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416 DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO

tido ouvindo os dignos pares, e lendo o que, com relação a este assumpto, se tem dito.

Foi talvez isto que me levou á tentação de pedir a pá lavra nesta occasião.

Começo por fazer um resumo dessa carta, de modo que a camara comprehenda o que ella contem, ainda que a minha oratória é pouco eloquente para o poder fazer de uma maneira regular.

É ella de um dos governadores da África, não tem assignatura, e não é dos nossos tempos, é antiga.

Diz a carta:

"Aqui estou. Talvez não acredites que me dou muito melhor com os pretos do que com os brancos, entendo-me bem com os pretos, mas com os brancos tenho-me visto em terriveis difficuldades.

"Se ainda tens alguma influencia pede, como amigo, que não me mandem desses presentes, porque de cada dez brancos, que me mandam, nove vem famintos, e de mais a misturados, porque alguns são mandados por castigo, e vem com uma terrivel idéa de que a África pertence a todos menos aos pretos. É esta a idéa que elles trazem dahi.

"Mandem-me simplesmente o que eu pedir, e descansem que hei de pedir muito pouco.

"Não me mandem padres negociantes, porque me tenho visto em grandes difficuldades, mas se houver por lá um padre bom como um que eu cá tenho, que ainda não ha muito fez as pazes com dois potentados, manda-mo. Prefiro um destes homens a um destacamento rachitico.

"Deixem-me ficar sosinho, porque, como já disse, acho-me muito melhor estar ao pé do preto do que ao pé do branco." Fizeram-me muita impressão estas poucas regras escriptas, e lembra-mo que o remedio para África seria um governador, e por isso eu voto que haja um governador na Guiné e que a este governador assistissem tres grandes qualidades; que fosse de uma probidade incommensuravel, para dar exemplos que ali faltam, que tivesse uma certa porção de saude e a intelligencia necessaria para se acompanhar de um pequeno pessoal, mas bom, onde encontrasse as condições que lhe faltassem, e com o qual se achasse perfeitamente habilitado a poder servir.

Eu sou governamental, mas estou inteiramente em contradição com os meus amigos num ponto da questão. Os 200:000$000 réis que se pedem ou é muito, ou é muito pouco. Só é muito cae-se no risco terrivel que o habito de julgarmos que nos fica mal não se gasta todo, se é pouco devo dizer... lembra-me agora contar uma cousa. Mas dizia eu que me lembrava contar uma anedocta, e era que um lavrador viu um dia o filho que eslava com dois baldes na mão deitando agua numa seara, e perguntou-lhe: O que estás tu fazendo á seara rapaz? Estou regando-a com estes dois b aldeã de agua, e o pão observou-lhe que não fizesse tal, porque perdia o tempo, Já agua, o trabalho, e talvez a seara. (Riso.)

Eu tenho medo destas sommas pequenas mandadas para África, e muitas têem sido mandadas no meu tempo, e maiores do que não são agora, que sejam uma rega com baldes de agua.

Eu do colonias não entendo nada, mas a carta a que me referi, é que me fez cair na tentação de dizer duas palavras a respeito de colonias.

Sr. presidente, esta necessidade de vingai a nossa bandeira, lembra-me o que se passou com o coronel Pacheco, nome que não repito nunca senão com muito respeito e consideração.

Nós tivemos um desastre na véspera da acção de Ponte Ferreira, e todos diziam que era preciso vingar a nossa bandeira,

O coronel Pacheco disse que era preciso vingar a nossa bandeira, mas que era preciso tambem guardar toda a prudencia para a não arriscar, era a guerra entre dois potentados, porque a mercadoria mais barata que havia na terra era o preto.

Entendo em minha consciencia que o governador de uma colonia deve ser pessoa de toda a probidade.

Quanto a fortificações, armamentos, lanchas a vapor, de que teem fallado, parece-me que sómente deverão servir depois que o novo governador tenha perfeito conhecimento do estado em que vae encontrar aquella nossa possão, e se elle então julgar que tudo isso lhe é preciso, poderá fazer o respectivo pedido.

Está claro que um pobre alferes que, para ganhar um posto, se vê na necessidade de ir para a Guiné, com poucas habilitações e com um pequeno soldo, não póde de maneira nenhuma moralisar aquelles povos.

Concluo, dizendo que approvo o projecto.

Vozes: - Muito bem.

(O orador foi comprimentado.)

O sr. Vaz Preto: - Vejo que todos estamos de acordo, maioria e opposição, porque a maioria, em logar de defender a proposta do governo, ataca-a. Estamos de accordo, repito, porque todos julgamos que essa proposta é extemporânea, e só devia discutir-se em presença de informações e dados importantes que nos faltam.

O sr. relator combateu incessantemente o projecto, e além de mostrar que o sr. ministro da marinha não tinha rasão nos considerandos que fez no respectivo relatorio, declarou que a responsabilidade do parecer da commissão, que era contrario ao relatorio do ministro, não cabia a elle só relator, mas que pertencia essa responsabilidade a todos os membros das commissões reunidas que o tinham assignado.

O sr. ministro disse no relatorio que precedia a proposta de lei que os motivos determinantes da sua proposta eram os acontecimentos de Bolor, e a necessidade absoluta de tomar um desforço immediato desse gentio selvagem que tinha affrontado a bandeira portugueza.

O parecer diz exactamente o contrario; o seu relator entende desnecessario esse desforço, e vae mais longe; entendo mesmo que não houve desaire para a bandeira portugueza. Está convencido que o que houve foi rivalidade de aldeia para aldeia, que foram questões que se dão muitas vezes entre pequenas povoações visinhas, cujos odios, devidos a pequenas cousas, medram e crescem ás vezes a ponto de darem resultados tristes e funestos, como estes de Bolor. Aqui tem v. exa. como a maioria defende o projecto do governo.

O adiamento do sr. Barros e Sá, como a emenda proposta pelo sr. conde do Casal Ribeiro, têem toda a rasão de ser; o adiamento combato a urgencia de todo o projecto e a emenda combate a urgencia pelo que respeita á elevação da Guiné nesta occasião a provincia independente: o sr. relator nas considerações que fez não atacou a doutrina tratada por aquelles dignos pares, o que parece que está de accordo, e que a acha rasoavel.

O sr. marquez de Ficalho foi mais longe ainda. S. exa. concluiu o seu discurso dizendo que efectivamente proferira algumas palavras desagradaveis ao governo, mas que as desculpasse elle, e que tivesse paciencia, que se votava o projecto era por ser ministerial!

O sr. marquez de Ficalho nem mesmo queria que só votassem os 200:000$000 réis, porque, ou eram de mais e ao governo havia de parecer mal não os gastar todos, segundo o seu costume e systema, ou eram de menos e dava-se o caso da historia que narrou.

Esta historia effectivamente tem toda a applicação. Contara s. exa. que um lavrador, vendo um rapaz a regar uma seara amarellada e enfezada, com tão pouca agua que os baldes traziam parte de areia, elle se voltara para o rapaz e lhe dissera que não se incommodasse, que perdia a soara, o tempo e o trabalho. Effectivamente o simile tem perfeita appllicação.

Alem deste inconveniente, que o sr. marquez de Ficalho