DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES D REINO 411
As nossas questões coloniaes, é forçoso dize-lo bem alto, quasi sempre são tratadas por mero acaso. Acabado o incidente, acabou a attenção.
Houve em tempo a guerra dos Dembos, sobre esta guerra discutiu-se muito, disse-se muita cousa com mais ou menos justiça.
Ainda assim felizmente não trouxe como consequencia a creação de um novo governo geral.
Com respeito a essa questão, eu hei de pedir que venham a está casa do parlamento todos os documentos que lhe são concernentes, pois nesta parte sou de uma escola radicalmente opposta á do sr. ministro da marinha. Hei de pedir que venham aqui os documentos que dizem respeito á questão dos Dembos para que a historia se esclareça e as responsabilidades se discriminem.
Veiu tambem a questão da Zambezia, porque appareceu lá o Bonga.
Mandaram-se contra elle expedições mais ou menos bem organisadas, algumas das quaes foram pouco felizes. Pois, senhores, desde o Bonga até ao sr. Paiva de Andrada, esquecemos a Zambezia e não nos lembrámos mais de que a podiamos explorar!
Disto é que eu me queixo.
Sr. presidente, as questões coloniaes não se tratam assim.
São questões graves, que não podem ser tratadas por incidente, por motivos de urgencia, tratam-se, estudando-as, debaixo de todos os pontos de vista.
As questões coloniaes não se tratam unicamente manifestando sentimentos patrioticos, aliás louvaveis, como mais de uma vez tem feito o sr. ministro da marinha, que já declarou ser mais facil consentir que lhe cortem a mão direita do que assignar a cessão de qualquer colonia portugueza.
Eu louvo este sentimento do nobre ministro, sem comtudo querer examinar se porventura, s. exa. affirmando sentimento tão patriotico, dirige uma censura ao sr. presidente do conselho, que já em outra occasião julgou conveniente a alienação de uma parte dó territorio portuguez, e creio que com rasão, quando se tratou da cessão de Solor.
Mas, sr. presidente, estas questões, não se tratam assim.
Não basta dizer que perdemos a mão direita ou a mão esquerda antes de ceder um palmo do nosso territorio. Isto é muito bonito, muito patriotico, mas devemo-nos lembrar que Julio Favre, que tambem era patriota, affirmava que não cederia nem um palmo de territorio, nem uma pedra das fortalezas francezas nas vésperas da assignatura da paz,- é quando esta foi assignada a França perdeu uma grande porção de territorio e muitas fortalezas; o perdeu-as, porque a fatalidade dos acontecimentos se impõe muitas veses a vontade dos homens.
Não havia francez nenhum que não visse com as lagrimas nos olhos, arrancar á França a Alsacia e a Lorena, mas - Sic fata voluere.
Sr. presidente, não basta dizer que não havemos de perder um palmo das nossas colonias, é preciso cuidar dellas. - As colonias significam para nós as tradições gloriosas, admiráveis, dos nossos navegadores, que foram, como incontestavelmente está provado pela historia, adiante de todos os outros descobridores, e provado pelo visconde de Santarém, pelo marquez de Sá da Bandeira, e por muitos estrangeiros, principalmente por Major, opinião, insuspeita, que confirmou a prioridade, das nossas descobertas nessa mesma Guiné.
Mas, nobleste oblige, e por isso não basta allegar a fidalguia das nossas tradições, é preciso sabe-la manter. Não basta só e é muito, que nós acompanhemos os, outros paizes nas explorações scientificas dos sertões africanos; não basta que nós sigamos o exemplo de Levingstone, Cameron e outros.
E folgo de aproveitar esta ocasião para prestar homenagem aos nossos corajosos exploradores, e felicitar-me com o sr. ministro da marinha õ com o paiz pela noticia extremamente agradavel que s. exa. nos deu a respeito do sr. Serpa Pinto.
Honra ao sr. Serpa Pinto, honra aos seus bravos companheiros. Honra tambem, diga-se ainda, porque é justo que se diga, a um portuguez que, muito antes daquelles exploradores, e sem missão official, já andava pelos sertões de África luctando com o clima e com as feras; fallo do sr. Anchieta. Honra a este bravo! Honra a esses corajosos amigos da sciencia, da patria, e da humanidade. E, sem querer desillustrar ninguem entre exploradores e explorador de África, eu prefiro muito o sr. Anchieta, o sr. Serpa Pinto, o sr. Campello, o sr. Ivens, ao sr. Paiva de Andrada.
Prefiro o seu modo de explorar e acho muito mais digno de elogio e de louvor do que o do sr. Paiva de Andrada, que resta saber se será util e proficuo. E quando ouvi em certos discursos fazer grandes elogios a quem não explorou a África, porque ainda lá não foi, e a quer explorar financeiramente, o que não é crime, nem- tambem grande virtude, não posso comparar individuo a individuo, nem equiparar elogio a elogio. Entre o que quer explorar financeiramente e o que explora por dedicação patriotica, humanitaria, e scientifica, ha grande differença; e esta differença convem notar-se sobretudo numa epocha como a nossa, que já de si e demasiadamente mercantil.
Sr. presidente, dessas nossas tradições, desse trabalho dos nossos maiores, dessas navegações iniciadas pela escola do infante D. Henrique, resultou-nos um grande dominio no ultramar, e com esse dominio uma grande responsabilidade.
As nossas possessões ultramarinas medem ainda hoje, creio, vinte vezes o territorio de Portugal.
É um morgado largo, vasto, extenso; mas que nos traz responsabilidades perante a civilisação. Estas são as questões que convem estudar, mas é preciso estuda-las conjunctamente, e não separadamente, cada uma de per si, por incidente, e debaixo da impressão de uma urgencia momentanea. Nós temos nas nossas colonias africanas, asiáticas, e nas que possuimos na Oceânia, uma extensão de territorios que mede vinte vezes o territorio de Portugal, comprehendendo os Açores e a Madeira. Temos colonias a grande distancia umas das outras; temos na Oceânia Timor, a grande distancia de Macau e ainda ali não se creou um governo independente; temos Lourenço Marques a grande distancia de Moçambique, e ainda tambem ali não se creou um governo independente, a não ser o governo do sr. Paiva de Andrada, se for lá, o que duvido, e estimo duvidar; temos Mossamedes, Benguella, e ao norte o Ambriz; temos direito ás boccas do Zaire a muito maior distancia de Loanda de que o que vae de Cabo Verde á Guiné; sem que a rasão de distancia nem a rasão de urgencia servissem em qualquer destas possessões para se crear um governo de primeira ordem com 4:500$000 réis de ordenado e titulo de conselheiro, e um secretario com 1:600$000 réis, e outro secretario dá junta de fazenda com igual vencimento. Por este caminho onde vamos nós parar?
Sabem o que é a Guiné portugueza? A Guiné representa 70 kilometros quadrados entre estes 1.800:000 kilometros quadrados das nossas provincias ultramarinas.
Ora, sr. presidente, para 7:000 ou 8:000 hectares de terreno, que necessidade ha de crear um governo em todas as condições luxuosas estabelecidas no projecto?!... 7:000 ou 8:000 hectare de terreno correspondem a uma das propriedades do nosso collega o sr. visconde dos Olivaes, ou o sr. José Maria dos Santos, ou de qualquer outro lavrador em grande escala.
E creio que s. exas não nomeiam para as administar conselheiros governadores com 4:5OO$000 réis de ordenado. Bem sorvidos estavam elles se os seus, feitores tivessem similhantes