DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO 359
car a sua interpellação ao sr. ministro das obras publicas.
O sr. Marquez de Vallada: - Não sei se estes meus esforço? serão perdidos, se estes meus empenhes serão baldados; seja, porém, como for, cumpro o meu dever declarando muito terminantemente que e licito oppor aos erros inveterados do passado a força irresistivel das leis venerandas do progresso.
O sr. ministro das obras publicas terá de me informar sobre certos pontos.
Deverei eu censurar a incuria que vejo, e que vêem todos que prestam attenção á maneira por que o serviço telegraphico é desempenhado no paiz?... Porque eu creio que a censura continua a ser permittida, embora o sr. ministro na passada sessão lhe oppozesse os seus embargos; creio, porém, que elles não foram recebidos, pois acredito firmemente no espirito liberal da opinião publica e no de todos os pares do reino, e acredito tanto, que não duvido nem poderia duvidar n'um momento sequer que os embargos foram postos de lado e as boas doutrinas serão portanto mantidas e respeitadas.
Por consequencia terei de entrar já na materia.
Sr. presidente, está ao alcance de todos que a quizerem ler a convenção telegraphica internacional; eu tenho-a aqui e citarei alguns pontos d'ella.
O sr. ministro deve ter notado que ha um clamor geral contra a maneira por que entre nós se faz o serviço telegraphico: queixa-se o commercio, queixa-se a imprensa e queixam-se os particulares do estado de abandono em que se acha este serviço.
Os telegraphos teem por fim tornar as communicações mais rapidas do que feitas pelo correio; pois entre nós não acontece assim, todos se queixam da morosidade com que são transmittidos os despachos telegraphicos; eu mesmo já recebi um telegramma com mais de onze horas de atrazo.
Ora, isto não póde ser:
Leia s. exa. o que dizem o Progresso, o Primeiro de janeiro e o Diario popular, que julgo que são folhas que ainda se podem ler.
Sr. presidente, quando ha um tal accordo e uma tal harmonia de opiniões sobre um determinado objecto, creio eu que o sr. ministro devia responder ás queixas geraes e ás perguntas que se lho fazem, e não com palavras ambiguas; e eu creio que se póde esperar que s. exa. seja um d'aquelles que respeitem a lei do progresso, por ser um homem de sciencia, e até como regenerador, visto ser uma cousa em que tanto faliam os regeneradores, incluindo no numero alguns dos srs. ministros.
Pois, sr. presidente, na repartição dos telegraphos dão-se cousas extraordinarios! Primeiro que tudo o vencimento dos empregados: grande numero d'elles recebe apenas o ordenado de 16$000 réis mensaes e estes empregados têem a seu cargo, alem de penoso serviço, responsabilidade maior. O ordenado, porém, nem está a par da gravidade do encargo nem paga responsabilidade tamanha.
Ha uma grande quantidade de empregados que não estão mettidos em folha, ha outros que o estão, mas que recebem apenas 120 réis, e ha um grande numero de creanças que não têem forças para supportar aquelle trabalho!
Ora, sr. presidente, em todos os paizes considera-se como uma questão grave o trabalho das creanças nas fabricas, e attende-se a elle debaixo de todos os pontos de vista, de todos os aspectos, sendo um d'elles o da saude, e por isso se procura evitar que as creanças sejam obrigadas a trabalhos violentos.
E se assim se pensa e se escreve quanto ao trabalho das creanças nas fabricas, assim se deve pensar e resolver quanto ao trabalho das creanças no serviço telegraphico.
Eu sei que têem sido feitas muitas reclamações, e parece-me que já estou ouvindo a resposta do sr. ministro, que é mandar-me ler o que se dispõe no § 1.° do artigo 67.º da Convenção.
(Leu.)
Isto entende se que é quando o telegramma se recebe depois de ter chegado o correio.
Mas esta demora é de grande inconveniencia para o commercio, como por exemplo, para a compra e venda de cereaes, para as transacções de fundos e para muitos outros negocios particulares em que a rapidez da communicação é urgente, em que a seriedade na fórma do despacho é importante, e era que o segredo que se transmitte é essencial.
Será, pois, conveniente que o telegramma chegue antes do correio?
Seguramente que sim, mas é necessario que seja muito antes, e isto é obvio e até axiomatico porque a todas as luzes é patente, e a nenhuma comprehensão a sua importancia é vedada.
Uma das reformas que eu entendo que devia ser intentada era juntar a repartição telegraphica á repartição do correio, sob a direcção do director geral dos correios, á frente da qual está um homem por todos respeitado, e que já foi citado pelo sr. ministro das obras publicas, e se s. exa. o não citasse, citava-o eu. Refiro-me ao sr. Guilhermino de Barros, que dirige com grande pericia aquella repartição.
S. exa. tem illustrado e ha de illustrar qualquer repartição á frente da qual esteja, porque alem da sua probidade, trata, pelo seu muito zêlo e grande amor ao trabalho, de bem desempenhar sempre os seus deveres.
Se me fosse permittido dava um conselho ao sr. ministro das obras publicas, mas s. exa. não quer de certo conselhos da opposição. No entanto posso apresentar a minha opinião.
Eu, repito, e não me fatigarei de repetir, reunia as duas administrações, a dos telegraphos e a dós correios.
E realmente esta reunião podia effectuar-se debaixo de muito bons auspicios, ficando a dirigir a nova repartição o sr. Guilhermino de Barros. O governo tinha nisto grande vantagem, pois sei de sciencia certa que o sr. Guilhermino de Barros tem bem correspondido á confiança que n'elle depositou o ministerio presidido por v. exa., que o nomeou para dirigir uma das repartições mais importantes do estado.
Tem elevado aquella repartição em bem pouco tempo por meio de mui reflectidas, estudadas e sensatas reformas.
Porque se não ensaia, pois, esta reunião, uma vez que ella póde ser feita debaixo de tão bons auspicios?
Em todo o caso o que é o correio senão um instrumento de communicações? O que é o telegrapho? Não é o mesmo meio, em sentido muito mais largo, prompto e rapido?
Mas esta juncção de repartições vae talvez ferir muitos interesses, e vae obrigar a saír da sua rotina os homens que dizem amar o progresso, mas que recuam quasi sempre diante de qualquer difficuldade, que encontrei porventura no caminho do sensato progresso.
Eu realmente já não entendo a palavra "progresso", quando não vejo senão atrazo. Verdadeiramente progressista é o sr. Guilhermino de Barros. E insisto era citar este nome, porque tenho grande satisfação em pronunciar o nome de um homem de bem, a quem todos respeitam.
Proseguirei, pois, nos meus argumentos.
Pois, sr. presidente, d'esta reunião dos telegraphos com os correios, viria necessariamente uma grande economia. A reunião do correio com a telegraphia, debaixo da inspecção do director dos correios, existindo por consequencia uma só repartição, daria em resultado haver unidade na acção e unidade no pensamento; alem de que, dirigido tão sabiamente, havia de ser muito melhorado tão importante serviço.
A repartição dos telegraphos está muito mal dirigida, é necessario dizer as cousas pelos seus nomes. Ha ali gravissimos abusos, e sobretudo mui provado desleixo.