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SESSÃO DE 20 DE ARRIL DE 1887 51

Os professores nunca haviam levantado a sua voz n'esses recintos. Os que deviam ser alumnos continuavam jogando a arma biblica de David nas das e nas praças publicas. Os operarios faziam cursos nocturnos nas vendas e chinquilhos! (Muitos apoiados.)

Causou-lhe profunda tristeza este quadro de desventura social e fundou os institutos industriaes e agricolas. Abriu verdadeiramente e pela vez primeira as portas das aulas ás classes populares. Accendeu a primeira luz espiritual do ensino nas fabricas, nos campos e nas officinas! (Muitos apoiados.)

Não parou aqui a sua actividade proveitosa e febril. Com esmero parecido olhou ainda para outra provincia da administração publica.

As communicações íam tornar-se mais faceis pelas estradas e correios ordinarios, mas o pensamento humano, que podia ter a volatilidade e a expansão dos etheres mais subtis, só alcançára por vehiculo a azemola do arrieiro e o rodar pesadissimo da mala posta. Havia telegrapho, mas telegrapho phantastico, telegrapho de taboinhas, que pejava os pontos culminantes das torres e fortalezas, e de que só o estado tinha direito a servir-se nos dias amuraveis da primavera e de horisonte desanuveado. Fontes orlou as estradas com a rede dos fios telegraphicos. Tinha aberto o caminho para a circulação dos viajantes, abriu a estrada para o transito do pensamento. Creou a mala posta aperfeiçoada, sem guizos nem animaes de tiro, a mala posta que nunca se cansa, e que não pára em fazer mudas á porta das estalagens, a mala posta que abraça o mundo com as suas ordens. Fez descer das almofadas os antigos cocheiros, e nomeou conductor, sem attender aos empenhos, - o filho do relampago! (Muitos e prolongados apoiados.)

Conjunctamente institue os caminhos de ferro, trazendo a este paiz a maior evolução economica por que elle tem passado, desde o começo da sua existencia.

Com estes materiaes accumulados completou Fontes o seu monumento, muito antes de ser chefe do partido regenerador, e soube affirmar-se como o revolucionario mais audaz da sua epocha. Revolucionario sem polvora, triumphador sem victimas, heroe sem cortejo de sangue! Alguns cartuchos é verdade se empregaram por seu mando. Alguns tiros se deram á sua voz, mas toda essa polvora queimada foi contra as rochas e montanhas que se oppunham á passagem dos productos do trabalho nacional. (Muitos apoiados. - Vozes: - Muito bem.)

Fontes deixa como herança um grande livro!

Chamou Herculano á Batalha - o livro de pedra!

Ás obras de Fontes podemos todos chamar com justiça - o grande livro dos melhoramentos materiaes. (Muitos apoiados.)

Em qualquer d'estes livros existem abobadas de incalculavel arrojo e complicada estructura, que a voz da malicia e da inveja prophetisára, um dia, abaterem sobre a cabeça dos seus architectos!

No primeiro livro seria apenas a quéda de um monumento; porém, no segundo - dizia-se - que havia de ser a catastrophe de uma nação!

Mentiram todas a predicções.

Affonso Domingues jurou pelo sangue e corpo do Redemptor ficar sentado na dura pedra, durante tres dias, debaixo da abobada que elle traçára, e desde o instante em que lhe desarmassem os simples. Cumpriu o seu juramento e a Batalha está de pé! O testemunho dos seculos nos affirma que não se moveu uma pedra nem uma fenda se abriu!

Fontes levou mais adiante a sua audacia e teve maior confiança nos seus destinos. Permaneceu a pé firme a vida inteira sob o fecho da sua abobada, que era todo o paiz reconstruido por elle com infatigavel labor. A historia dirá tambem aos nossos filhos que o paiz não desabou. (Muitos e prolongados applausos.)

Sobrevive, Deus louvado, a patria ao patriota, mais rica do que nunca e lamentando dolorida a sua perda! (Muitos apoiados.)

Em vez de o sepultar nas ruinas, a patria inscreve no livro de oiro o seu nome a par dos maiores cidadãos, chora-o com lagrimas sentidas, que só verte por seus filhos mais dilectos, e ordena, a todas as gerações que o amem e respeitem, como elle soube amal-a e respeital-a, engrandecendo-a! (Muitos apoiados.)

O elogio de Fontes é facil de resumir.

Restituiu Portugal á Europa dos nossos dias, e com elle nos braços transpoz as fronteiras africanas dos Pyrineus, inventadas pelo sarcasmo de um estrangeiro, fazendo depois recuar essas fronteiras, em relação á sua patria, para alem dos Algarves! (Muitos e repetidos apoiados.)

Se houve tempo em que a Africa começava nos Pyrineus, Fontes roubou Portugal á Africa, e morreu deixando-o já no logar que lhe assignára a verdadeira carta do globo! (Muitos apoiados.)

Curvemo-nos, commovidos e respeitosos, diante do tumulo em que as suas cinzas repousam. Não esperemos um unico dia para lhe fazermos justiça. Aos que duvidarem da sua grandeza, levemol-os pela mão a visitar o paiz. Aos que quizerem um documento da nossa dor e profunda saudade, que lhes responda Lisboa, despovoando se, para seguir lacrimosa até á cova o cadaver do eminente estadista, a quem o futuro, na sua serenidade plena de julgamento, talvez venha a chamar um dia - o Pombal d'este seculo! (Muitos apoiados. - Vozes: - Muito bem.)

Algumas palavras mais como lembrança aos que se encarregarem do seu epitaphio.

O homem que por tanto tempo dirigiu os destinos de Portugal - nasceu Fontes e Fontes morreu! (Muitos e repetidos apoiados.)

O velho amigo da dynastia nunca pediu ao Rei para mudar de nome! (Muitos apoiados.)

Achou sempre que o honrado nome de seu pae era o melhor brazão da sua familia! (Muitos apoiados. - Vozes: - Muito bem.)

Fontes amou a patria, o Rei e o povo com os mesmos extremos do seu coração, e escolheu como o laço mais intimo que devia prendel-os - a paz, que nunca em suas mãos se quebrou!

Vozes: - Muito bem, muito bem.

O sr. Hintze Ribeiro: - Não era sua intenção pedir a palavra, por menos competente, se não fosse communicativo o sentimento n'uma assembléa, onde todos se reuriem n'um só pensamento, n'uma só idéa, n'uma só apotheose, quando até os maiores adversarios são os primeiros a confessar a pujança do luctador que a morte para sempre levou.

Ergue por isso tambem a sua voz, e se a palavra não serve para exprimir o sentimento, então inutil palavra, que de nada serve!

Protesta ser um dos homens, que mais admiravam as qualidades d'aquelle grande vulto, por quem tinha profunda veneração, de quem foi companheiro em alguns ministerios por elle presididos, mas companheiro fiel, firme, sempre com os olhos fitos no mestre, desejoso de aprender na sua escola, confiado no seu conselho, encontrando-o sempre forte, sobranceiro e tambem grande, generoso e bom.

Ante a sua memoria, portanto, vem igualmente depor o affectuoso tributo da sua saudade, de uma saudade bem pungente, saudade pelo amigo e pelo estadista, que tinha na sua consciencia o proposito firme de arrostar com as maiores difficuldades, em prol da causa publica, em prol da sublime idéa que se traduz n'uma só palavra: o bem da patria!

Fôra verdadeiramente grande o sr. Fontes Pereira de Mello, e entre os seus amigos prezado, como a quem recorriam nas conjuncturas mais difficeis. E se alguns houve.