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2654 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

sitiva consiste em que a politica seja intensa, como primeira força social que é, forte, como convem a um momento de suprema lucta, comprehensiva de todos os deveres e encargos que lhe vae acrescentando dia a dia, hora a hora, o adoravel e assombroso progresso da arte, da industria, da sciencia, e de toda a humana actividade. (Muitos apoiados.)
O regimen parlamentar genuino, perfeito, como o sonharam os puritanos d'esta forma politica, não póde com tão complexas, difficeis e pesadas condições. Por isso quero, defendo e sustento as dictaduras.
Mas ha dictaduras de variadissimas especies. Ha as dictaduras da opinião, exemplificadas na historia constitucional da Inglaterra, designadamente n'aquelle glorioso capitulo, que exaltará eternamente o genio e o patriotismo do segundo Pitt... Ha ainda as dictaduras parlamentares; resa d'ellas a historia de todos os paizes, com situações fortes e definidas. Napoleão III exemplificou durante vinte annos uma da peior especie. Pouco antes de morrer, Gambetta meditou uma dictadura d'esta natureza, realisavel pelo processo eleitoral da lista multipla, porque o immortal tribuno, por quem a França traz ainda pesadissimo luto, de quem a raça latina se lembrará sempre com saudade, e cujo nome a humanidade conservará perpetuamente, sabia que só por este modo poderia realisar o seu famoso programma de Belleville, (Apoiados.) a mais perfeita syn-these positiva da politica do nosso tempo. (Muito apoiados.)
Ha tambem as dictaduras da revolução. Em certos momentos, a alma humana rompe os moldes legaes, que a cingem, e irradia em toda a sua espontaneidade violenta e creadora. São isto as revoluções... Para não procurar exemplos na historia estranha, citarei as da nossa; citarei a revolução de 1836, que foi o desvanecimento das epicas e poeticas illusões da primeira quadra do nosso regimen constitucional; a de 1851, que foi apparentemente uma pacificação dos partidos, desgraçadamente percursora d'esta estagnação moral em que vivemos ha mais de trinta annos; (Apoiados.) a de 1868, finalmente, que foi uma negação formidavel das praticas abusivas do parlamento e do governo, e uma interrogação gravissima que ainda está sem resposta, porque eu não posso considerar como resposta á pergunta d'esse movimento a anarchia moral das nossas consciencias, a decadencia, cada vez mais accentuada do paiz, e o desprestigio, cada vez maior, das pessoas e das cousas d'esta terra! (Muitos apoiados.)
Estas são as dictaduras que eu quero, que eu defendo, que eu acceito. Valem como amplificações de força compensadoras das fraquezas e defeitos do regimen estabelecido. (Apoiados.)
Mas estará n'este caso a dictadura de 19 de maio?... Anima-a um pensamento alto? Representa a tenacidade heroica de um homem de estado que leva, sobre perigos e difficuldades, o seu plano de governo? Foi destinada a vingar o poder, que tem direitos, contra as facções que porventura os negassem?...
Responda-me a consciencia da camara ... Eu louvo-me na resposta que quizer dar-me, desprevenidamente, desassombradamente...
Não é dictador quem o quer ser, disse ha poucos dias o sr. Carlos Lobo d'Avila, n'um dos maiores deslumbramentos de talento e de palavra, que tem fascinado o meu espirito e consolado o meu coração... O illustre deputado, meu querido amigo, queria significar, que o sr. Fontes não tinha a elevada estatura de um dictador de raça.
Não é dictador quem o quer ser, repito eu agora com intenção differente. E o sr. Fontes não póde ser dictador a serio n'este paiz. Também é a única cousa que elle não póde ser... (Riso.) Onde estão as resistencias, que elle tenha de vencer?... No paço da Ajuda?... (Sensação) Na camara dos dignos pares?... Na alta bureaucracia do estado?...
Não, o sr. Fontes não póde ser dictador a serio. É a unica cousa que elle não póde ser. (Riso. - Muitos e repetidos apoiados.)
Por tudo isso, o tom da minha palavra é bem diverso do que tiveram os discursos dos meus nobres correligionarios. Havia indignação no que elles disseram; não é bem esse sentimento o que a dictadura de 19 de maio me inspira.
A mim abate-me o espirito, desalenta-me de todo, porque me dá a impressão da falta de caracter da nossa politica, e me convence cada vez mais de que, entre nós, não é o governo o que queria Guizot que elle fosse: o mais bello e mais nobre exercicio das faculdades humanas; a mim desconsola-me, faz-me tristeza, porque esta dictadura exercida por aquelle homem, significa, cruamente, falta de respeito pela boa fé dos que o apoiam e pela sinceridade dos que o combatem; a mim desgosta-me, magoa-me, por que não posso ver, de coração tranquillo, a vaidade feita poder, o interesse partidario mascarado de salvação publica, o impudor revestido dos attributos do governo, a fraqueza parodiando, numa comedia, os movimentos da força, e depois, e a final, a aritmethica da votação julgando definitivamente do direito e da moralidade de tudo! (Vozes: - Muito bem. - Muitos apoiados.)
Isto faz que muitos espiritos se afastem cada vez mais da vida publica, como se ella fosse uma profissão indigna; e eu, por mim, direi á camara que começo a pensar e discutir em minha consciencia se não será inutil, se não será esteril, se não será indecorosa a continuação do meu modestissimo logar entre os homens politicos da minha terra! (Muitos e repetidos apoiados.)
Vozes: - Muito bem, muito bem.
(O orador foi cumprimentado por muitos srs. deputados de todos os lados da camara.)

Redactor = S.Rego.