4 DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO
ctos. Um dos partidos representa a politica ingleza e trata de promover a permanencia da habitantes nos pontos que exploram. Outro, o elemento boer, tradicional e que exaltando até ao fanatismo mais intransigente] o seu amor de raça, reage por todos os modos contra a oppressão do outro partido preferindo mesmo, a ter de submetter se, o lançar-se em aventurosa emigração.
A este segundo partido pertencem as familias que pensam em emigrar para es nossos territorios; Entretanto não me parece que haja rasões para receios como ao digno par se afigura. Eu conheço-os por ter fallado com elles quando estive em Angola e muitas occasiões tive de os ouvir chegando mais de uma vez a dar-me ao trabalho de procurar dar-lhes breves noções da nossa legislação e até de muitos pontos do nosso codigo civil.
É certo que estes boers não têem o caracter de permanencia que aos outros se póde attribuir, portanto sob muitos pontos de vista reputo até vantajosa a sua emigração para aquelle ponto da nossos dominios africanos; sómente desejaria que taes vantagens não custassem ao estado algum sacrificio, e tanto que, tendo-me sido perguntado por um official do exercito, muito relacionado com os boers, o sr. Arthur de Paiva, se eu faria a despeza com a passagem d'essas familias, eu respondi-lhe que não, pois isto attingia uma somma importante.
Parece-me que, desde que haja um caminho de ferro do interior para o littoral, os receios do digno par desapparecem completamente, e para contrabalançar de algum modo esse elemento de possivel, comquanto pouco provavel, de absorpção que o digno par receia, ha ainda um outro elemento importante e folgo de poder dar uma noticia á camara que de certo lhe será agradavel, qual é a de que uma grande emigração judaica pensa em estabelecer-se no planalto do interior do Bihé desde que o governo lhe faculte algumas porções de terrenos.
O digno par não ignora que esta emigração de uma raça laboriosa, activa e intelligente, levar-nos-ia áquelle ponto valiosos elementos de trabalho e de riqueza. (Apoiados.)
Ora desde que nós estamos auctorisados, por lei a fazer a concessão de terrenos supponho que com grande vantagem podemos facilitar essa colonisação que alem de nos levar um elemento seguro para contrabalançar o da emigração dos boers, poderá em pouco tempo concorrer efficazmente para a construcção da linha ferrea para a costa que, uma vez estabelecida, incitará tambem, estou certissimo, a emigração portugueza para áquelle ponto, estabelecendo ali um viveiro de gente branca em condições de poder fazer o credito da nossa colonisação africana.
Parece-me, que as explicações que acabo de dar satisfarão o digno par, mas se o não conseguir, usarei novamente da palavra.
(O sr. ministro não reviu as notas tachygraphicas do seu discurso.)
O sr. Thomás Ribeiro: - Sr. presidente, estimo ter tido occasião; de pedir estas noticias ao nobre ministro da marinha, porque, a dizer a verdade, vejo que entre s. exa. e os promotores d'aquella emigração ha relações estabelecidas, e não é uma surpreza para o governo do meu paiz o facto a que me referi.
Disse nos s. exa.: - que não são só os boers que pretendem ir estabelecer-se no planalto de Mossamedes, mas sim tambem os israelitas expulsos do norte da Europa, o que para nós é uma vantagem, porque podem contrabalançar a influencia que a raça boer possa adquirir
Sr. presidente, eu reputo a expulsão dos israelitas do norte da Europa uma barbaridade, assim como acho barbaridade os flagicios por que têem passado; mas devo dizer ao nobre ministro que não deve confiar muito na efficacia da d'aquella emigração para contrabalançar a influencia dos boers.
A raça dos israelitas é menos forte; não é tambem nacionavel (permitiam a palavra) e é essencialmente commerciante, exploradora; ora, nós do que precisâmos no planalto é de cultivadores e de mineiros, e para isto não servem os israelitas.
Alem d'isso acresce ainda a circumstancia de que os israelitas são uma raça de gente .. nervosa, emquanto que a dos boers é uma raça de gigantes.
Não para contrabalançar o predominio e independencia que podem adquirir os boers, mas para fazerem o caminho de ferro, entendo que é bom chamal-os ali. Agora quanto ao espirito laborioso, e á força dos boers deve o governo cuidar em que elles, em vez de serem embaraço, sejam auxiliares do prestimo da nossa auctoridade n'aquellas regiões. Elles podem, estando em perfeita harmonia comnosco, ser uma parte da nossa força; mas seria bom que o governo tratasse ao mesmo tempo, e por sua conta, da defeza do planalto, fazendo construir alguns fortes e estabelecendo uma milicia local, especial. É necessario que o governo ponha ali auctoridades, que não sejam a imagem e similhança de grande parte das que por lá temos tido, e sobretudo que não faça comarcas.
E dito isto, como o que eu desejo principalmente é que venha o caminho de ferro, congratulo-me com o illustre ministro pelas vantagens com que conta; mas o que lhe peço é que não poupe a concessão de alguns hectares a quem lá os aproveite sendo-nos util, para os conceder a quem cá os pede e não vae lá, só para os negociar e crear-nos embaraços.
Eu já disse mais de uma vez que tomo grande interesse por áquelle paiz, que nunca vi, que nunca visitei, mas cuja prosperidade muito desejo, e oxalá que eu podesse de alguma fórma contribuir para bem d'elle. Não tenho n'isto nenhum outro desejo que não seja este.
Sei que se diz que quem hoje procura servir alguma parte da Africa é porque algum interesse ali vae buscar.
Eu creio, porém, que toda a camara está convencida de que, quando eu fallo n'estes assumptos, nenhum outro interesse me guia alem do desejo de contribuir para o bem do que é uma parte de Portugal.
Eu já me offereci para ir á Africa em qualquer missão.
Sei que na idade em que estou não posso sujeitar-me a aventuras; no emtanto para servir o meu paiz é sempre completa da minha disposição.
O que eu peço ao sr. ministro da marinha é que mande para ali muitos braços que trabalhem, muito dinheiro de que tanto lá se precisa; mas é conveniente que se previna de modo que o não tome algum acontecimento de surpreza, acontecimento que o obrigue a mandar áquelle ponto alguma expedição, do continente ou do ultramar a fim de repellir qualquer affronta.
Aqui está o pedido que faço ao sr. ministro da marinha, e nada mais tenho que dizer.
(O digno par não reviu as notas do seu discurso.)
O sr. Presidente: - Tem a palavra o sr. ministro da marinha.
O sr. Ministro da Marinha (Ferreira do Amaral): - Sr. presidente, eu não quero prejudicar a ordem dos trabalhos da camara, e por isso serei muito breve.
O que eu desejo dizer ao digno par sr. Thomás Ribeiro é que, quando estive no planalto de Chella, os boers só me pediram a creação de um juiz de conciliação. Foi isto o que me pediram, e o que eu lhes concedi, talvez abusando de alguma das disposições da carta constitucional, mas em todo o caso deu-se-lhes o magistrado que desejavam.
O sr. Thomás Ribeiro: - Apoiado, apoiado.
O Orador: - Agora, para socegar o espirito do digno par, devo declarar que, por occasião em que em meetings se tratou no Transvaal da emigração dos boers para o nosso territorio, foram elles unanimes em confessar que não lhes era possivel encontrar liberdade mais completa, maior generosidade e mais grato acolhimento do que no territorio