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SESSÃO N.° 14 DE l5 DE ABRIL DE 1910 9

bentur inaprimatur, aut vendatur, aut babeatur». (Pag. 166).

«Sobre os livros de Theologia Pastoral e Sociologia, Theologia Moral e Theologia Sacramental, não emitte parecer esta secção permanente, visto que não os póde ainda obter.

«Sala das sessões, 24 de fevereiro de 1910. = Jaime Constantino de Freitas Moniz, José Maria Rodrigues, Agostinao Celso de Azevedo Campos, Achilles Alfredo da Silveira Machado, Manuel da Terra Pereira Vianna, José do Carmo Lino de Sousa, José Augusto Coelho, José de Carvalho e Silva, José Curry da Camara Cabral, Ildefonso Marques Mano».

Veja a Camara estes nomes.

São de algumas das nossas maiores illustrações.

Ha nelles algumas individualidades pertencentes aos partidos conservadores : pois entendem que o livro do Padre Rivaux, Tratado de Historia Ecclesiastica, não pode ser adoptado nem com a tacita nem muito menos com a expressa approvação do Governo de Vossa Majestade.

Pois é-o. Por elle se lecciona no Seminario de Beja, e noutros seminarios, segundo consta. Pois esse livro, traduzido em português, é precedido de uma carta de applauso de um Prelado nosso!

Como é que o Sr. Ministro da Justiça supporta, até por decoro pessoal, semelhante affronta?

Em que situação fica collocado elle, e os homens que assinaram aquelle parecer ?

Tenho em meu poder a obra de Rivaux. Deu-m'a um padre, nobremente magoado pelas audacias reaccionarias: levou m'a a casa.

É assombroso o que se lê nesse livro. O Deus dos christãos, o Deus infinitamente bom, que na fé catholica encarnou humanamente no doce e piedoso Jesus de Nazareth, surge em paginas d'esse livro como o velho Zeus da mythologia, abrasado de odios, comprazendo-se na vingança e ferocidade.

Basta um facto: a paginas 186 e 187 do 1.° volume, referindo-se ao imperador Valeriano, que perseguiu os christãos:

«A vingança divina — diz Rivaux — fulminou Valeriano do modo mais terrivel. Vencido e prisioneiro dos persas, elle foi um objecto de ludibrio para o Rei Sapor, que o mandou esfolar vivo, depois de se ter servido d'elle, durante sete annos, como de estribo para montar a cavallo». (Riso).

Ensina-se que Deus, a suprema piedade e bondade, se comprazia, por vingança, ao ver esfolar vivo o Imperador romano, e em lhe dobrar o corpo para estribo do déspota da Persia.

Que Deus era então esse Deus de suprema misericordia?

A Revolução Francesa, de onde sairam as sociedades modernas, é, segundo Rivaux, uma obra de infamia e sedição, obra de sangue e de lama.

Os Deputados do Terceiro Estado «tiveram a audacia de se declarar independentes, inviolaveis e superiores ao mesmo Rei, o qual, segundo elles, não era mais do que um mandatario do povo, um funccianario publico», esquecendo Rivaux que entre esses revolucionarios estavam muitos dos humildes membros do clero francês que abandonaram os Bispos e se juntaram ao Povo.

A Convenção, uma das mais santas e bellas assembleias da humanidade, «levou a barbaria até aos limites do possivel». Os chefes vendeanos eram «heroes» e os generaes da Republica «praticavam atrocidades». Os democratas, «saltimbancos do liberalismo». A soberania do povo «um dogma impio».

É isto, e muitas coisas de igual mentira e igual revolta contra a liberdade e democracia, o que se ensina nos seminarios.

O que se diz a respeito da obra immortal da unidade italiana levanta as consciencias num movimento de suprema indignação: «A historia da formação do reino de Italia é a historia de todas as traições, de todas as torpezas que possam imaginar-se. Não existe talvez, nos fastos da Europa, um facto mais immoral e vergonhoso».

É pois a obra da unidade de Italia uma obra infame de traições e de torpezas !

Mas, então, consente-se nos seminarios d'este reino que assim se fale na grande epopeia heroica da nação de Italia, d'esse país onde um Rei de Portugal foi buscar para Esposa a filha do Excommungado ?

Então, nesses seminarios, que um Prelado aqui nos disse não serem escola de revolução contra a Familia Real, assim se arrasta pela ignominia e opprobrio o nome de um dos maiores países da Europa, ha pouco mais de trinta annos ainda anarchizado e dividido e hoje uma das nações mais florescentes do mundo?

Pois ensina-se áquelles que hão de ser curas de almas que é uma torpeza a unidade da Italia, pela qual o Bisavô do nosso Rei, Carlos Alberto, padeceu as dores do exilio, vindo terminar no Porto uma carreira de heroismos, pela qual seu Avô affrontou as coleras dos homens e as maldições dos Céus, pela qual seu Primo estende a sombra do glcrioso pavilhão da patria pelo chão abençoado d'essa Roma, onde a terra era ennegrecida pelo velho estandarte do poder temporal?

Pois toda essa obra maravilhosa de diplomacia e de guerra, toda essa epopeia sublime de uma patria que reune os pedaços da sua alma repartida nas mãos de ferro de estrangeiros é uma obra de traição e torpeza?

Eu senti uma das maiores commções da minha vida quando, numa tarde de outono, subindo á pequena povoação de Fiesole, que domina Florença, com os seus largos e saudosos horizontes fechados pela linha azul dos Apennos, vi o monumento em que se destacam, a cavallo, cruzando-se num encontro, os dois grandes heroes da unidade italiana, Victor Manuel, o Rei, e Garibaldi, o Plebeu.

Aquelle enverga o seu uniforme de general, este a larga camisola tradicional, aberta no peito, onde batia um tão largo e nobre coração.

Naquelle grupo está symbolizada a unidade da Italia feita por um Rei e por um Filho do Povo, por áquelles dois que atravessaram as das de Nápoles num coche, seguidos pelo olhar enternecido e pelas saudações harmoniosas das mulheres, que, no seu culto por Garibaldi, diziam que elle era invulneravel, por haver sido vacinado com uma hostia consagrada e que tinha o condão de amortecer as balas nas dobras da sua camisola vermelha!

Eu vi a estatua de Napoleão III, erguida em Milão, vi a estatua de Cavour levantada numa das praças de Florença — mas nenhum d'esses monumentos me deu uma impressão tão profunda, tão frisante, como esse grupo de bronze no planalto de uma collina dominando Florença.

Uma obra de traições e torpezas! Por ella padeceram morte affrontosa, na forca, homens, mulheres, crianças e até clerigos, que se puseram á frente do movimento revolucionario, como o Frade Lucca e o Padre Gravazzi, de Bolonha.

Por ella, teve Pio IX, antes de se entregar á reacção, os dias mais radiosos da sua vida; quando, encarnando em si as aspirações unitarias da Italia, o povo o saudava febrilmente nas das da velha Roma, desatrelando-lhe os cavallos e puxando triunfalmente a carruagem.

Por ella, foi Pio IX insultado nos pamphletos sanfedistas espalhados na Romagua e chamado o «intruso Matai».

Por ella, viu o mundo o admiravel espectaculo de o general austriaco Nugent, ferido de morte á frente das columnas de assalto contra Brescia, ditar o seu testamento «antes de expirar e escolher para herdeira a nobre cidade que elle combatera e de que recebera a morte : legava todos os seus haveres á horoica Brescia» — Brescia, em que as tropas austriacas haviam entrado,.