, custaram 450:000$000 réis. O engenheiro encarregado de as dirigir foi o coronel Fletcher.
Estas linhas mediam uma extensão de 14 leguas desde o Tejo em Alhandra até ao Oceano.
Durante o anno de 1800 trabalharam ali 10:000 homens e não estavam ainda completas quando em outubro de 1810 tentou atravessal-as o exercito de Massena.
N'esta occasião estavam construidas 126 obras fechadas, alem de extensos entrincheiramentos e estavam armadas com 247 bôcas de fogo alem das que guarneciam as obras de S. Julião da Barra.
Durante o resto do anno de 1810 o parte do de 1811 continuou a trabalhar-se nas linhas tendo-se despendido cerca de 900:000$000 réis e havendo 500 bôcas de fogo em bateria.
No anno de 1810 as receitas arrecadadas foram de réis 4.500:000$000 e com o exercito gastou-se n'esse anno réis 8.126:400$000.
É verdade que a Inglaterra nos pagou dois mil e tantos contos de subsidios, mas ainda assim pesou sobre o paiz um encargo de mais de 6.000:000$000 réis o que equivale hoje ao triplo ou ao quadruplo.
Só n'esse tempo tinhamos um exercito regular, se gastavamos com elle o que era necessario, porque não se ha de hoje olhar para elle com mais alguma attenção?
O exercito não corresponde ás necessidades do paiz; isto é que é um facto, que é necessario dizer bem alto.
Quem tem a culpa?
Não se póde dizer que seja individualmente de ninguem; é do paiz inteiro, que se esquece que o exercito é a unica garantia da nossa independencia. (Apoiados.)
Em todo o caso não devemos ser pessimistas.
O exercito tem bons elementos, que convenientemente aproveitados poderão collocal-o a par dos outros exercitos bem organisados.
Trabalhemos todos para levantar o nivel das instituições militares, porque é d'ellas que depende o futuro da nossa patria. (Apoiados.)
Se quaesquer circumstancias politicas europêas levarem a consentir que a Hespanha nos absorva, e se n'essa occasião tivermos um exercito sufficientemente aguerrido, disciplinado e bem organisado, tenho a certeza que havemos de deter a marcha do inimigo durante muito tempo, porque quando um paiz quer manter a sua independencia pratica prodigios de valor. (Apoiados.)
Temos o exemplo de paizes com muito menos recursos que o nosso, que têem praticado actos de heroismo para manter a sua independencia e têem-n'o conseguido.
Sem necessitar ir mais longe, temos exemplos dos nossos dias.
A republica dos boers sacudiu o jugo da Inglaterra e eadquiriu a sua autonomia.
A Bulgaria tem dado o mais vivo exemplo do que póde o patriotismo, porque apesar de tudo, tem mantido a sua independencia, e se não fosse o seu exercito já teria succumbido. (Apoiados.)
O que é necessario, é que todas as classes dispensem a sua attenção ao exercito, porque o exercito é a principal instituição de um paiz. (Apoiados.)
Moltke diz que o primiro dever de um paiz é collocar-se em situação de defender a integridade do seu territorio, de fazer respeitar os seus direitos, e de manter a ordem no interior.
Comprehende-se que, para isto se conseguir, devemos ter um exercito bem organisado, bem disciplinado e bem instruido, e, alem d'isso, que tenham passado pelas fileiras quasi todos os homens validos, de modo que, no momento do perigo, a nação se ache instruida militarmente. (Apoiados.)
Nenhuma nação póde passar sem exercito; é uma dura necessidade, mas necessidade imprescindivel; e, quanto maiores são as liberdades do um povo, mais força deve ter o poder, porque é ao abrigo d'estas liberdades que os maus cidadãos podem fomentar a desordem. (Apoiados.)
Eu desejo terminar, sr. presidente, não só porque me alonguei mais do que tencionava, e tomei mais tempo á camara do que devia; mas porque se vae approximando a hora fatidica em que o sr. Manuel d'Assumpção receiava ver apparecer n'esta casa os espectros.
Tenho pena não ver presente o illustre deputado e meu amigo.
O sr. Manuel d'Assumpção (entrou na sala): - Aqui estou.
O Orador: - É na presença de v. exa. que eu queria tambem declarar que me amedrontam espectros, e por isso vou terminar antes de soar a tal hora fatidica, em que elles costumam apparecer aos homens.
Ha, porém, uma differença, como ha muitas entre nós, em desfavor meu. Uma d'ellas é que eu não tenho medo do espectro de frei Manuel Homem, nem do espectro dos seus confrades, porque esses, em vez de descerem á terra, conservam-se no céu, com os olhos fitos em nós e ao lado de Deus, pedindo-lhe de mãos erguidas: «perdoae-lhes pae, que elles não sabem o que fazem!»
Agora, querem v. exa. saber quaes os espectros de que eu tenho um verdadeiro pavor? É dos espectros, d'aquelles que derramaram o seu sangue para nos conquistar este logar; d'aquelles milhares de bravos que durante tanto tempo jazeram nas masmorras, ou abandonaram pelo céu nublado do exilio o céu azul e purissimo da patria; d'aquelles emfim que, sendo grandes na heroicidade dos combates, ainda o foram maiores na resignação do martyrio, sacrificando na forca a propria vida pela defeza da liberdade.
Esses, meus senhores, é que podem aqui surgir, como na tragedia ingleza surgiu a sombra pavorosa de Banquo, perguntando-nos com a sua voz inexoravel e terrivel, como deve ser a voz que parte das sepulturas: «Que fizestes das liberdades, que, á custa do nosso sangue, vos conquistámos?»
Para me subtraír a essas visões, que mais nos devem aterrar a consciencia do que a vista, vou terminar; e vou terminar, porque vejo proximo a soar no bronze a hora fatidica em que costumam surgir essas apparições sinistras.
Tenho dito.
Vozes: - Muito bem, muito bem.
(O orador foi muito comprimentado por muitos srs. deputados de todos os lados da camara.)
Leu-se na mesa a seguinte:
Moção de ordem.
A camara, considerando que o governo, e principalmente o sr. ministro da guerra, tem procurado, por todos os meios ao seu alcance, melhorar as condições do exercito e aperfeiçoar successivamente a organisação de 1884 em conformidade com os recursos do thesouro, continúa na ordem do dia. = Francisco José Machado.
Foi admittida.
O sr. Carrilho: - Mando para a mesa o parecer da