6 DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO
tro e disse que era preciso que aquelle governo deixasse de macular as cadeiras do poder.
Estão aqui muitos documentos historicos que a camara se cansaria agora de ouvir ler e que eu peço ao sr. redactor da sessão inclua no meu discurso.
Disse mais o sr. José Luciano:
«O parlamento portuguez não pôde estar á mercê de nenhuma companhia, a nossa opinião não pôde ficar dependente de que a companhia acceite ou não acceite as propostas que lhe forem feitas....; mas o que devo dizer (referindo-se ao sr. Fontes e Serpa) é que s, exas. têem obrigação de manter immaculada a dignidade do poder e conservar hera alto o decoro d’essas cadeiras.»
Referir-me-hei ainda, á questão do caminho de ferro de Lourenço Marques, em que quasi todos os ministros das diversas situações politicas eram directores e em que alguns d’elles influiram para que fosse posto de parte um decreto que tinha rescindido o respectivo contrato, por ter o concessionario faltado a condições que n’elle se continham.
Esse decreto já estava asssignado pelo Rei e apesar d’isso foi mettido na gaveta e substituido pela portaria de 23 de março de 1886!!!
Sabe v. exa. o que resultou d’este facto?
Mais tarde foi dirigido ao meu illustre amigo, o sr. Serpa, um artigo publicado no Diario popular intitulado: o resto.
Não o leio agora, mas será tambem incluido na publicação, do meu discurso.
É o seguinte:
«Em virtude das negociações tratadas em Lisboa pelos inglezes Seymour e Reeves, representantes do banqueiro Matheson, foram depositados no London & Brazilian Bank cerca de 60 contos de réis á ordem do sr. Serpa Pimentel que recebeu-o competente r livro de cheques; com essa quantia pagou Serpa Pimentel 36 contos de réis nos quaes entram os seus proprios ordenados e a compra, que lhe fizeram, de 1:200 acções beneficiarias que lhe tinham sido dadas por Mac-Murdo. Mas Serpa Pimentel levantou o resto do dinheiro e. gastou o resto. (Diario popular, 22 de maio de 1889.)»
Estes factos são historicos, e eu não podia deixar de os apresentar á camara. Duvidava-se da probridade de s. exa., de que eu nunca duvidei.
Já que citei este importante jornal destacarei de um seu artigo mais recente, de 22 de junho de 1891, um trecho que agora não leio mas que farei inserir igualmente no meu discurso:
«Explique alguem, se pôde, como ha inteliigencia, estudo, actividade, tempo, para açambarcar no mesmo amplexo innumeras profissões, aqui burocrata, ali engenheiro, alem professor, acolá negociante, hoje politico, ámanhã industrial, agora legislador, logo executor de leis, depois fiscal da sua execução, um dia representante do estado, outro dia representante das partes que contratam com elle, sempre accumulando gratificações, sempre amontoando ajudas de custe, como se aos sete empregos que professa correspondessem sete estômagos tambem?!»
E a doutrina official é a mesma. Citarei apenas a portaria de 9 de novembro de 1876, assignada por Antonio Rodrigues Sampaio pela qual se julgou incompativel o logar de juiz ordinario de Boticas com o cargo de vereador municipal por (diz a portaria) não permittirem as leis do paiz que se reunam, na mesma pessoa as funcções de administrar e julgar. Note v. exa. que esta portaria foi assente no parecer dos fiscaes da coroa. E podia citar immensos outros documentos d’este genero.
A camara sabe bem as circumstancias em que estamos. Nós hoje temos de pagar uma indemnisação, Deus sabe de quantos mil contos de réis.
Está pendente esta questão que vem aggravar consideravelmente a situação financeira do paiz.
Estavam os syndicatos mettidos nas companhias.
E queixam-se de se insistir n’uma lei de incompatibilidades politicas!
Mas, sr. presidente, a proposito desta controversia de interesses pôr causa das companhias, eu tenho aqui um artigo muito curioso e bem pouco edificante em que os proprios correligionarios se injuriavam mutuamente e se chamavam ratas da Gran-via.
(Interrupção que não se ouviu.)
Não leio todo porque isso me levaria muito tempo e porque a linguagem é impropria d’esta camara.
Até andou mettido n’esta contenda o sr. ministro da fazenda.
Faziam allusões acres e creio que injustas ao sr. Oliveira Martins, e diziam que s. exa. tambem era director da companhia de Povoa de Varzim.
O sr. Oliveira Martins defendeu-se energicamente contra estas insinuações.
Eu não leio todos estes documentos para não cansar a camara e citarei apenas a fina replica de um joven e talentoso deputado, que por esta fórma respondia á accusação que o Diario popular lhes fazia nos seguintes termos:
«Vossês o que querem é roubar tudo quanto possam
A replica foi esta:
«Ratos, anh!... Ratos para que? Para comerem o queijo do paiz? Isso sim! Já não resta senão a casca. E ainda assim se nós somos ratos, os senhores são ratas.»
Então dizia o Diario popular estas amabilidades do sr. Serpa e agora, no Diario de sabbado ultimo faz-lhe muitos elogios, dizendo:
«Fallou admiravelmente, como s. exa. sempre costuma fallar.
«Esmagou o auctor do projecto.
«Aquillo sim, aquillo é que foi discurso.»
Pois é o mesmo Diario popular que diz isto. Quando foi que este jornal fallou a verdade? Agora ou então? Agora fazendo justiça ás altas qualidades do sr. Serpa, digo eu.
Quem ficará esmagado sob o peso de toda esta argumentação e d’estes documentos? A consciencia publica que responda.
Sr. presidente, admiro-me de que se diga que as influencias politicas não têem nenhuma importancia no seio das companhias.
Pois têem toda a importancia.
Lembra-me a este respeito o que dizia n’uma sessão da outra camara o illustre deputado sr. Franco Castello Branco:
«Que, emquanto foi delegado dó ministerio publico, ninguem se tinha lembrado d’elle para director de qualquer companhia; mas que, logo que foi eleito deputado e os seus discursos tiveram uma certa acceitação, começaram a convidal-o para director de companhias.»
Creio, porém, que s. exa. recusou sempre nobremente taes offerecimentos.
Ao mesmo proposito proferiu o sr. Arroyo de cujo talento eu sou admirador, um vehemente discurso, de que aqui tenho nota, que não lerei, mas que farei incluir na publicação do meu discurso.
É o seguinte, a parte do discurso citado:
«Digam, uma vez ao menos, a esses homens, que só ficam para cuidar dos seus interesses e dos interesses do seu partido; digam a esses homens que essa situação é inteiramente opposta a todas as regras da moralidade politica.
«Digam a esses homens que a dignidade do parlamento exige que elles sejam escorraçados d’ali, como improprios para o exercicio das augustas funcções de ministros da corôa!
«Acredite a camara que o que eu digo n’este momento é a expressão do que sinto no mais fundo do coração.