220 DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO
quando se não juntarem as companhias de reserva de infantaria, o que fatalmente deve succeder.
Sr. Presidente, não posso tambem deixar de dizer que o Sr. Ministro da Guerra, foi injusto na sua critica do trabalho mandado publicar nos extractos parlamentares pelo Digno Par, o Sr. Dantas Baracho, trabalho que não era destinado á publicidade, e que o Sr. Ministro da Guerra suppôs ser elaborado só no intuito de lhe ser desagradavel.
O Sr. Dantas Baracho apresentando nesta casa aquelle trabalho, é que pediu para elle ser publicado nos extractos das sessões, e bem claramente o disse o Sr. Dantas Baracho; não foi o seu auctor que teve empenho em que este trabalho fosse publicado foi S. Exa. que escolheu este meio de publicação, e em quanto a mim escolheu muito bem; mas o auctor é que não podia conhecer esse meio, nem o podia prever, porque para mim, é uma formula nova, que ainda não vi empregar.
Disse S. Exa. que, nesta memoria, havia o espirito da maldade; ora S. Exa. não devia dizer isto, tudo quanto aconteceu prova, que não houve o menor espirito de maldade; a memoria é uma critica, um estudo theorico da organização nova, mas não tem nada de offensivo para o Sr. Ministro da Guerra.
Qual é o interesse d'esse official em fazer essa estudo? E o interesse de ser menos agradavel ao Sr. Ministro da Guerra ?
Não é, estes estudos teem-se feito sempre, e não é para estranhar que se façam hoje quando devem vigorar todos os principios de liberdade.
Varios estudos ou apreciações appareceram quando eu publiquei a minha organização, não aqui na Garoara, mas appareceram publicados, e d'ahi, eu nunca conclui como S. Exa. concluiu, que os auctores d'esses trabalhos tinham por fim o serem para mim menos agradaveis; o que eu sempre suppus, o que se pode concluir é, que estes officiaes o que queriam era estudar e esclarecer estes assumptos.
O Sr. Baracho: — Eu não poderia trazer a e ata Camara qualquer acto menos agradavel ao Sr. Ministro da Guerra, esta interpretação não pode ser admittida, porquanto eu tenho em todos os meus actos nesta Camara provado ser o mais agradavel possivel para com o Sr. Ministro da Guerra; se trouxe esse trabalho foi coo o fim de esclarecer o estudo sobre uma questão que estava pendente; se quisesse ser menos agradavel para com S. Exa. fazia-o pessoalmente, mas nunca me prestaria a ser interprete de pessoa alguma.
O Sr. Ministro da Guerra (Pimentel Pinto): — Só tenho a agradecer as palavras de S. Exa.
O Orador: — Eu considero este trabalho como um estudo theorico, que mostra, da parte de quem o fez, muitos conhecimentos militares; é um estudo imparcial, que o Sr. Ministro da Guerra não devia censurar pela maneira por que o fez, só porque tem idéas contrarias ás suas, quando S. Exa. não censurou outros, que publicaram apreciações favoraveis.
S. Exa. foi verdadeiramente injusto para com o auctor d'esta memoria. Referiu-se apenas aos pontos insignificantes, não se referiu á questão principal. Criticou a fórma da redacção, quando este trabalho não foi feito para ser publicado, e quando muitos dos erros, a que S. Exa. se referiu, foram devidos á composição typographica.
O Sr. Ministro da Guerra (Pimentel Pinto): — Eu falei no português, em que estava escrita a memoria.
O Orador: — Como já disse, este trabalho não foi destinado para ser publicado, e isto pode justificar completamente qualquer falta de redacção.
Por tudo isto, vejo que o Sr. Ministro da Guerra ficou mal impressionado pelo que se diz nessa memoria; isso comprehendo; mas francamente o digo, parece-me que S. Exa. não tem razão para ahi suppor a intenção de lhe ser desagradavel.
Quem fez esse trabalho não o destinou á publicidade.
Veja V. Exa. que a este respeito o Digno Par o Sr. Dantas Baracho, que foi quem pediu a publicação do trabalho, é da minha opinião.
Alem de tudo disse o Sr. Ministro da Guerra que eu apresentei no meu discurso as mesmas idéas que veem na memoria; mas, quando me respondeu, disse tambem que eu tinha sido correcto na minha exposição; logo a memoria é correcta tambem.
Parece-me que o Sr. Ministro da Guerra começa a estar quasi de acordo commigo.
Tambem o Sr. Ministro, da Guerra disse, com relação a ter sido augmentado o numero de divisões, que muitos escriptores antigos, e entre elles Gomes Freire, julgaram indispenaveis 6 divisões para a defesa do país.
Mas, naquella epoca, as divisões e os effectivos de todas as unidades eram muito mais fracas.
Então julgava-se que uma divisão composta de 6 ou 8:000 homens era já uma divisão importante.
O batalhão, não excedia 500 homens, nem a companhia 100.
Hoje, os effectivos são quasi duplos e as divisões são muito superiores ás 6 antigas.
Accrescentou ainda S. Exa. que alguns distinctos officiaes do exercito concordavam em que 6 divisões militares não eram de mais.
Eu não duvido de que haja quem assim pense, mas o que é facto é que quem escreve trabalhos theoricos no seu gabinete não attende ás circumstancias financeiras do país.
Esses trabalhos são muito bons, mas é preciso ver sé o país tem dinheiro.
Ora, desde o momento em que isto impõe despesas que o país não pode satisfazer, eu entendo que é preferivel ter só 4 divisões mas bem constituidas.
Fingir com os mesmos effectivos que temos 6, isso é o peor de tudo, e essa idéa nunca foi defendida pelos militares que S. Exa. citou.
Aqui está, Sr. Presidente, o motivo por que sou partidario das 4 divisões militares.
Se não me importasse com as circumstancias financeiras do país, eu quereria que em logar de 4 divisões houvessem 6, que em vez de 6 tivéssemos 8; mas, a verdade é que, nas condições em que nos encontramos, é já muito o que se gasta.
Em vista, pois, das circumstancias financeiras do país, eu sou de opinião que não se devem augmentar as despesas, e desejava que assim se procedesse em relação a todos os ramos da administração publica, embora isto seja uma opinião contraria á do Sr. Ministro da Guerra e á de todo o Governo.
Tambem o Sr. Ministro da Guerra tratou de defender a divisão dos batalhões em 3 companhias, como sendo imposta pela economia.
Mas, d'aqui resultam todos os inconvenientes de mobilização que apontei.
Ou as tropas de 1.ª linha hão de esperar pelas companhias de reserva, estragando-se a mobilização, ou o 3.° batalhão de cada regimento se ha de desmanchar para constituir os outros 2, e ficarem os regimentos a 2 batalhões e as divisões muito fracas.
Effectivamente, na minha opinião, o principal mal da organização é esse; e S. Exa., criando as 6 divisões, sem augmentar consideravelmente as unidades de 1.ª linha, não o podia evitar.
Diz S. Exa. que nos processos de mobilização que eu apontei preferia desmanchar uma divisão.
Não concordo; mas, ainda nesse caso dá a prova de que não pode ter 6 divisões, por isso que as reduz a 5.