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SESSÃO N.° 14 DE 15 DE ABRIL DE 1910 5

1833 e 28 de maio de 1834, que prohibiram as admissões a noviciados monasticos e extinguiram os conventos; quer-se a derogação do decreto de 18 de abril de 1901, por exorbitar dos poderes confiados ao poder executivo e offender as ideias modernas. Pretende-se a abrogação, pelo Parlamento, da lei relativa aos padres doutorados em theologia ou direito pelas universidades de Roma; reclama-se o cumprimento honesto e serio do decreto de 28 de abril de 1845, lei votada em Côrtes, regulando a criação e o funccionamento dos seminarios. O que ha nisto de questão religiosa?

Em que é que se offende o regime concordatario em que vivem a Igreja e o Estado?

Pois toda a campanha clerical é para insultar e deprimir os que fazem a simples reclamação do cumprimento da lei!

Contra mim e o meu partido a campanha de odios é formidavel.

Na monarchia, na luta contra a reacção ultramontana, os dissidentes estão pouco menos que sós.

Não me angustia essa situação; a minha fé redobra com o ardor dos ataques. Supprimam-me, se podem 5 senão, contem comigo.

Ainda agora, alem dos ataques da imprensa catholica, me veio ás mãos um documento importante, de que me foi permittido fazer uso. É a carta de um Bispo que o partido ultramontano detestava porque, quando foi da portaria no Prelado de Bragança, não veio ao Parlamento atacar-me.

Até de cartas anonymas se usou contra esse Bispo, até nos jornaes houve menoscabos á sua austeridade catholica, que, ás vezes, era exaggerada e ultramontana, e esse documento mostra até onde chega a cobardia moral dos que, a pretexto de defesa do catholicismo, hão de perder e arruinar a Igreja no nosso país como a perderam em França por não seguirem os conselhos de Leão XIII.

Nessa carta, de 22 de novembro de 1905, que está á disposição da Camara, diz o Bispo referindo-se aos processos contra elle usados:

«Não sei, mas desconfio que .é obra e vingança do partido nacionalista, porque eu não fui á Camara bater na portaria do Alpoim!

O Petardo (jornal infame) até declarou irem a Cardeaes os Bispos que no Parlamento bateram a portaria do Alpoim»!

Esta carta é do Sr. Dr. Sousa Monteiro, Bispo de Beja, antecessor do actual Prelado.

A Camara ouviu ?

É um documento significativo, é o grito de indignação de um Prelado contra os manejos dos chamados catholicos. E o brado de desespero contra um jornal que, como outras gazetas catholicas, se tem assinalado pelas suas injurias aos liberaes. É a formidavel demonstração de como os odios clericaes nem sequer poupam os membros da Igreja quando estes se não associam á sua obra de rancor e de paixão.

São. estes catholicos, de coração duro e cerebro espesso, que perderam a Igreja em França.

Saiu agora á luz, em Paris, um livro do padre Fremont, grande orador sagrado, apologista habil, sacerdote tão fervoroso na sua fé que os Bispos lhe offereceram um presente de honra.

Intitula-se: « O grande erro politico dos catholicos franceses», e é um verdadeiro soluço de dor por os catholicos correrem após os elementos reaccionarios da politica francesa e não se haverem associado á grande e invencivel corrente dos partidos democraticos.

O autor conta o que se passou na audiencia que, a 13 de janeiro de 1901, lhe concedeu Leão XIII, o admiravel velhinho de alma tão grande que todo o seu corpo, delicado e fino, parecia um espirito retido pelo fragil envolucro de carne e de nervos, apenas o bastante para se não evolar da terra.

Leão XIII lamentou-se, em palavras de doçura e de magua, da loucura dos catholicos franceses em correrem após os partidos do passado: disse que elles praticavam a «politica das catastrophes». E acabou: «eu nada posso! eu nada posso! fecham os ouvidos para me não escutar»!

Breves annos após, as audacias do Nuncio Montanini e os erros de alguns Bispos provocavam a separação da Igreja e do Estado, arrancavam ao clero francês os beneficios do Thesouro, e, a esta hora, já teem sido encerrados alguns seminarios porque a desfallecida piedade dos fieis não dispensa ouro para os sustentar.

Foram as congregações poderosas, os jesuitas omnipotentes, os Bispos loucos e ousados, os jornalistas provocadores, a multidão desvairada dos fanaticos que levou á catastrophe a igreja de França, a qual ousou erguer-se no máo da torrente democratica como a querer demorá-la e sustê-la.

Entre nós hão de perder a Igreja alguns dos seus Bispos; como hão de perder a Monarchia, se o Paço não souber reagir aos seus conselheiros.

O Sr. Bispo de Beja é o exemplo vivo d'esses Prelados de alma seca, cerebro fechado a toda a luz da liberdade, espirito orgulhoso, lembrando somente pela cruz que traz ao peito a doce religião de Christo.

E essa cruz de ouro e pedrarias, que não semelha em nada o lenho do Golgotha, parece coar nalguns peitos episcopaes, sobre que pousa, o seu frio metallico e cruel!. ..

Não vá imaginar-se que eu ataco todos os Bispos portugueses. Ah! não! Nelles conto bastantes e grandes amigos e a minha consciencia diz me que a alguns fiz grandes beneficios.

Reconheço a necessidade de todo o respeito aos Principes da Igreja, não só como sacerdotes, mas tambem como altos funccionarios do Estado.

Quero, porem, que elles amem e sirvam esse Estado, ao qual devem a mitra e que lhes paga generosamente, em honras e benesses, a sua missão de padres e as funcções do seu cargo no Estado.

Combato os Bispos quando elles, como o Sr. Bispo de Beja, são um symbolo da audacia ultramontana.

E é verdade, onde estão os Bispos portugueses?

Circunvago os olhos pela sala e não os encontro.

Em vão procuro as purpuras prelaticias, os solideus caracteristicos, as refulgentes cruzes peitoraes, todas essas galas principescas que põem uma nota colorida e viva, quasi de feminina sumptuosidade, nesta sala triste, monotonamente sustentada por columnas de marmore, sombria na luz escassa que do alto escorre.

Por que não vieram?

Por que não atravessaram, para vir á capital, as povoações dos seus bispados onde a lei lhes concede honras iguaes ás dos Reis?

Por que não vieram nos comboios do Estado, que, por lei, lhes dá passagem gratuita nas suas linhas?

Por que não deixaram, só por dias, as vastas salas dos seus paços, onde? por lei, o Estado os alberga?

Por que não se associaram, na defesa ao Bispo, ao menos em telegrammas que, por lei, o Estado lhes não faz pagar?

Por que não vieram aqui onde o Estado lhes dispensa a maior das honras, que é a de terem logar no Parlamento Português?

Pois não dizem as suas gazetas que o Sr. Bispo de Beja, seu par no principado da Igreja, é alvo dos ataques de todos os maçons e de todos os demagogos?

Pois não escrevem as gazetas catholicas que a fé, a pureza, a virtude, são aggredidas na pessoa austerissima d'aquelle Prelado ?

Onde está a palavra eloquentissima? viva como um clarim, do Sr. Patriarcha, que, se fosse outrora, seria capaz, pelo seu genio lutador, de trazer a cota de malha guerreira sob a seda das suas vestes?

Por que se não escuta a eloquencia