414 DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES D0 REINO
Será isto, ou não, a origem dos acontecimentos de Bolor?
Difficil será que a syndicancia venha provar o contrario. E se assim é, a quem caberá a responsabilidade, não digo já da maneira inqualificavel por que se desempenhou da commissão que sobre si tomou o governador da Guiné mas das causas que motivaram o incidente?
Em outro officio do governador geral de Cabo Verde, diz-se: "aquella auctoridade, esquecendo estas instruções, sem ouvir a sua junta consultiva, guiando-se por conselhos e opiniões de cujo criterio é justo duvidar, fosse assim, num momento impensado, expor e sacrificar tantas vidas, sacrificando e expondo ao mesmo tempo a força moral de que tanto carecemos."
Eis-aqui o que diz o governador geral de Cabo Verde, eis-aqui o que se infere tambem nato só do informações particulares, mas de correspondencias publicadas nos jornaes. Eu bem sei que se póde dizer que não deve argumentar-se com correspondencias de jornaes, nem eu quero elevar essas correspondencias jornalísticas a artigos de fé ou a paragraphos do Evangelho.
Sei muito bem que a paixão politica e local, e outras vezes a simples falta de informações, dão origem a inexactidões; todavia, nestas correspondencias que cito, ha perfeita harmonia com o que nos diz o governador de Cabo Verde, e com as informações particulares vindas da colonia.
Sem querer referir nomes, posso dizer, porque é verdade, que alguem que está presente, um amigo meu, recebeu uma carta da Guiné, carta de um homem que estava para morrer, e quando se está para morrer não está o animo disposto a fingimentos, em que o infeliz que a escrevia se queixava amargamente, e com as phrases sentidas, dos abusos commettidos pela auctoridade local.
Não oram, porem, só os particulares que o diziam, eram as correspondencias dos jornaes.
Em uma correspondencia anterior aos acontecimentos, datada de 26 de dezembro, diz-se, de uma maneira menos justa para com o governador geral de Cabo Verde, o seguinte:
"Espanta-nos a indifferença de s. exa., e é já voz geral, mas que se boqueja ainda baixinho e já em grupos muito divididos, que nada resolvendo sobre negocios da Quine, tem medo, mas modo vergonhoso e improprio do seu caracter, de algum ahi dá Lisboa que protege desaforadamente o seu delegado na Guiné."
Nesta parte não é justo o correspondente para com o governador geral de Cabo Verde, que procedia como de via, mas significa que se reconhecia a existencia de grandes protecções, de grandes favores e de grande valimento de que dispunha aquella auctoridade subalterna.
Prossegue o correspondente:
"É tudo tão extraordinario e tão fora do commum, que a maior parte dos habitantes preparam-se para abandonar a Guiné, receiosos de maiores conflictoa em que sejam obrigados a envolver-se.
"Tudo aqui está num verdadeiro cháos, e torna-se já quasi impossivel viver em Bissau, onde em pouco tempo acontecerá o mesmo que ainda não ha muito aconteceu a Bolor."
E concluo dizendo:
"Soccorro a Guiné - é o nosso ultimo arranco; e que não venha tarde."
Esta correspondencia tem a data de 26 de dezembro, e a 30 davam-se as occorrencias que a camara e todos deploramos.
Eu não dou a esta correspondencia de jornal mais importancia do que aquella que deve ter, mas noto que o correspondente, apesar de estar em sua terra, póde ser propheta, porque os acontecimentos vieram.
Ha outras correspondencias da mesma localidade, que quero ler á camara, porque são muito extensas mas que só achara publicadas no Jornal das colonias, jornal serio que se publica em Lisboa, e que é redigido por um cavalheiro muito conhecido de v. exa. Ahi se refere o modo como estava organisado o governo de Cacheu.
Um parente do governador da Guiné era governador em Cacheu, e um parente deste negociava com o gentio, e fazia o seu negocio impedindo que os negros atravessassem Bolor, porque assim lhe convinha!
Eu, sr. presidente, não estou depondo como testemunha, nem julgo da veracidade destes factos, mas parecem-me extremamente plausiveis em vista do que se passou, do que informa o governador geral de Cabo Verde, e do que é confirmado em diversas correspondencias.
Vou ler uma correspondencia tirada do Independente, de Cabo Verde, de 24 de janeiro:
"Asseguram alguns que os bolorenses tinham obrigação, em vista de tratados, de franquear aos de Jefunco as communicações com Cacheu, mas que estas nunca se acharam abertas, sendo isso uma das causas da guerra.
"Que era justo que elles abrissem caminho aos outros povos para o seu commercio, não admitte duvida."
Em tudo isto bem parecem claramente indicadas as causas, as origens das desavenças com o gentio de Bolor, e que taes desavenças foram motivadas por complacencias o abusos dos que exerciam auctoridade na colonia.
Esperemos pela syndicancia para fazer juizo completo dos acontecimentos, não para prover de remedio áquillo que é urgente, mas para que, não só em presença destes factos, destes indícios, como tambem do outros factos plenamente provados, se possa conhecer que a Guiné precisa, alem de armas, mais do que armas; alem de navios, mais do que navios; alem de fortificações, mais do que fortificações; alem de canhoneiras, mais do que canhoneiras; precisa, sobretudo, de disciplina militar e de moralidade no seu governo.
Levemos o castigo ao gentio, mas levemos lhe tambem o ensino, principalmente o ensino religioso. E neste ponto associo-me som a menor hesitação ás asserções de alguns dignos pares, porque não tenho repugnancia em manifestar o meu modo de ver em nenhuma questão, embora ella seja impopular.
Quando combato ou apoio uma situação, não me preoccupo absolutamente nada em popularisar a minha individualidade.
Ao contrario, eu desejo, e desejo sem orgulho nem vaidade, mas como homem publico, que todos me conheçam pelo pouco que valho e tal como sou.
Não procuro conhecer se qualquer opinião é popular; ignoro se esta é assim considerada; mas digo que as missões são indispensaveis, são uma parte essencialissima da nossa politica colonial.
Levemos pois o ensinamento religioso a esses pobres felupes, de quem se conta que em 1867, ouviram uma missa dita no campo, e que era espectaculo grandioso ver como aquelles povos concorriam a assistir áquelle sacrificio, naturalmente sem perceberem bem a importancia delle. Mas, por ahi se começa, pelo culto externo. Levemos-lhe pois o ensinamento religioso por meio das missões, como tão sabiamente, tão dignamente indicou aqui ha dias o illustre prelado de Bragança.
Levemos-lhe a cruz, não levemos só a espada, levemos lhe o sacerdote, não o que vae por interesse, mas o que vae pela comprehensão da sua missão na terra (Apoiados.) para que seja um verdadeiro sol da terra, como diz o Evangelho.
Esta é a verdadeira politica colonial com relação a todas as nossas possessões. Mandem-lhe o ensinamento civil, mas sobretudo o ensinamento religioso, porque no ensinamento religioso vae a moralidade, e, como disse o illustro prelado de Bragança, acima das questões financeiras, acima de todas as questões está a questão da moralidade.