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2126 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

D. Quinchote, e os moleiros por um homem colosso o anafado, talvez com brilhantes nos dedos.

N'esta lucta duvido muito da victoria dos lavradores, porque a couraça do cavalleiro que defende os moleiros é completa, forte e coberta de oiro e a dos outros é já meia rota e ferrujenta.

Ora a questão é muito difficil de resolver e nós não a resolvemos.

Podemos apresentar as nossas idéas, as nossas emendas; ellas porém não serão acceitas, posso affmnal-o á camara, desde o momento em que vão lesar muito uma das partes, parte que nunca deveria ter entrado na contenda, senão nas circumstancias que hontem expoz tão eloquentemente o sr. Alves Matheus, mas que quiz ir mais longe do que a sua missão lhe marcava, porque, alem do ser industrial, quiz ser negociante.

Abstenho me pois de apresentar emendas, porque me parece que outros ainda o farão, não com mais interesse que eu teria de o fazer, mas com mais sciencia

Deixando por momentos a questão que tem sido debatida até aqui, e que em breve vae recair em mãos mais habeis, vou tratar de uma outra questão do mesmo projecto, que se não tem immediatamente importancia igual, tem-n'a comtudo muito grande, e para tratar d'essa questão, tenho de deixar o Alemtejo e a Beira Baixa o transportar-me para o norte do paiz.

No artigo 1.° do projecto vejo o seguinte:

(Leu.)

Se ha um deficit enorme na producção dos trigos em Portugal, não acontece o mesmo na producção do milho.

Se ha um deficit grande para o paiz por não estar completamente cultivado, ou por muitas outras rasões nào podo produzir o trigo necessario para o consumo dos grandes centros, onde a base principal da alimentação é o trigo, contudo no norte do paiz, onde centenas de milhares de habitantes contrabalançam bem o numero dos habitantes das cidades, tem no milho a base da sua alimentação.

O milho tem a mesma importancia que o trigo, mas não está por ora nas circumstancias em que está o trigo, porque não tem nem o terrivel inimigo do moleiro, nem o terrivel deficit que assoberba a cultura dos trigos.

Todavia é para elle que hoje chamo a attenção da camara na parte do projecto que lhe diz respeito.

Como já disse, Portugal produz o milho necessario para o consumo.

Quando se reuniu em Lisboa o congresso agricola, por circumstancias alheias á minha vontade, mal pude comparecer ali, e não me foi possivel portanto combater uma idéa que ouvi no congresso, o que boje vou combater aqui, porque apparece no projecto em peiores circumstancias do que foi apresentada no congresso.

A base de que partiu o congresso e de que partia o governo, para estabelecer o imposto de 16 réis sobre o milho, foi dar para o milho nacional o preço de 400 réis, que tanto o congresso como o governo julgam remunerador.

Eu logo demonstrarei á camara que no sul de Portugal, em circumstancias de afolhamento, e onde a cultura é mais barata, poder-se-ha produzir milho a 400 réis, mas nós, os lavradores do norte, não o podemos produzir por esse preço.

Hei de demonstral-o com algarismos incontestaveis.

Ha uma questão que me parece que nós todos devemos attender immediatamente.
Todos sabem qual é a questão, todos a vêem e ninguem por ora fallou n'ella; essa questão é unica e simplesmente a barateza do dinheiro. O dinheiro tem barateado, mas o milho, que devia ter sempre o mesmo valor, porque ha d'elle sempre a mesma necessidade, tem comtudo encarecido. Nós vemos que a mesma medida de cereal que hoje se vende por 4, 5 ou 6, vendia-se no principio d'este seculo por l ou 2.
Isto não quer dizer que o cereal encareceu, quer dizer que o genero barateou. A depreciação augmenta de anno para anno. (Apoiados.}

Não é preciso ir muito longe para se fazer a comparação entre as fortunas d'essa epocha e as de hoje. Quem ha sessenta annos era rico, hoje, possuindo a mesma fortuna, é apenas remediado. (Apoiados.}

Isto é claro e evidente. Á medida que o dinheiro vae diminuindo de valor, o genero vae-se depreciando, e deprecia-se em uma rasão muitissimo maior do que aquella que apparentemente se mostra.

Dizia-se outro dia, se bem me recordo, porque esta discussão tem sido interrompida de tal modo que eu, provavelmente com a minha fraca memoria, devo me esquecer de muitas das interessantes phrases proferidas pelos oradores que me têem precedido; mas, se bem me recordo, ouvi dizer ao illustre relator d'este projecto, o meu illustre amigo o sr. Mattozo Santos, que não havia grande perigo na questão da importação, porque a America, que hoje produzia uma quantidade enorme de cereal, brevemente encontraria no esgotamento dos seus terrenos uma diminuição de producção, como agora nos está acontecendo. Parece-me que foi isto o que s. exa. disse.

O sr. Mattozo Santos: - D'aqui a algum tempo.

O Orador: - Exactamente como a hulha na Inglaterra.

Isto, se é verdade em parte, não é verdade no todo, e sobretudo não é verdade para o meu caso.

A grande producção de milho na America faz se nos valles, e sobretudo nas grandes campinas do Mississipi. Ahi o terreno não é depreciado, porque as cheias enormes que todos os annos cobrem as grandes campinas das margens d'aquelle rio deixam-lhe um grande nateiro, e os terrenos são cada vez mais productivos.

N'estas circumstancias nós não podemos absolutamente dizer que a producção ha de diminuir, porque a America não nos podendo mandar a abundancia de trigo que manda hoje, com relação ao milho mandará ainda mais, por isso que as margens se vão cultivando todos os annos em maior extensão, e o milho ha de embaratecer mais na America.

Ora a abundancia da producção do milho na America é de tal modo extraordinaria, os processos lá empregados são de tal fórma faceis, porque n'aquellas vastas campinas a machina substituo o homem, o trabalho é tão barato e a producção tão grande, e os preços são de tal modo baixos que eu digo a v. exa. que uma companhia importantes de Lisboa, a companhia dos carris de ferro paga pelo milho, depois de pagos os transportes, os direitos e o trafego todo desde o Mississipi até ás suas estações em Alcantara, 340 réis.

Ora v. exas. vêem bem que desde que os commerciantes que estiverem espalhados pelo paiz tiverem conhecimento d'este facto, desde que virem que podem importar pela barra do Porto toda a quantidade do milho que quizerem, e que elle fica, pagos os direitos, posto dentro da cidade do Porto por 340 réis, a cultura do milho no norte morre necessariamente, porque o negociante substitue-se ao agricultor, e póde dar milho por um preço que o agricultor não póde, cultivando-o. (Apoiados.)

V. exa. sabe que nas nossas montanhas do norte, em terrenos puramente graniticos, é quasi impossivel substituir a cultura do milho, porque nós não semeâmos milho senão por curiosidade, e obtemos, quando muito, quatro ou cinco sementes cada anno.

Eu não vejo que o governo podesse receiar de lançar sobre o milho um imposto impeditivo grande e até quasi prohibitivo, porque não ha deficit de milho no paiz; e alem d'isso queimam-se centenas de kilogrammas de milho para alcool; desde esse momento eu não vejo que haja nem possa haver receio de lançar qualquer tributo impeditivo e até mesmo prohibitivo.

Sr. presidente, n'esta parte do paiz todo o cercal é moido na localidade. O paiz accidentado, cortado de ribeiras e