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SESSÃO NOCTURNA DE 16 DE JUNHO DE 1888 2057

tente, mas garanta o bem estar da população e a sua manutenção.

Cousa curiosa é ouvir gritar constantemente contra a emigração, ver empregar todos os meios para difficultar essa emigração, e ao mesmo tempo não se attender a que, para tornar fixa a população, é necessario dar se-lhe que fazer, no proprio solo em que ella viver!

E debaixo d'esse ponto de vista direi ajuda mais, que a agricultura de cereaes reune condições essenciaes e especiaes, porque não só prende ao solo, a massa da população da parte do paiz, onde essa cultura se faz, mas ainda alem d'isso, é um elemento, poderosissimo para o bem estar de uma grande massa de população, que emigra d'uns pontos do paiz para os outros, na occasião das ceifas, e que, sem esse recurso, se veria reduzida, muitas vezes, a pessimas condições de vida e a tristissimas circumstancias!

Vou agora apresentar a s. exa. um argumento curioso, e que naturalmente é completamente novo para esta camara, mas que convem trazer para ella.

Tenho sustentado ha muitos annos, sr. presidente, que em Portugal, debaixo do ponto de vista da estrumação e de adubos de terrenos, não se pode prescindir do estrume de curral, isto é, de azote assimilavel.

Em tempos que vão longe, chegou a epocha da phosphorite, do seu emprego na agricultura, e a este assumpto tive eu muito ligada a minha attenção, porque fui talvez um dos individuos que, em França, concorreram mais para se adoptarem meios praticos, para se fazerem rapidamente os ensaios da phosphorite, empregada como adubo ou correctivo das terras.

Não admira que assim me succedesse, porque eu então occupava-me especialmente de chimica, e não se sabia ainda bem o melhor meio pratico de fazer industrialmente esses ensaios.

Não vem isto agora para o caso, porque a questão é outra, e por isso sigo com o meu argumento.

Como ia dizendo, tenho eu sustentado sempre a indispensabilidade dos estrumes de curral, contra a opinião d'aquelles que me diziam: « Você está enganado, porque nós do que precisâmos é de acido phosphorico e de correctivos !»

E sabe v. exa. o que succedeu com o andar dos tempos?

Vae-se reconhecendo que eu é que tinha e tenho rasão.

Pelas experiencias, a que ultimamente se tem procedido nos laboratorios chimicos, que se encontram espalhados pelo paiz, pelas analyses que ahi se têem feito, tem-se reconhecido, o que a maior parte da gente ignorava, que os nossos terrenos, na maior parte dos casos, contêem os elementos mineraes que são necessarios para a producção, a que elles têem de ser applicados.

Os homens praticos sabiam que ha em Portugal terrenos que nunca deixam de dar cevada, e em condições vantajosas, etc.; mas não sabiam explicar o caso.

Os scientificos, que insistiam em que geralmente os nossos terrenos para bem produzir tinham falta de elementos mineraes, ignoravam talvez este e outros casos.

Entre outros factos, que eu conhecia, para apoiar a minha opinião, existe um de que já o outro dia dei noticia ás commissões reunidas de fazenda e de agricultura d'esta camara, e que cito agora, porque estamos aqui n'um ambiente maior, e é bom que se saibam estas cousas.

Antes de 1882, estando eu doente, fui mandado para os arredores de Lisboa, e nos passeios que dei, dirigi-me um dia a uma povoação chamada Queijas, proximo de Barcarena.

Essa povoação encontrava-se em muito precarias circumstancias. porque tinha tido successivos annos de pessimas colheitas de cereaes.

Estavam todos desanimados, o anno não correra bem desde o principio do anno agricola, e todos os homens antigos do logar diziam que era mais um anno mau.

Os trabalhos das terras tinham sido todos feitos na fórma dos annos anteriores, na maneira costumada, e, como o anno corria cada vez mais irregular, andava toda agente afflicta vendo chegar a epocha da colheita, suppondo que o anno seria pessimo, peior do que os anteriores!

Fizeram se as ceifas, começou a debulha, e qual não foi o espanto geral, a alegria de todos, quando reconheceram que felizmente tinham andado todos enganados, e que a colheita era magnifica!

A colheita, que geralmente regula por nove sementes o maximo, subiu excepcionalmente n'aquella região e n'aquelle anno, a vinte e duas sementes!

Fóra a sorte grande para toda aquella gente!

Eu tomei nota d'isto, porque ficou provado, para mim, que os elementos mineraes não faltam geralmente n'esses terrenos, que muitos têem considerado e continuam a considerar como esgotados, e que com uma pequena estrumação produzem e muito bem, logo que o anno corra de feição.

Em tudo isso entrára em jogo um quid, e esse quid concordo eu com o sr. relator em que elle está fóra da acção do homem.

Esse quid é o clima.

Mas vejamos a questão por outro lado.

É conhecido entre os lavradores, que se deve ligar a maxima importancia ás sementeiras, á epocha e occasião em que são feitas, o que d'ahi provém principalmente o resultado das colheitas, e para este ponto chamo a attenção do sr. relator.

Para o desenvolvimento de uma planta ha duas epochas, ou periodos, importantissimos debaixo do ponto de vista da pratica.

Ha a epocha ou periodo do desenvolvimento da planta, e a epocha ou periodo da maturação.

O que succede em Portugal em relação aos cereaes, é que o periodo do desenvolvimento é mais ou menos curto, conforme o anno; e, por outro lado, succede que o trabalho da maturação se faz muitas vezes não só antes do praso, em que devia fazer se, mas até chega a fazer-se precipitadamente, porque desde o momento em que começa esse periodo a planta não se póde desenvolver mais, e, se por acaso a planta por effeito da sua natureza não póde resistir a todas essas influencias, a todas essas contrariedades, não ha colheita possivel.

Resulta de tudo isto que ha incerteza no começo da epocha e na duração do periodo do desenvolvimento da planta: que o mesmo se dá em relação á maturação dos fruttos, e que, sendo isto assim, e dependendo tambem o resultado da colheita do que succedeu na occasião da sementeira, o que vulgarmente se exprime pelas palavras «sezão da sementeira», a unica planta que em Portugal supporta tudo isso é o cereal. Sendo assim, que ha de fazer o lavrador, quando não possa cultivar os cereaes?

N'esta altura do debate vou responder ao sr. Antonio Maria de Carvalho.

S. exa. queria no outro dia sustentar aqui a substituição da cultura dos cereaes pela cultura da beterraba, mas eu digo a s. exa. que Deus nos livre d'isso. O illustre deputado está de certo nas melhores intenções, mas não se póde avançar uma proposição d'essas em toda a sua generalidade com o clima que nós temos.

Por consequencia já se vê que para mim o ponto principal da questão é este: é que nós não temos cultura alguma, que possa substituir a dos cereaes; e, como não ha nação alguma que possa viver sem uma cultura qualquer, é a cultura dos cereaes aquella que nós somos obrigados a sustentar, recorrendo até, quando seja necessario para esse fim, a meios mais ou menos artificiaes.

Tambem não convem substituir a cultura dos cereaes pela da vinha.