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10 DIARIO BA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO

podia ácerca da accumuladores citar Virgilio que se occupou dos Briareus, como já dis^e, a que tambem se refere o nosso grande épico no canto v, estancia II. O grande épico seria tambem invejoso? (Riso.)

Eu já n’outra occasião me referi aqui aos Briareus, mas não expliquei claramente o que eram, o que faço n’este momento. Os Briareus, sr. presidente, eram uns monstro gigantes,) que tinham cada um com braços com que abarcavam tudo...

Victor Hugo, no seu magnifico episodio Les travailleurs de la mer até no fundo do mar os descobriu. A camara conhece a medonha lucta travada entre Gilliatt e la pieuvre ou polvo gigante que o envolvia, nos seus tentaculos enormes, e de que só póde ver se livre por um supremo esforço e golpe certeiro da sua navalha.

Victor Hugo ignorava talvez (aliás teria tirado d’essa circumstancia um grande partido) que o systema mais prompto e efficaz usado pelos pescadores da minha terra natal para aniquilar a vitalidade dos Briareus do mar é voltar-lhes o capello, resultado que eu desejo conseguir com o meu projecta. (Riso.)

Releve-me a camara que eu para fechar com chave de oiro as citações que, á falta de auctoridade propria, tenho feito para dar á minha opinião a força que a minha convicção, embora sincera e firme, não pôde dar lhe, leia a opinião do nosso immortal padre Antonio Vieira.

A camara de certo que se vae deleitar ouvindo ler esta pagina eloquente, vernacula e philosophica:

«Ha sujeitos na nossa côrte que têem logar em tres e quatro tribunaea, que têem quatro, que têem seis, que têem oito, que têem dez officios.

«Não era christão Platão, e mandava, na sua republica que nenhum official podesse aprender duas artes. É a rasão que dava era: porque nenhum homem póde fazer bem dois officios.

«Se a capacidade humana é tão limitada que para fazer um barrete são necessarios oito homens de artes e officios differentes: um que crie a lá, outro que a rosquie, outro que a carde, outro que a fie, outro que a teça, outro que atinja, outro que a tose e outro que a corte e cosa.

«Se nas cidades bem ordenadas o official que molda o oiro, não póde lavrar a prata, se o que lavra a prata não póde bater o ferro; se o que bate o ferro não póde fundir o cobre; se o .que funde o cobre não póde soldar o chumbo, nem tornear o estanho, no governo dos homens, que são metaes com uso de rasão, no governo das homens, que é arte das artes, como hão de ajuntar em um só homem, ou se hão de confundir n’elle tantos officios? Não louvo nem condemno, admiro me com as turbas.» Admiravel.

Sr. presidente, eu appello para a consciencia da camara, pedindo-lhe que me diga se depois de todos estes factos não tenho rasão sobeja para pugnar com tanto ardor por este projecto.

Veja v. exa. a que tristes circumstancias nos levaram os homens politicos do nosso paiz.

Não me fallem dos heroes; eu tenho medo d’elles, dizia José Estevão, no seu eloquente e energico discurso sobre a Charles et Georges.

Elle tinha medo dos heroes! Eu tenho medo dos homens de grande talento na governação publica, e sabe v. exa. o que disse o celebre medico francez Charcot, «quando foi perguntado sobre qual era a opinião que tinha a respeito d’elles? Disse que eram todos doidos, e que não deviam andar em liberdade. (Riso.}

E que a sua opinião era tanto mais fundamentada quanto era certo que elle acabava de receber uma obra de Inglaterra, muito notavel, intitulada a Loucura e o genio, de Garnier, que o meu digno collega e velho amigo o sr. Thomás de Carvalho de certo conhece.

Esse livro provava que havia como que um certo desequilibrio no cerebro dos homens de grande talento.

Não se desconsole, porém, com isto, o meu illustre collega, porque perguntando alguem a Oharcot se tinha a mesma opinião a respeito dos medicos, elle calou se. (Riso.}

Portanto, esta allusão não póde applicar-se ao meu velho amigo Thomás de Carvalho, que, alem de muito talento, tem muito bom senso. Igualmente não é isto allusão ao sr. presidente do conselho, que possue as mesmas qualidades; e a proposito, sinto que s. exa. não esteja presente para me dizer se concorda com o sr. Antonio de Serpa em que este projecto é absurdo. Decerto que não.

Igualmente sinto não ver presente o sr. bispo de Bethsaida, tambem meu velho amigo, actual ministro da justiça, porque depois do brilhante discurso que s, exa. aqui pronunciou, era natural que me acompanhasse n’esta campanha, defendendo a moralidade politica.

Da rejeição d’este projecto podem resultar graves perigos, e eu, muito superficialmente, vou dizer á camara em que elles consistem.

A missão essencial da realeza atravez dos seculos tem sido sempre conservar, manter e augmentar os territorios.

Foi assim que firmaram os thronos de Affonso Henriques, D. Manuel e D. João I.

A historia das nações demonstra que sempre que os réis esqueceram essa alta missão os thronos sentiram-se abalados.

Coincidiu a separação do Brazil com a revolução de 1820; a venda de Solor com a revolução de 1851.

O tratado com a Inglaterra, de 10 de agosto de 1890, causou um certo abalo no throno do sr. D. Carlos I, bem como a sedição militar de 31 de janeiro de 1891, com o tratado ultimamente celebrado com a Inglaterra.

A Luiz XVI o povo de Paris poz-lhe brutalmente na cabeça em 20 de junho de 1792 o bonet phrygio.

O manifesto de Brunswick, apresentando o infeliz rei ás turbas, como traidor, fez com que fosse desthronado em 10 de agosto do mesmo anno, e a convenção arrastou-o ao cadafalso. Que horror!!!

Napoleão III perdeu a corôa na batalha de Sédan e o rei da Prussia constituiu o imperio de Allemanha.

A Russia resiste aos nihilistas com o fito em Constantinopla, procurando alargar a sua influencia na Asia.

A Inglaterra resiste á separação da Irlanda, á emancipação da India, e alarga insaciavelmente a sua influencia na Africa.

A França não pensa senão na reivindicação da Alsacia Lorena.

Tudo para alargarem os seus territorios, como a Italia e a Belgica se não descuram de fazer.

A monarchia hespanhola levantou-se de pé como um só homem contra as pretensões do collosso allemão ácerca das ilhas Carolinas. E o collosso recuou. Só Portugal vae perdendo os seus vastos e ricos territorios na Africa e na Asia, que tão gloriosamente conquistara.

Mas, perguntar-me-ha a camará: Que relação têem todos esses factos historicos com a questão das incompatibilidades politicas?...

A mais intima.

Sr. presidente, sabe v. exa. e sabe a camara o estado a que chegaram as nossas finanças, tanto que até se appella já para a venda das colonias. Pasmoso. A venda das colonias é o corollario da má, descurada e perdularia administração, e esta o corollario das accumulações. Nem mais nem menos.

Similhante alvitre significa, na minha humilde opinião, a perda das instituições e da nossa nacionalidade.

O que é preciso é que se não diga de Portugal o que diz o jornal A Republica francesa dos ultimos dias:

«Não temos nada a acrescentar, nem a diminuir ás nossas precedentes apreciações; consideramos o projecto de reducção da divida, submettido ás côrtes como um logro, e aconselhamos vivamente os portadores a agruparem-se para constituirem um centro seria de resistencia ás frustrações que pretendem impor-lhes.