SESSÃO NOCTURNA DE 14 DE JUNHO DE 1888 1995
exposição, ainda assim não desejaria deixar o governo desarmado dos meios indispensáveis para que, embora não seja representado officialmente o paiz, possam concorrer a ella todos os nossos concidadãos que assim o desejarem. Se mais tarde o governo se vir forçado, pelas circumstancias, a dar-lhe esta cooperação, então reconhecerá que não lhe fiz absolutamente mal algum armando o com os meios necessarios, ao passo que se o orçamento ficar silencioso a este respeito, o governo poderá ser forçado a praticar um acto, embora bom, não legal.
O governo tinha talvez no orçamento do ministerio das obras publicas meios para acudir a esta despeza extraordinaria, podendo destinar para este tini verbas de alguns capitulos, se o quizer fazer, elle que o faça. Em todo o caso o meu desejo é consignar a minha opinião, o meu voto, que se inscreva no orçamento uma verba para o fim que indiquei, e fazer saber assim que as camaras portuguezas mostram desejo de auxiliar todos os nossos industriaes e artistas que queiram comparecer na exposição.
Tenho dito.
Vozes: - Muito bem.
Leu-se na mesa a seguinte:
Moção de ordem
A camara resolve que seja inscripta no mappa da despeza extraordinaria a verba de 50:000$000 réis, destinado ás despezas da representação na exposição universal de 1889, em Paris, e passa á ordem do dia.
Camara, 14 de junho de 1888. = José Elias Garcia.
Foi admittida.
O sr. Fuschini: - Antes de entrar na discussão do projecto, apenas para me illucidar, rogo a v. exa. se digne dizer-me como estava inscripto o sr. Elias Garcia, que acaba de fallar.
O sr. Presidente: - Contra.
O Orador: - Contra?! Então vou defender o projecto do governo.
Mando para a mesa a minha proposta:
Propomos que a verba da consignação concedida á camara municipal de Lisboa, em compensação do imposto do consumo, na importancia de 224:000$000 réis, seja elevada a 400:000$000 réis.
Fica por esta forma substituida a doutrina do § 3.° do artigo 1.° do projecto em discussão. = Augusto Fuschini = Consiglieri Pedroso.
Tenho assistido, como me cumpre, com a maior attenção á discussão da lei de meios; o, realmente, apesar do adiantado da hora e do cansaço da assembléa, devo observar á camara, e portanto ao paiz, que é singular a fórma por que está correndo a discussão do documento mais importante, que póde ser apresentado ao parlamento.
Levanta-se o illustre deputado o sr. Consiglieri Pedroso, diz á camara e ao paiz, porque supponho que nós ainda estamos fallando e trabalhando para o paiz, que entende dever ser discutido o orçamento e acrescenta, que, elle e eu, representando dois grupos politicos, tinhamos apresentado uma proposta, quando se tratou das sessões nocturnas, para que fossem discutidos o orçamento e a lei dos cereaes. Desenvolve doutrina que me parece constitucional e parlamentar, affirma á camara quaes eram as suas opiniões, mostrando que o projecto mais importante, que pode ser discutido, exactamente o orçamento para que foram inventados os parlamentos, foi esquecido e renegado por aquelles mesmos, que, sendo opposição, apresentavam outras doutrinas desenvolvendo-as o adjectivando-as por forma, pela qual s. ex.a o sr. Consiglieri Pedroso não se atreveu a desenvolver nem a adjectivar; a isto o que se respondeu?
Em primeiro logar com sorrisos por parte dos srs. ministros; em segundo logar, com a indifferença completa da maioria, a ponto que não houve quem d'esse resposta satisfactoria e cabal.
Bem sei eu que ás vezes aquelles que têem a força nas suas mãos, abusam d'essa força, esperando que os resultados não lhes sejam adversos; bem sei eu que effectivamente ás vezes esses resultados não corrigem os abusos d'essa força; mas é bom que haja alguém no parlamento, que tire as consequencias logicas, claras e expressas de um comportamento irregular e inexplicavel. Serei, eu, pois, osso alguem.
Os parlamentos podem ser convulcionados por discussões ardentes; podem chegar mesmo a alimentar no seu seio paixões violentas, direi mesmo, revolucionarias; mas quando os parlamentos attingem o riso, estão condemnados, exactamente por aquelles que deviam levantar a dignidade parlamentar.
Já n'esta tribuna defini o riso em tres categorias, applicando n'esse momento a categoria que mais convinha; com o mesmo direito hoje classifico esse riso na terceira categoria, na dos risos innocentes.
Não entrei em accordo algum, porque os detesto; e não precisava fazel-o, visto que eu e os meus amigos politicos n'esta camara nos temos limitado a discutir serenamente todos os projectos, sem fazer sombra que seja de obstruccionismo; não precisavamos, pois, accordar para fazermos aquillo quó temos feito ato hoje e estamos resolvidos a praticar, porque respeitâmos a dignidade parlamentar e conhecemos a conveniencia das discussões delicadas e serenas.
Vou, portanto, resumir quanto possivel as minhas observações, não querendo que Ha demora da minha exposição possa alguem deprehender o menor desejo de demorar o projecto em discussão.
Estes srs. ministros, entre varias cousas que lhes faltam, ha uma, certamente, que lhes não sobeja, a educação classica; no sentido, ao menos, de não terem lido a historia da Roma e da Grecia, onde podiam e deviam encontrar bons exemplos e sabias lições.
Ahi vae, pois, um bom exemplo e uma- sabia lição.
Da planicie da antiga Roma, desenrolava-se uma via enorme, que subia até ao Capitolio; chamava se a Via sacra. Por ella caminhavam os Cortejos solemnes dos triumphos e das ovações.
Supponho a camara tão lida na historia classica, que não lhe defino agora a differença, que existia entre triumpho e ovação.
Percorriam a via triumphal aquelles a quem o senado votara o triumpho ou a ovação; o cortejo solemne, exaltando a gloria, levava o triumphador até ao capitolio.
Atraz dos triumphadores seguia a plebe, enchendo a grande via triumphal e atroando o ar com os vivas e ovações.
Era a plebe de todos os tempos, que sempre está ao lado dos vencedores, dos que têem força e gloria; mas que mais tarde tambem os precipitava da rocha Tarpea, ou os exilava de Roma.
Os srs. ministros riem-se agora, mas tomem cuidado, por que, comodizia Mirabeau, a rocha Tarpea estava mesmo ao pé do Capitolio.
Se eu podesse applicar á risota dos srs. ministros, esta phrase de um grande orador, se merecessem esta elevada lição do mundo classico, diria ao triumphador moderno, ao sr. Marianno da Carvalho: não se sorria hoje, porque vae no carro triumphal; essa plebe, que em volta de si levanta os vivas e os hossannas, ámanhã, quando v. exa. for um vencido talvez o empilla, não para a rocha Tarpea, mas para o abandono, e para a indifferença.
Uma Voz: - V. ex.a toma isto a serio...
O Orador: - Engana-se v. ex.a, não tomo a serio.
Pois eu posso tomar a serio o riso amarello d'aquelles que se riem, porque não têem melhor argumento?!
Pois eu posso tomar a serio o riso amarello d'aquelles