DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO 413
nada a syndicancia a que mandou proceder o governador geral de Cabo Verde no uso das suas attribuições. E muito bem fez, e honra seja áquelle tão digno funccionario.
Quaes foram as causas dos acontecimentos de Bolor? Se perfeitamente não sabemos tudo, temos todavia algumas informações que talvez bastam para se poder muito aproximadamente apreciar estas cousas.
Tem-se dito que é preciso proceder como a Inglaterra procedeu contra os. zulus; e a proposito dos zulus tem-se tambem invocado os sentimentos patrioticos, argumentando-se com o exemplo da Inglaterra por esta nação ter votado muito dinheiro e muita tropa para combater os aguerridos zulus.
Tem-se pretendido mostrar, com esse exemplo, que nós deviamos fazer o mesmo para combater os felupes da nossa Guiné.
Creio que ha grande confusão neste assumpto.
Os zulus não se parecem com os felupes, ou parecem-se " muito pouco.
Os zulus teem admirado o mundo, não só pelas suas qualidades de povos guerreiros, mas tambem pela sua organisação, de que não eram julgados capazes.
Esses gentios, porem, da Guiné, esses gentios selvagens e ferozes que atacaram a nossa bandeira, esses gentios que tanto aterram, serão realmente tão adestrados, como os que estão em guerra com os inglezes?
Creio que não, e mesmo não creio que sejam temiveis como os pintam, porque informações officiaes e insuspeitas de varios, tempos e de varios funccionarios assim o fazem acreditar.
Quer v. exa. saber o que a respeito, dos felupes dizia, o sr. Lopes, do Lima, no seu conhecido livro das colonias portuguezas?
Dizia assim com relação a Bolor:
"Em de redor varias aldeias felupes - gentio amigo, mui notavel e bondoso, que ali concorre a mercadejar, f aliando muito delle o creoulo portuguez das ilhas de Calo Verde."
O sr. Caetano de Albuquerque, no relatorio de 1873, confirma esta apreciação.
Diz este cavalheiro:
"Em Bolor residem alguns negociantes e caixeiros dos de Cacheu, sendo o arroz o maior genero de commercio destes pontos. Os gentios felupes são humildes, submissos e algum tanto civilisados, tendo-se baptisado no anno de 1867 quasi todos os habitantes de Bolor.
"Todavia, apesar disso, continuam nas suas praticas gentilicas como de antes, devido naturalmente a não se ter ali edificado um templo e a não haver um sacerdote que os fosse ensinando e guiando nas praticas do catholicismo. "Durante o pouco tempo que esteve um sacerdote entre aquella nova christandade, ensinava elle os pequenos felupes, e tinha já obtido que muitos soubessem alguma doutrina enrista, e algumas vezes, achando lhes bastante propensão para o estudo. Esses resultados perderam-se com a retirada do sacerdote para Cacheu."
Ora, sr. presidente, que seria o que fez revoltar estes pobres felupos, este gentio submisso e humilde, que falla o portuguez caboverdiano, que é apto para a civilisação, e facil à receber o ensino christão? Que seria o que fez destes pobres felupes uma gente temível? Que seria? Não haveria aqui abuso algum? Não haveria abuso da parte do branco? Bastará só castigar o preto, e não será preciso, sobretudo, ensina-lo, doutrina-lo, e mostrar-lhe, que para o Branco tambem ha castigo quando elle abusa?
A syndicancia ha de vir; a syndicancia será feita; e eu - espero, ou pelo menos desejo, que ella seja feita em toda a liberdade de espirito, de apreciação, e livre de toda a especie de pressão,- de receio ou de temor, por quem tenha de a fazer.
Mas é certo, sr. presidente, que naquella possessão se tem espalhado; se tem escripto nos jornaes, e consta das informações de cartas particulares, que ha pessoas de tal ordem que nunca o castigo as alcança.
Estas idéas estão espalhadas, e era necessario que fossem combatidas com energia e do uma maneira severa, e conveniente por parte do governo.
Isto tem-se dito, espalhado e escripto; e talvez haja certa rasão em se acreditar.
Que seria o que excitou os felupes na Guiné, senão isto que aqui quasi se indica no officio do governador geral de Cabo Verde?
Peço á camara toda a attenção, e que ouça alguns trechos de tão importante documento.
O governador de Cabo Verde, quando recebeu informações da Guiné sobre aquelles deploráveis acontecimentos, communicou-as ao governo, acompanhando-as de um officio que mostra a seriedade e rectidão do seu caracter, e como elle sabe comprehender o seu dever.
Mas antes de ler, parte d'esse officio, referir-me-hei ás instrucções mandadas de Cabo Verde para a Guiné, pelo governador.
Como já disse o sr. Barros e Sá, os acontecimentos estavam previstos; não estava determinado que haviam de morrer cincoenta e cinco soldados, e que havia de haver uma peça de artilheria com grande furia, como diz o governador da Guiné, que estragasse, o reparo e caísse ao rio... A peça é que teve a furia!...
Os acontecimentos estavam previstos no seu lineamento geral,, as nossas fortalezas estavam ali desmanteladas e qua si não tinham soldados. 0 governador da Guiné insistia com o de Cabo Verde para que lhe mandasse forças. Foram-lhe mandadas; e ainda mal que foram para serem tão mal commandadas, para serem victimas, e para serem accusadas de cobardes pelos que ficaram vivos.
Em outubro mandava o governador geral de Cabo Verde forcas para a Guine acompanhadas de instrucções muito razoáveis, muito prudentes, e muito convenientes; áquelle governador subalterno, começando por lhe dizer, ou fazer dizer pelo seu secretario, o seguinte:
Não se deprehende da exposição de v. sª. quaes as causas que motivaram áquelle ataque; comtudo v. sª. reclama reforço para esse destacamento e pede ao governo geral algum auxilio; isso bastou para que s. exa. o governador geral deliberasse immediatamente enviar ahi a canhoneira Sado em commissão especial. Assim, pois, a bordo daquelle vaso de guerra seguem cincoenta praças e um corneteiro sob o cominando de um official subalterno. V. s.ª as empregará onde e como melhor convenha ao serviço, e onde a. sua- presença, seja mais util.
Seguindo a Sado com o fim de dar maior força ao principio da auctoridade e para com a sua presença mostrar aos rebeldes, se os ha, o interesse que ao governo merecem, os subditos e os alliados de Sua Magestade Fidelissima, quer o mesmo exmo. sr. que eu faça a v. s.ª diversas recommendações sobre áquelle navio e sobre o assumpto."
Vou ler agora a origem dos acontecimentos. Dizia ainda o governador de Cabo Verde.
"Convem lembrar aqui a v. sª. que em agosto de 1869 foi celebrado um tratado ou contrato com o gentio de Jofunco, não se tendo feito com os domais em consequencia da epidemia de cólera.
Desses documentos, embora ahi devam existir os originaes, envio copia a v. sª. para evitar delongas, convindo que v. s.ª informe tambem que cumprimento se deu áquelle contrato, e se os povos de Bolor, como nelle era expresso, foram por nós obrigados a dar, e effectivamente davam passagem áquelles gentios para virem negociar á praça dó Cacheu."
Concluía recommendando prudencia, que se não precipitasse no exame das questões, que visse bem o que aquillo era, e se a justiça estava ou não da parte dos que queriam passar com as suas mercadorias, ou daquelles que lhes embargavam a passagem.