O texto apresentado é obtido de forma automática, não levando em conta elementos gráficos e podendo conter erros. Se encontrar algum erro, por favor informe os serviços através da página de contactos.
Não foi possivel carregar a página pretendida. Reportar Erro

412 DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO

E não quero dizer com isto que não haja rasões que, de pois de bem estudadas e meditadas, não possam aconselhar a que se separe a Guiné do governo de Cabo Verde. (Apoiados.) Basta-me em primeiro logar a rasão de auctoridade, que para mim é importantissima, a do sr. marquez de Sá da Bandeira. Sinto-me muito inclinado ao parecer manifestado por este illustre estadista em um notavel livro por elle escripto: - Convem crear um governo separado na Guiné, embora não seja luxuosamente mantido, e fazer de Cabo Verde um districto administrativo, (O sr. Barros e Sá: - Apoiado.) porque seria este o complemento necessario do projecto.

Convém que só estude esta idéa do constituir Cabo Verde um districto administrativo, sem completamente se despresar o pensamento, apresentado pelo sr. Caetano de Almeida Albuquerque, de fazer governador da Guiné o commandante da nossa estação naval, ou do crear em cada concelho da Guiné um pequeno governo subalterno como os dos presídios interiores de Angola.

Ha tambem esta idéa que o mesmo governador Albuquerque poz em circulação no seu muito illustrado relatorio, a saber - que melhor seria para a Guiné, dar-lhe a organisação estabelecida no decreto de 1852 para os presídios da África.

Cada uma destas idéas deve ser examinada e estudada não só em relação á Guiné, mas em relação a todas as nossas colonias, porque, se nós vamos, a proposito do que aconteceu na Guiné, estabelecer ali um governo, cuja creação nos ha de absorver 200:000$000 réis ou mais e nos ha de trazer encargos permanentes, mais teremos de estabelecer um dia para Lourenço Marques, se lá não for o sr. Paiva de Andrada, noutro dia para Mossamedes, noutro para Benguella, noutro para o Ambriz. Por isso entendo que estas questões coloniaes devem ser estudadas num grande complexo. Assim é que eu desejo que o governo as estude para que não venha aqui com as urgências da monção, fazer-nos votar certas despezas para a Guiné, certos conselheiros e certas fardas bordadas.

Entendo como o nobre ministro da marinha que não é agradavel ser pobre e, como s. exa., tambem não desejo que mostremos ás nações estrangeiras aquillo a que elle chamou os nossos andrajos.

Nem lhe pergunto se vinha em bom estado o gibão de Affonso de Albuquerque ao regressar da India.

Mas, se não é agradavel mostrar andrajos, não creia o nobre ministro que os males das nossas colonias possam curar-se simplesmente com fardas agaloadas e titulos de conselho.

É preciso alguma cousa mais; é preciso attender sobre o ás qualidades dos individuos que para Já se escolhem.
O sr. Ministro, da Marinha: - Apoiado.
O Orador: - É preciso que os empregados que para lá vão tenham moralidade, (O sr. Ministro da Marinha:- Apoiado.) que tenham probidade, (O sr. Ministro da Marinha: - Apoiado.) que tenham coragem.
O sr. Ministro da Marinha: - Apoiado.
O Orador; - Ora bem, para isto não é preciso sempre ser general, nem que se tragam muitos galões na farda, porque não era general Honorio Pereira Barreto, nem me consta que fosse conselheiro, nem que tivesse farda agaloada era um indígena patriota. E comtudo soube adquirir-nos essa Bolor.

Dizem que a nossa Guiné tem uma grande importancia commercial. Essa é uma questão que deve ser estudada, nem eu me considero par emquanto habilitado a entrar n'ella.

O que é certo porem, é que na Guiné o commercio de exportação e de importação duplicou depois que se firmou a nossa soberania na ilha de Bolama, consta isto dos documentos, mas é certo tambem que esta ilha, por onde se faz o principal commercio de exportação e de importação da Guiné, tem uma pauta especial, e que o commercio que ali se faz é quasi todo com o estrangeiro. Não quero dizer que isto seja um mal.

É certo, porem, que o commercio da Guiné é hoje de 500:000$000 a 600:000$000 réis, quasi o dobro do que rã antes de readquirirmos a posse da ilha de Bolama.

E, fallando desta ilha, não posso deixar de louvar o nosso digno presidente, cujos esforços, cujos trabalhos, largamente meditados e estudados, fazem honra ao mais hábil diplomata. (Apoiados.)

Porque os documentos que estão publicados provam que o sr. duque de Avila não se mostrou só um grande e sincero patriota, mas tambem um profundo conhecedor da materia, e levou sempre de vencida o negociador inglez, a ponto do que na arbitragem do presidente dos Estados Unidos da America, arbitragem que resultou a nosso favor, pouco mais houve a fazer do que recorrer aos documentos apresentados pelo nosso hábil negociador. (Apoiados.)

Mas, sr. presidente, ha aqui uma disposição que o governo não tinha iniciado, e que foi introduzida na lei pela outra casa do parlamento: a que estabeleceu em Bolama a capital da Senegambia.

Porventura poder-se-ha concluir que a ilha de Bolama reúne hoje as condições necessarias para ser capital da Guiné? Não o creio.

Pois tambem isto é urgente? Tambem é necessario fazer isto já em attenção á monção? Ha em Bolama fortificações militares? Ha lá casas onde se possam alojar o governador, as repartições publicas, e os demais empregados que para lá terão do ir? Parece-me que não, e era bom que tudo isto se estudasse. Tanta cousa inopportuna, tanta cousa antes de tempo!

Sr. presidente, não desejo, nem posso ser extenso. Creio que as reflexões apresentadas bastam para provar que as questões coloniaes se devem tratar de outra maneira, que é inconveniente para os interesses do paiz que sejam tratadas, como estão sendo, sempre por incidente, e sempre a proposito de uma urgencia. Nós assim estragamos a metropole, e não acudimos ás colonias.

Alguma cousa ha de urgente a votar aqui, o a minha opinião, repito, dissentindo neste ponto da opinião do sr. relator da commissão, não é que o projecto se adie em todas as suas disposições, mas sim com relação a algumas dellas. Creio que não foi no sentido do o adiar todo que o sr. Barros e Sá fez a sua proposta, nem tal adiamento tinha o fim de pôr de parte o que é urgente, mas só o que não o é.

Eu peço unicamente que se tire do projecto o que não tem caracter de urgencia, não para que se adie indefinidamente essa parte, mas para que não se trate desde já; o que não quer dizer que o governo não deva metter mãos á obra do estudo da questão que propomos que se adie.

Deve estuda-la e preparar-se para na proxima sessão poder apresentar um projecto bom elaborado, bom fundado e esclarecido para acudir ás necessidades daquella colonia como de todas as outras.

Mas, ha uma cousa urgente a fazer, é reparar fortalezas, é mandar navios de guerra, é mandar lanchões, é mandar tropa e armas, é substituir as tropas nos pontos donde forem tiradas, tudo isto é urgente, assim como é urgente tambem, e urgente sobretudo, mandar para a Guiné justiça, moralidade e disciplina. Disciplina castigando os culpados, disciplina fazendo ver aos soldados e ás tribus que habitam aquellas longínquas regiões, que não são só os soldados que se castigam quando commettem delictos, mas que tambem o official é castigado, quando o official não é digno da banda que traz á cinta. Isto tambem é moralidade.

Em breves palavras vou referir-me e apreciar, tanto quanto posso e sou capaz de apreciar, a historia dos ultimos acontecimentos da Guiné e seus precedentes, porque a historia mais completa devemos sabei-a depois de, termi-