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300 DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO

Esta agua entraria nos canos parciaes pela s ia desembocadura no collector e determinaria o deposito dos, detrictos pesados, constituindo assim uma obstrucção não só nas desembocaduras no collector, mas tambem na parte dos canos por ella occupada; deixaria porem passar os liquidos impuros e as materias em suspensão, que iriam formar no sub-solo um pantano perigoso, e tanto mais perigoso quanto era difficil de limpar.

Abstenho-me de referir outras desfavoraveis consequencias da transformação de que me tenho occupado, para não cansar a attenção da Camara.

Procurou-se remediar estes defeitos, levantando-se a soleira do collector na sua desembocadura.

Effectivamente esta elevação amplia a vasão do collector na baixamar, mas augmenta as difficuldades do despejo dos canos no proprio collector, como demonstrarei:

A elevação da soleira na desembocadura do actual collector, com relação á do projecto primitivo, foi de Om,39, ficando portanto com a cota negativa de lm,25; mas, por motivos que devem ter sido muito attendiveis, na montante do collector, no Largo do Corpo Santo, baixou-se a sua soleira 0m,47, tambem em referencia á do primitivo projecto. A inclinação total do collector é, pois, apenas de lm,26, e como a sua extensão é de 2:835 metros, segue-se que a sua inclinação uniforme devia ser de 0m,00044 por metro.

Ora esta inclinação é muito fraca; podemos fazer idéa d'ella, lembrando, por exemplo, que é 25 vezos inferior á inclinação da Rua do Ouro.

É inteiramente escusado demorar-nos em demonstrar que esta fraquissima inclinação concorre para a obstrucção do collector. Devo porem dizer, que no nivelamento do collector, a que se procedeu ha cerca de um mês, não foi possivel, por causa dos entulhos que se encontraram na soleira, determinar rigorosamente a regularidade da sua pendente; notou-se todavia que existem tres inflexões na linha da soleira geral: uma do poço n.º l ao poço n.° 11, que tem de extensão l:202m,9 e em que se achou a inclinação do 0m,00044 por metro; outra do peço n.° 11 ao poço n.° 21-A, que tem de comprimento 989 metros e em que a inclinação passa a ser de 0m,00020 por metro; e que finalmente do poço n.° 21-A ao poço n.° 28, na montante do collector, a inclinação sobe a 0m,00080 por metro.

Estas inflexões, principalmente quando a inclinação é muito pequena, prejucicam consideravelmente o funccionamento do collector.

Dá-se, porem, outra circumstancia e esta é que principalmente prejudica o funccionamento da canalização do bairro occidental da cidade. É que tendo-se levantado a soleira do collector, esta condição obrigou a elevar, em geral, a soleira dos canos parciaes para os pôr em concordancia com o collector.

Esta elevação não pode deixar de augmentar as difficuldades do funccionamento dos canos parciaes, que já primitivamente tinham uma pequena pendente.

Tudo isto que eu acabo de dizer e ainda outras considerações que poderia accrescentar, demonstram o modo irregular como funccionam os canos do bairro e ocidental da cidade.

Quando ha um mês pedi a palavra para falar sobre este assumpto, tinha-se mandado examinar qual era a carga dos canos e a do collector.

Peço licença para ler uma parte das observações que se fizeram neste exame, que é muitissimo importante e elucidativo, porque prova realmente á evidencia as péssimas condições em que funccionava o collector, collocando assim em muito más condições a canalização da cidade.

Observações no dia 2 de março:

«Na desembocadura do cano da Rua de S. Bento, a caleira do collector tinha 0m,70 de entulho; no Boqueirão dos Ferreiros 0m,80; na Praça de D. Luiz, onde foi limpa ultimamente, 0m,40; em frente do Cães do Sodré 0m,60. Em todos estes pontos havia tambem 1 metro de agua.

No cruzamento da Travessa do Corpo Santo e Rua do Corpo Santo, o entulho excedia a banqueta.

No cano municipal da Rua de S. Bento, na claraboia da Rua Vinte e Quatro de Julho, tiraram-se 655 carroçadas de entulho e ainda ha muito para tirar. O cano da Rua de D. Luiz está cheio até acima, bem como o da Abegoaria».

Devo dizer a V. Exa. que depois de se construir o collector, os proprietarios da Rua Vinte e Quatro de Julho reclamaram, porque as aguas refluiam para o interior das casas pelas pias e ralos dos syphões, e que foi em vista d'esta reclamação que se construiram os descarregadores na parte superior do collector. Esta refluencia succedia quando se dava a coincidencia de chuvas torrenciaes com um preamar.

Convem porem observar que apesar dos descarregadores, ainda ultimamente se deu a refluencia a que me tenho referido.

Communico ainda a V. Exa. a seguinte nota tambem muito elucidativa.

No cano da Rua de D. Luiz os dois primeiros homens que ali entraram foram accommettidos de syncopes e tirados para fora em braços. Mandou-se depois fazer o despejo por um processo provisorio, porque se reconheceu ser absolutamente impossivel fazer-se a limpeza do cano entrando ali.

Custa-me estar a falar acêrca d'este assumpto desagradavel, mas a Camara comprehende que eu não posso deixar de lhe dar um certo desenvolvimento, porque preciso de justificar a iniciativa da commissão administrativa do Municipio de Lisboa e consequentemente a resolução que pediu ao illustre Ministro das Obras Publicas. Segundo me consta S. Exa. adoptou já a este respeito providencias que eram de todo o ponto necessarias.

Antigamente, Sr. Presidente, quando caia uma grande bátega de agua, dizia-se: esta chuva produz resultados excellentes para a salubridade publica, porque limpa completamente os canos.

Era a phrase consagrada.

Pois, Sr. Presidente, na conjuntura actual quando ha uma chuva torrencial, principalmente quando coincide com o preamar, é prejudicialissimo que tal chuva caia, porque encontrando-se a desembocadura do collector cheia de agua quasi parada e estando tambem afogados os descarregadores, a entrada precipitada de um volume consideravel de agua da chuva occasionará a subida immediata do nivel dos esgotos e consequentemente a pressão do ar contido nos canos.

O augmento d'esta pressão determinará necessariamente uma de tres consequencias: ou salta a cobertura dos canos, o que é raro, mas que succedeu, por exemplo, com o cano da Rua de S. Bento, na parte que atravessa a estancia do Sr. José Felix da Costa, que já rebentou por duas vezes, apesar das coberturas terem sido construidas com todo o cuidado; ou, o que succede com mais frequencia, a pressão do ar faz elevar pelas pias, syphões, sargetas, etc., os liquidos impuros contidos nos canos; ou então o proprio ar escapando-se dos canos espalha sobre a cidade uma onda de gaz mephytico, que todos nós temos mais ou menos notado.

Eu não desejo realmente tomar muito tempo á Camara com este assumpto; farei pois apenas mais algumas pequenas considerações.

Alem do que eu acabo de dizer, a limpeza do collector não se recommenda em si propria e principalmente não se recommendava pelo modo por que era feita.

Sem querer ler á Camara varios documentos que pro-