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16 DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO

sure por eu discutir este assumpto onde reina a paixão como na assembléa a que eu hontem presidi, e não aqui aonde reina a rasão.

Sr. presidente, é verdade que o povo se apaixona, mas as suas paixões não estão por ora mal encaminhadas, e oxalá que se procure sempre levar as suas paixões para bom lado.

Sr. presidente, esta questão da doação ao sr. Paiva de Andrada é uma questão nacional, e em que não podemos entrar senão com verdadeiro espirito patriotico.

E exactamente como membro d’esta casa que eu tenho partido politico. Não entendo que homem nenhum, que tenha intervenção nos negocios publicos, possa deixar de aferir por certos principios as suas opiniões, e aferindo-as por quaesquer principios pertence necessariamente a um partido.

Sr. presidente, annuindo aos desejos de v. exa., e aos conselhos do sr. conde do Casal Ribeiro, não quero protrahir esta discussão, e por isso vou terminar tornando a repetir que estou prompto a entrar desde já na discussão de interpellação a respeito da concessão feita ao sr. Paiva de Andrada, já, amanhã, ou quando v. exa. quizer.

Sinto não me poder referir a documentos officiaes, mas como tenho a minha opinião formada, estou certo de que hei de fallar mais á rasão do que á paixão, animando-me sómente o sentimento nacional.

O sr. Conde de Rio Maior: — Pedi a palavra para perguntar a v. exa. se na mesa se havia tomado nota de que desejo entrar na discussão d’esta interpellação?

O sr. Presidente: — A interpellação é feita pelo sr. marquez de Sabugosa, mas o digno par pôde, assim como todos os outros dignos pares, entrar na sua discussão. Isto é o que manda o nosso regimento.,

O sr. Conde de Rio Maior: — É uma pequena observação.

Ha pouco, quando o sr. ministro da marinha declarou que estava habilitado a entrar n’esta discussão, eu disse á camara, que pela minha parte não tinha duvida em entrar desde já no debate, mas o que eu não disse foi que prescindia dos documentos.

Já vê o sr. presidente do conselho que foi mal informado, visto que não estava na sala quando fallei. Nas considerações que fiz, quando apresentei o meu requerimento, referi-me simplesmente á situação politica do paiz, e novamente terei de me referir a ella quando entrar n’esta discussão.

O sr. Marquez de Vallada: — Sr. presidente, é unicamente uma paraphrase ao meu requerimento.

Eu não vim aqui fallar com paixão, ainda que talvez já tenha estado apaixonado, e sinto não ver presente o sr. «onde do Casal Ribeiro para lhe declarar isto mesmo.

S. exa. tratou de um assumpto que eu tenho pena de não ver tratado n’uma academia de sciencias — a theoria das paixões.

E, realmente, quando se ouve um cavalheiro tão distincto, quando se tratam as materias de uma maneira tão clara, e com tamanha ausencia de paixões, captiva sempre, não só os cavalheiros que o ouvem, como as sociedades que o escutam.

Mas, sr. presidente, sinto não ver presente o sr. conde do Casal Ribeiro; porém, como o que vou dizer em nada offende a dignidade do digno par, posso dizer na sua ausencia o que gostosamente exporia se s. exa. occupasse o seu logar.

« Tratar as materias sem paixão», disse o digno par. Ora, parece-me que esta proposição, sem que seja acompanhada do devido desenvolvimento d’ella, que eu entendo conveniente, não póde ser apresentada em absoluto. Póde-se tratar sem paixão materias que affrontam a dignidade da patria?! O que é o patriotismo senão uma paixão?!

CO sr. conde do Casal Ribeiro regressou á sala.)

Acaba de entrar na sala o sr. conde do Casal Ribeiro, e por isso repetirei o que acabei de dizer; isto é, que respeitando muito o talento provado e a intelligencia robusta de s. exa., não posso deixar de impugnar a sua opinião relativamente a discutir as questões sem paixão. E impugnei-a tanto na ausencia de s. exa., como a impugno na sua presença.

As observações do sr. conde do Casal Ribeiro e as do illustre presidente d’esta casa, o sr. duque d’Avila, não dizem de certo respeito ás minhas reflexões, que fóram simples, embora inspiradas pelo sentimento do patriotismo.

A questão que o sr. conde do Casal Ribeiro esboçou, é uma questão que eu sinto não ver tratada em uma academia.

A theoria das paixões, que s. exa. nos apresentou simples, mas repassada de uncção patriotica, não póde ser applicada em absoluto; essa proposição não se póde sustentar.

O que é o patriotismo senão uma paixão? Em 1640 não foram só os 40 conspiradores, foi o povo todo, que estava repassado d’esse patriotismo, que acompanhou aquelles 40 homens, que tambem eram filhos do povo, e que estavam escudados com o sentimento do mesmo povo, que levantaram a bandeira da liberdade, da justiça e da independencia da patria, contra os conservadores de então, que queriam conservar as prebendas de Castella e a continuação das sinecuras.

S. exa. sabe perfeitamente, que n’esta camara, composta de tantos caracteres illustrados (sendo eu o menos sabido de todos os dignos pares) existe o sentimento patriotico. E eu desejo e peço á Providencia que me continue a conservar o sentimento da paixão patriotica.

Eu queria mesmo que esta nossa grande actividade se transformasse em paixão violenta.

É esta a minha opinião.

(Interrupção do sr. conde do Casal Ribeiro, que se não ouviu}.

Permitta-me o digno par dizer-lhe que os conservadores já não existem, já não ha que conservar senão a liberdade e a justiça, já não existem morgados, assim como deixaram de existir os frades.

O que eu quero são conservadores do bem, e não conservadores que não admittem as leis que tendem ao desenvolvimento do progresso.

Mas, continuando, direi que tem havido homens violentos pela paixão com que advogam os seus principios, como mr. de Villele, mas paixão nascida da convicção que lhe inspiravam esses principios, que todos nós devemos respeitar, embora não estejamos de accordo com elles.

A historia dos povos dá-nos d’estas lições, assim como nos aponta exemplos de grandiosas abnegações e de grandes actos de valor, não obstante esses actos serem muitas vezes inspirados por paixões violentas.

Estas palavras, sr. presidente, foram-me suggeridas pelo que ha pouco disse o sr. presidente do conselho no começo do seu discurso, e a minha idéa pronunciando-as é apenas fazer ver que não é a paixão que me faz fallar, mas unicamente o bem da minha patria e o respeito aos bons principios, que, segundo o meu modo de ver, foram desprezados pelo governo.

E agora devo dizer que não fui eu que levantei a questão de que nos estamos occupando; muito me honraria de ter tido a iniciativa n’este assumpto, mas o seu a seu dono.

Não me esquecerei do que disse o sr. ministro da marinha, quando ha pouco, annunciando que estava habilitado para dar todas as informações á camara ácerca da concessão do sr. Paiva de Andrada, declarou que se apressara em dar este passo unicamente por deferencia para com a camara.

Não foi de certo deferencia para commigo, porque não posso esperar deferencia dos srs. ministros, não digo deferencia pessoal: esta é propria dos cavalheiros que se sentam nos bancos do poder.