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86 DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO

continuar a existir sob o nosso poder. A conclusão é desagradavel para nós, mas é verdadeira.

Estive por algum tempo no ultramar e observei como as cousas ali se passam, confesso com toda a franqueza; alegrava-se-me o coração quando via a sympathia e affeição, que os povos d'aquellas regiões teem pelos portuguezes, e depois entristecia-me quando me lembrava, que nós lhes retribuiamos com tamanha ingratidão, não dando o menor passo para o seu progresso moral, nem mesmo material.

Recebi pelo paquete que hontem chegou de Africa uma carta de Angola; não a leio á camara porque desejo não fazer o papel de accusador; essa carta pinta com vivas e tristes cores o estado lastimoso em que se acha a religião e a igreja n'aquellas paragens.

O digno prelado, que hoje preside á igreja angolense, desprestigiado e sem força, de que carece para cumprir a sua missão divina, porque lhe faltam elementos, está, permitta-se-me a comparação, como um general sem soldados. Sim, faltam-lhe cooperadores habeis e idoneos, e o que é mais cruel para o seu coração de pastor, é não ter esperanças de os ter, porque o viveiro onde podiam e deviam ser creadas essas plantas, não existe ha muitos annos. Fallarei claro, não ha seminario n'aquella diocese, ou se o ha não funcciona, que e o mesmo que não o haver. Não culpo o sr. ministro da marinha e ultramar por esta falta; sei que s. exa., quando d'aqui partiu o sr. bispo d'aquella diocese, deu ordem para abrir o seminario diocesano, mas em Africa ha quem governe mais do que os ministros, e o que é verdade é que o seminario ainda está fechado. Talvez a camara se admire!!! Mas estas cousas passam-se em Africa, e ali por ora não ha lei, a não ser a vontade de alguem a quem todos obedecem como os planetas e seus satellites ao astro luminoso. Existem apenas no bispado angolense cinco a sete padres que foram do reino, alguns d'elles porque aqui a fortuna não lhes era propicia; e é com estes ecclesiasticos que nós pretendemos satisfazer ás necessidades espirituaes d'aquella vasta diocese, civilisar e moralisar aquelles povos!? Parece-me, digo afoutamente, que não.

Quando fui confirmado bispo de Cabo Verde, o meu primeiro cuidado foi logo a creação de um semmario-lyceu n'quelle archipelago.

Era então ministro da marinha e ultramar o digno par do reino, o sr. visconde da Praia Grande de Macau. Estimo bastante que elle agora esteja presente, porque s. exa. poderá dar testemunho da declaração que eu fiz n'essa occasião a s. exa., e que vou agora repetir á camara.

Disse, eu, n'uma conferencia a s. exa.: "Eu não devo partir para Cabo Verde sem que v. exa. estabeleça n'aquelle archipelago um seminario-lyceu; ir para lá só para deitar a benção episcopal aos meus diocesanos, é serviço que posso fazer de Lisboa".

S. exa., como homem sciente das necessidades do ultramar, creou n'aquelle archipelago um seminario-lyceu; lá está elle agora funccionando debaixo dos melhores auspicios; ainda cheguei a ver os seus fructos ordenando alguns alumnos que ali se educaram, e que hoje estão parochos, e um d'elles conego e professor do mesmo seminario; e tenho as mais lisonjeiras esperanças, que debaixo da assidua vigilancia e zêlo religioso do digno prelado que actualmente preside áquella diocese, e pela protecção do activo governador geral da provincia, aquelle seminario ha de continuar a dar fructos de benção para poder acudir ás necessidades espirituaes dos povos do archipelago de Cabo Verde.

O mesmo digno par é testemunha de que, como foram grandes as difficuldades com que lutei, as contradicções que experimentei, os desgostos que soffri, aqui e lá, verificou-se, vale mais querer, que poder. Eu mesmo tive de comprar os trastes e utensilios necessarios para o estabelecimento da casa, e o digno par deu-me por essa occasião todo o auxilio de que podia dispor, e força é confessar para satisfação do digno par e completa justiça, que o seu nome está vinculado para sempre áquelle benefico estabelecimento, e eu ainda agora lhe repito os meus sinceros agradecimentos, por mim, e em nome dos meus antigos e sempre queridos diocesanos.

Sr. presidente, com estas minhas reflexões pretendo só e unicamente mostrar a necessidade da creação de seminarios no ultramar na falta de outros elementos, e com ellas não pretendo censurar o governo actual nem os preteritos ou futuros.

Supponho, e até creio, que todos os ministerios têem vontade de fazer o bem, de administrar com justiça os negocios que lhes estão confiados, mas infelizmente as graves questões que hoje agitam a Europa trazem preoccupados os nossos homens de estado, na resolução de graves problemas, que lhes não deixam tempo para cuidar de outros assumptos; mas o que eu desejo demonstrar é que os seus delegados n'aquellas regiões (Africa) não teem procedido como era do seu dever.

Sinto bastante que não esteja presente o sr. ministro da marinha e ultramar para lhe pedir que, o mais breve que possa, mande abrir o seminario em Angola, porque noa não podemos civilisar, nem educar aquelles povos com a força bruta, mas sim com a força moral, porquanto a força bruta, a força das armas, chega só até certo ponto, ao passo que a força moral é permanente.

Não convem civilisar incutindo o terror, porque esse desapparece, e por consequencia a civilisação, filha d'elle; mas convem civilisar por meio do Evangelho, que só elle nos póde dar preponderancia e ascendencia, porque foi com elle tambem que os nossos maiores conseguiram trazer para a corôa portugueza aquelle patrimonio.

Sr. presidente, estou convencido de que nós sem colonias não somos cousa alguma, são ellas ainda que nos dão a importancia que temos; desde o momento em que as percamos acontecer-nos-ha sermos como os novos gregos, que, divididos em fracções, e dominados por ellas, caminharemos para a nossa ruina.

Repito o meu pedido ao sr. ministro da marinha; mande s. exa. abrir quanto antes o seminario de Angola, faça com que se cumpram ali as suas ordens, attenda antes de tudo a está questão, aliás iremos pouco a pouco perdendo o prestigio que temos nas nossas colonias, e, quando mais tarde lhe quizermos acudir, já não será tempo.

Se esta questão continuar a ser tratada, como espero, tomarei parte n'ella, e pedirei certos esclarecimentos ou correspondencias dos prelados do ultramar, que devem estar na secretaria da marinha.

Por hoje tenho dito.

O sr. Presidente: - Vae ler-se o requerimento que mandou para a mesa o sr. conde de Cavalleiros.

(Leu-se na mesa.)

O sr. Bispo de Lamego: - Sr. presidente, não tratarei agora de demonstrar a necessidade e importancia das missões do ultramar, reservando-me para o fazer quando for presente a esta camara o parecer da commissão, com respeito a este importante objecto Pertencendo porem á commissão dos negocios ecclesiasticos, cumpre-me dizer, como explicação ao sr. conde de Cavalleiros, que, da minha parte e da dos meus collegas da commissão, não tem havido descuido em apresentar o parecer sobre o requerimento que ha dias s. exa. enviou para a mesa. Não tendo porém estado em Lisboa o presidente da commissão, nem tendo comparecido n'esta camara alguns dos dignos pares que a ella pertencem, não tem sido possivel haver uma reunião; agora porem que a commissão foi completada com os dignos pares bispo de Bragança, conde de Rio Maior e visconde de Portocarrero, brevemente reunirá, e desde já declaro que, tendo fallado com o sr. Moraes Carvalho, e com outros dignos membros da commissão, estão todos de accordo em tratar d'este negocio com a maior brevidade possivel.