10 ANNAES DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO
queimando, devastando, deshonrando mulheres casadas e solteiras deante dos pães e dos irmãos; Brescia, onde foram tantos os enforcamentos que o conquistador austriaco reclamou á municipalidade doze mil liras de despesa com a forca, que era só. para os homens, pois as mulheres eram açoitadas publicamente.
É essa grande e bemdita obra de emancipação politica que nos seminarios se ensina ser uma "historia de todas as traições e de todas as torpezas".
Como consente isto o Governo? Ha mais ainda: á revolução liberal portuguesa é ferretada com palavras de exprobação e de censura.
O Rei D. Miguel (p. 189, 3.° vol.), oppunha-se ás ideias revolucionarias de que "Portugal era perturbado". Seu irmão D. Pedro, em nome da liberdade, fez que "os desgraçados tempos de Pombal pareceram renascer". "O Santo Padre accusou o Governo Português de aggravos e ataques á religião do Estado".
E é este livro, que malsina a liberdade portuguesa, que combate o regime liberal, que affronta D. Pedro IV e a sua descendencia, aquelle que está sendo adoptado nos seminarios e por que se doutrina no seminario de Beja! A lei é expressa. Não se cumpre. Desattendem-na os Prelados. E o Governo, tão aspero para humildes e desprotegidos, recua perante o desrespeito praticado por quem, como grande do reino e recebendo honras iguaes ás do Rei nas praças e terras da sua diocese, tinha o dever, em nome da sua religião, por virtude da sua missão de paz, de ser o primeiro a acatá-la.
Os Ministros do Rei o Senhor D. Manuel deixam impune, sem o mais leve reparo á sua falta, o Prelado desobediente.
Em nome de que? Em nome da ordem? Em nome da Monarchia? Em nome dos interesses supremos da religião?
Mas então façam os Ministros que o Rei de Portugal rasgue as paginas mais bellas da nossa historia: e esses Ministros mandem riscar os nomes dos Reis que defenderam o poder civil ou, por supremas razões de Estado, procederam contra os Prelados de Portugal.
No começo da Monarchia, os villãos do Porto e os homens de armas do Rei D. Sancho I encerraram no seu paço episcopal o orgulhoso Bispo Martinho Rodrigues, que logrou fugir do carcere e arrastar se até Roma, na miseria e no soffrimento, a pedir vingança contra a Monarchia.
E o mesmo Soberano atirou para a sombra de uma prisão o Bispo de Coimbra, Pedro, que á Coroa não queria pagar os direitos senhoriaes.
A este Bispo de Coimbra tambem o Rei D. Affonso II o encerrou nos seus paços, para que apontava dizendo sarcasticamente:-aqui está o falcão e ali a garça: se a garça se mover, o falcão ha de preá-la", sendo tão defensores da Coroa os grandes Ministros d'este Rei que o Papa Honorio lhes chamava numa bulla violentissima "seus enganadores, como as rãs residindo nas camaras e retretes d'El-Rei.
D. Pedro I, diz a tradição, que desvestiu o Bispo do Porto das suas vestes prelaticias e o quis castigar corporalmente, com um tagante, como a mau e devasso pastor de almas.
D. João II, por defesa do poder real que concitava o odio dos grandes do reino, mandou lançar numa cisterna do castello de Palmella o orgulhoso D. Garcia, Bispo de Evora.
Na prisão expirou o Arcebispo de Braga Matos de Noronha o seu crime de conspiração contra D. João IV.
O piedoso e fanatico Rei D. João III, o sinistro introductor da Inquisição e dos Jesuitas em Portugal, desnaturou o Bispo de Viseu e seu escrivão da puridade D. Miguei da Silva, somente porque ousou impetrar do Papa, sem licença de El-Rei, o chapéu de cardeal, e deu ordem, que o Bispo evitou pela fuga, de o encerrarem numa torre.
No tempo de D. José, o Bispo de Coimbra D. Miguel d'Annunciação, pela publicação de uma pastoral que offendia as leis e circulara sem o previo beneplacito, foi reputado por morto e declarada por vaga a sua Sé, conforme o parecer de tres theologos, dos quaes dois eram Bispos - e um d'elles o grande Cenaculo, Bispo de Beja - sendo a pastoral queimada por mão do carrasco e o Bispo encerrado por 8 an-nos nos carceres de Pedrouços.
O Cardeal Patriarcha D. Carlos I, havendo-se recusado a jurar a chamada Constituição de 20, foi mandado sair immediatamente do reino e o Patriarchado foi considerado vago.
No tempo de D. Miguel, o grande Cardeal Saraiva foi preso por motivo das suas ideias avançadas, e conduzido entre soldados ao convento da Serra d'Ossa e ali sequestrado ao convivio de todos os frades.
Para que mais exemplos?
Foram inimigos da fé aquelles dois primeiros Reis, que tanto engrandeceram o nome de Portugal e dilataram o dominio da cruz, com a sua astucia e o seu montante, pelas terras dos sarracenos ?
Odiou o catholicismo aquelle Rei D. Pedro I que deixou na tradição popular tamanho sulco de respeito e de amor?
Era inimigo da fé de Christo, D. João II, o catholico fervoroso que tanto visitava, como logares de devoção as humildes ermidas do seu reino e cuja morte foi tão christã, estendido humildemente na terra o seu corpo, murmurando as orações dos agonizantes e dizendo aos Bispos que o tratavam por Alteza: - "Deixae, deixae, sou apenas cinza e podridão"?
Será acoimado de hereje aquelle pavoroso accendedor de fogueiras do Santo Officio que se chamava D. João III e, que, pelo seu fanatismo, perverteu e arruinou a alma de tantas gerações?
Merecerá o nome de impio o Rei D. José que morreu tanto no gremio da Igreja, amado e querido do chefe da christandade, e que teve a seu lado, a collaborar na obra do grande Ministro, Bispos e theologos?
Seria um atheu aquelle D. João VI que, no mosteiro de Mafra, rezava cantochão no coro da Igreja, com os frades do convento?
Mereceria o epitheto de excommungado aquelle Rei D. Miguel que os frades adoravam e que introduziu de novo em Portugal os jesuitas, agasalhando-os nas suas antigas residencias?
Pergunto-o á Camara!
Hoje, sob o Governo do Rei que não teria o throno se seu Avô não expulsasse os frades e os jesuitas, hoje, no regime de liberdade e democracia, hoje, na defesa de velhas regalias do poder civil, os Ministros não ousam ter sequer uma palavra de censura para os Bispos que falseiam a lei; e a Monarchia de um neto de D. Pedro IV e bisneto de Victor Manuel apparece inçada de todas as pusillanimidades perante as investidas do poder clerical! Pois direi d'aqui, a El-Rei, deante do seu retrato, rosto a rosto, que eu jamais ligarei o meu nome a transacções miseraveis e cobardes, que não consentiria em hypothese alguma que as leis do país fossem calcadas aos pés de Prelados orgulhosos - e que compromettem, deshonram, e acaso perdem a Monarchia aquelles que nem ao menos na defesa do poder civil cumpriram as velhas leis d'este reino.
Não quero demorar-se mais largo tempo sobre este assunto.
Direi somente que, em algumas dioceses, foram construidos edificios para seminarios apenas - se a houve! - com participação verbal aos Ministros; que os dinheiros dos seminarios são empregados a bom talante dos Prelados ; que estio fora das suas parochias sacerdotes que os Bispos mandam para a redacção dos jornaes que subsidiam; que medram conventos; que ha collegios dirigidos por jesuitas- e que o Governo nem ao menos manda proceder a um inquerito sobre estes gravissimos pontos.