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4 ANNAES DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO

O Sr. Sebastião Baracho:- Cavalheiros? É favor...

O Orador : - Cavalheiros, sim. Não tenho a honra de os conhecer, mas um d'elles pertence á aristocracia.

O Sr. Sebastião Baracho: - Alguma excepção, o que confirma a regra.

O Sr. José de Alpoim: - Peor ainda!

O Orador: - Chegados á presença de El-Rei, disseram-lhe que a liga tinha sido instituida com o fim de promover o bem da monarchia e da patria.

Sua Majestade respondeu-lhes que agradecia as suas homenagens, e louvava-os pelo intento de promoverem o bem da monarchia e da patria.

Um dos cavalheiros leu a Sua Majestade a representação que levava, e Sua Majestade respondeu que entregaria essa representação ao seu Governo. Assim fez.

O Governo, portanto, não tem a menor responsabilidade no caso, que é apenas o de uma infracção do protocollo.

De resto, o direito de petição ou representação é livre.

Fica assim rectificada a noticia que appareceu na imprensa.

O Digno Par chamou-me tyranno.

Nunca tive propensão para tyranno. Prezo-me de liberal.

O Sr. Sebastião Baracho: - Presumpção e agua benta cada um toma a que quer.

O Orador: - Como professor tenho sido exigente, como militar tenho sido disciplinador, como funccionario tenho procurado cumprir os meus deveres, mas sempre fui adverso á tyrannia. O meu aumento de nutrição talvez seja devido ao vencimento de Ministro, mas creio que é resultante da vida sedentaria que levo.

O Sr. João Arroyo: - E de contentamento pelo que se passa na Companhia do Credito Predial.

O Orador: - Contente estaria eu se visse considerar essa questão em harmonia com os interesses de tantas pessoas que naquella companhia teem o seu dinheiro, e em harmonia com os interesses da nação.

O Sr. João Arroyo: - E tambem com os da moral e da lei.

O Orador - O Governo tem sempre cumprido a lei; posso dizê-lo com altivez.

O Sr. João Arroyo: - Quem pratica

o que o Governo tem praticado, não tem direito a faiar assim.

(Sussurro).

O Sr. Presidente (elevando á voz): - O Digno Par não tem a palavra.

O Sr. José de Alpoim: - Não se fala assim d'esse logar.

Uma voz: - Então a presidencia não ha de manter a ordem?

O Sr. José de Alpoim: - Sim, mas de outra maneira.

O Sr. Presidente: - Não fui descortês para com os Dignos Pares. Quando falo tenho o maior cuidado...

O Sr. José de Alpoim:-Peço ao Sr. Presidente que me não dê lições, porque não lh'as acceito.

O Sr. Presidente: - O Digno Par é que parece querer dar lições de delicadeza.

Quem fala agora é o Sr. Ministro do Reino.

O Sr. José de Alpoim: - Quem primeiro deve estar dentro da delicadeza é a mesa,

O Sr. Presidente: - Não disse cousa alguma que pudesse offender. Apenas levantei a voz para ser ouvido.

O Sr. João Arroyo: - Não nos concede que abramos a boca.

Por muito que seja o meu respeito pessoal pelo Sr. Presidente, e pela magistratura que S. Exa. exerce, não posso deixar de reivindicar os meus direitos.

O Orador: - Falo com a convicção de que tenho cumprido os meus deveres.

A respeito da Companhia do Credito Predial, hei de cumpri-los até o fim. Não estou no Governo para outra cousa.

O Sr. João Arroyo: - O que sã tem procurado servir é a inviolabilidade do partido progressista.

O Orador: - O Governo pertence ao partido progressista; mas no desempenho das suas funcções não é serventuario de partido algum, é servidor do país. Podem alguns Dignos Pares não estar de acordo com o Governo, mas está a maioria do país.

O Sr. João Arroyo: - Protesto energicamente contra a affirmação do Sr. Ministro do Reino. Isso é absolutamente falso.

O Sr. José de Azevedo Castello Branco: - Não se pode admittir ta! mação.

O Orador: - É um facto.

O Sr. José de Alpoim: - E inexacto.

Sussurro.

O Sr. Presidente agita a campainha,

O Sr. João Arroyo: - Trate o Sr. Ministro do Reino da Bastilha, e deixo a Companhia do Credito Predial para depois.

O Orador: - Não tenho culpa de que os Dignos Pares me interrompessem, com apartes, a que tive de responder,,

O Sr. Presidente: - Peço ao Sr. Ministro do Reino o favor de ser breve.

O Orador: - Estou usando da palavra por concessão da Camara, mas se o Sr. Presidente quer, calar-me hei.

Se o Sr. juiz de instrucção criminal vae ao Paço, é com a mesma intenção que qualquer outra pessoa; é para apresentar as suas homenagens e a Sua Majestade.

O Sr. Sebastião Baracho: - As idas, a meude, do juiz de instrucção ao Paço, ainda quando fossem de simples cortesia, seriam suspeitas pela sua frequencia; suspeitas e compromettedoras.

O Orador: - Nem elle era capaz de lá ir com outra intenção, nem o augusto Chefe do Estado lh'o consentiria. (Apoiados).

S. Exa. é um funccionario zelosissimo, que cumpre os seus deveres e a lei.

O Sr. Conde de Arnoso: - Apoiado. (Outros apoiados).

O Sr. João Arroyo: - Mas não s. cumpre no caso do Credito Predial.

O Orador: - Esse magistrado procede com uma isenção que muito e honra.

Folgo de prestar homenagem ás suas altas qualidades.

S. Exa. não reviu.

O Sr. Sebastião Baracho: - Declaro que tambem me não satisfizeram as explicações do Sr. Ministro do Reino. Voltarei, porventura, ao assunto e folgarei com que S. Exa. não esteja já então internado na Bastilha, o que são seria para admirar, com os tempos que vão correndo.

(S. Exa. não reviu).