6 DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO
sr. conde de Rio Maior, e a respeito do qual v. exa. fez algumas observações.
Dizia eu que o sr. Sousa Monteiro havia sido reformado como empregado de uma das secretarias do estado, a que pertencia, no ministerio da marinha. Creio que por esse facto se entendeu que elle não podia continuar a estar aqui fazendo parte da repartição de redacção, e por conseguinte esta repartição ficou apenas com um empregado, que é o sr. Almeida e Araujo, cujos dotes e competencia todos nós reconhecemos. Agora perguntarei eu, apenas como lembrança: quem ha de substituir o unico redactor que hoje temos quando este empregado, por qualquer circumstancia, estiver impedido d’aqui vir, ainda que por pouco tempo? Ha de ser algum dos srs. tachygraphos? Sei que algum d’elles muito habil já tem prestado igual serviço, e talvez por este modo se possa fazer a substituição em caso de impossibilidade por parte do sr. Almeida e Araujo. Em todo o caso, v. exa. resolverá o que melhor entender; eu não faço mais que submetter um alvitre á consideração de v. exa., e por esta occasião devo acrescentar que é necessario retribuir muito melhor os empregados tachygraphicos, se queremos ter bom serviço. Não se póde obter tachygraphos, com as qualidades precisas, sem lhes dar estimulos, e para isso convem que haja accesso facil aos logares superiores, e remuneração condigna, não se deixando ao mesmo tempo de se examinarem, as suas aptidões e talentos.
É necessario que haja uma aula tachygraphica, e não me consta que hoje em dia ella exista. Emfim estou convencido de que v. exa. procederá sobre este assumpto com o tino que todos nós lhe reconhecemos, e satisfará os desejos do sr. conde de Rio Maior, e dos que desejamos que os nossos debates tenham a maior e a mais prompta publicidade.
Pedi a palavra para me occupar d’este assumpto, e não tinha mesmo tenção de fallar em outro, porque em breve teremos occasião de discursar sobre muitos outros importantes negocios. Apenas direi por agora, e o sr. ministro dos negocios estrangeiros, que tenho o gosto de ver presente, me fará de certo a fineza de communicar a minha intenção aos seus collegas. Apenas direi pois agora, repito, que desejo interpellar o sr. presidente do conselho, e o sr. ministro do reino, o sr. Sampaio, relativamente ao procedimento havido para com o sr. Miguel Maximo da Cunha Monteiro.
Para se pesar bem esse acto é necessario avaliar as circumstancias em que elle foi praticado; porque certo é que não póde haver delicto nem crime onde não haja a intenção. Ora, a mim afigura-se-me que no acto praticado pelos srs. ministros da guerra e do reino, a respeito do sr. Miguel Maximo, não influiu o amor da justiça nem o desejo de manter o prestigio do serviço publico. Portanto nós, que temos a honra de sentarmo-nos nos bancos da opposição d’esta camara, queremos esclarecer este e outros assumptos, e havemos de acompanhar em tudo os nossos collegas da outra casa do parlamento; porque é necessario que na opposição das duas camaras haja a união e a coadjuvação que devem manter os partidos em todos os corpos politicos.
É necessario, pois, que caminhemos juntos para acabar com todas as irregularidades, com todos os abusos e com todas as penitenciarias!
E necessario que mostremos ao sr. Fontes e aos seus collegas no ministerio que para manter a causa monarchica, a actual dynastia e o Senhor D. Luiz I, não são s. exa. os unicos competentes, e lhes mostremos quem são os outros.
Quando chegar a occasião opportuna, no campo dos factos e no campo da logica, applicando a critica a esses factos, chamaremos a terreno os ministros e os seus defensores.
É verdade que o governo não achou um cavalheiro para a pasta da justiça entre os seus correligionarios.
Foi necessario ir fóra procural-o, porque creio que não ha já regeneradores para poderem occupar os logares de ministros.
Tudo isto ha de ser tratado em occasião opportuna. Havemos de provar que a opposição não é um bando de aventureiros, como lhe chamou um jornal do governo.
É necessario mostrar ao sr. presidente do conselho que a opposição não é composta de aventureiros, mas sim de homens como s. exa., amantes das instituições que nos regem, porem promptos e decididos a combater todos os desperdicios e esbanjamentos, que não podem continuar! Havemos de chamar a attenção dos homens que assignaram o celebre parecer da commissão de fazenda, e outros, para virem ao terreno onde se combate com as armas da rasão e da justiça, para que digam se se póde chamar aventureiros áquelles que desejam pôr um prego na roda dos desperdicios!
Isto, e muito peior, dizem da opposição os defensores estipendiados do governo. E como eu faço parte d’essa opposição, e me honro muito de me sentar nas suas cadeiras repillo todos esses epithetos que podem affrontar a liberdade das nossas opiniões e o respeito que temos pelas instituições, e pela monarchia, que a todo o transe havemos de sustentar; instituições e monarchia representadas no senhor D. Luiz I, monarcha que ha de continuar a reinar em virtude da carta, que todos jurámos e continuaremos a sustentar, embora possa ser alterada em vista da experiencia e do progresso, sem se alterar todavia o seu espirito, para se tornar mais propria da epocha.
Nada mais tenho a dizer.
(O orador não reviu as notas dos seus discursos na presente sessão.)
O sr. Costa Lobo: — Pedi a palavra, para mandar para a mesa um requerimento pedindo esclarecimentos ao governo. Mas, antes e com relação ao que disse o sr. conde de Rio Maior, ácerca do serviço tachygraphico, tenho a ponderar que não concordo com a proposta a que s. exa. se referiu. Eu creio mesmo que não foi proposta que fez o sr. conde de Cavalleiros, mas apenas uma indicação; e vou dizer o motivo por que não concordo com essa indicação.
Nós não temos o corpo tachygraphico montado nas condições de fazer um serviço como era para desejar. Este serviço é mal feito; e quando digo mal feito, não me refiro ás pessoas, mas sim ao pouco pessoal e ás más condições da casa. Os srs. tachygraphos estão immunes de quaesquer censuras.
Eu tive occasião ultimamente de tomar conhecimento do que se passa no parlamento francez, onde este serviço é mais perfeito que em parte alguma. Ahi ha nada menos de tres relações da sessão.
Ha as sessões na sua integra, que são publicadas na folha official. Esta publicação é em geral lida apenas pelos proprios oradores e pelos seus amigos.
Alem d’esta publicação na integra ha uma outra, mais succinta, ainda que muito desenvolvida, a que chamam «icompte rendu analytique»; é a que vem nos diversos jornaes, e está a cargo dos redactores que a elaboram sobre as notas tachygraphicas.
A redacção é uma repartição especial. O chefe da redacção é um homem de letras, eminente, e os outros empregados são tambem de subida illustração e competentissimos não só para redigirem, mas para poderem entrar em todas as discussões que se ventilam no parlamento.
Alem d’este extracto desenvolvido, ha um outro extracto muito abreviado, a que dão o nome de compte rendu sommaire, em que, como a designação o indica, se dá uma conta muito resumida e summaria do que se passou na sessão. Este extracto é publicado pelos jornaes da noite, que o querem aproveitar.
Ha, portanto, tres publicações do que se passa na camara.
Entre nós a unica publicação e a do Diario da Camara.