DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO 417
tão bem em relevo, dá-se um outro: é que para o governo regenerador não ha dinheiro que o sacie, e quando propõe um serviço diz sempre que a despeza é uma bagatella. Essa despeza não chega e todos os annos vem pedir nova para completar o serviço. Serve de exemplo a penitenciaria, os caminhos de ferro do Minho e Douro,, o hospital Estephania, e muitos outros melhoramentos que eu poderia aqui enumerar.
Sr. presidente, dizia ainda o sr. relator da commissão, querendo defender o projecto do governo que esta medida não era o fiat. lux; que eram necessarias mais informações do governador geral de Cabo Verde para o governo proceder com prudencia e madureza. Para o sr. relator, as informações que existem na secretaria, e as que tem o sr. ministro, não lhe bastam ainda.
Portanto, já v. exa. vê, sr. presidente, que tanto eu, como os membros das commissões reunidas, que assignaram com declarações, e que julgam importuno este projecto, temos a nosso favor os dignos pares da maioria que têem tomado a palavra neste debate, embora votem a favor do projecto. Combatem-no, mas votam-no porque são ministeriaes.
Sr. presidente, deixando agora a illustre relator da commissão e o meu digito collega, o sr. marquez de Ficalho, procurarei responder ao sr. ministro da- marinha, que hontem me tratou com alguma severidade, não digo, mas talvez com desamor.
Eu julgava que pelo modo como tinha tratado a questão, não. mostrando nunca animo hostil a s. exa. e muito menos, opposição acintosa, devia merecer toda a sua benevolencia.
Não succedeu, porem, assim, o sr. ministro disse com um modo vehemente, áspero até:
"Os dignos pares, em logar de apresentarem aqui estas informações, deviam te-las remettido ao governo, deviam dar-lhe conhecimento dessas propostas:"
(Interrupção do sr; ministro da marinha.}
Agradeço a rectificação feita polo nobre ministro, porque effectivamente eu tinha entendido as observações de s. exa. neutro1, sentido, eu tinha-me persuadido que s. exa. tinha dito, que nós tinhamos obrigação, de participar ao governo as informações que tivéssemos obtido.
Pelo que me respeita agradeço a rectificação; não obstante cumpre-me tambem dizer que nem a pessoa que me deu as informações, de que hontem fiz menção, tinha obrigação, de informarão governo, porque não tinha noticia dó projecto que o governo tencionava apresentar ás côrtes; e, quando tivesse conhecimento desse projecto, ainda assim, não se julga vá obrigada a ter de dar officiosamente informações ao governo.
A exclamação do sr. Thomás Ribeiro não pode considerar-se senão como um desabafo de quem se vê tão mal collocado, e de quem precisa de cerineu para lhe ajudar a levar a cruz.
Deixando esta questão, respectiva ás palavras, que o sr. ministro pronunciara para alliviar as suas maguas, direis que o sr. ministro da marinha, ou foi mal informado quando procedeu á compra do vapor Hugh Parry, ou não estudou com profundeza aquelle documento, que lhe foi enviado pelo r conselho de trabalhos.
Uma simples leitura do parecer bastaria para se reconhecer que o vapor Parry não servia para o serviço a que o destinavam, que aquella embarcação não tinha as condições exigidas.
Sr presidente, a palavra do nobre, ministro tem para mim grande pezo e valia.
A gravidade e seriedade do sr. Thomás Ribeiro faz-me com que eu tenha pela sua palavra toda a consideração, e por isso acredito a declaração feita por s. exa. de que não tinha ainda comprado o vapor.
Não obstante a sua declaração, eu pedia a s. exa. que me1 explicasse como é que se dá o caso do proprietario do vapor declarar em um jornal, que esse vapor já está vendido ao governo, me explicasse o facto tambem, que eu li noutro jornal, que acrescentava que já estavam concluidos os concertos, e que se lhe estava mettendo artilheria?!
Hontem fiquei muito contente com a declaração do sr. ministro da marinha, de que não tinha comprado o Hugh Parry, e estava convencido que as minhas informações o esclarecimentos tinham vindo ainda muito a tempo para evitar que o sr. ministro commettesse esse erro ou falta, que se póde dizer pouco desculpavel. Hoje, porem, quando li os jornaes, que asseveravam que o vapor tinha sido comprado, que se lhe tinham feito os concertos e reparos de que elle carece, e que só lhe esta vá mettendo a artilheria, fiquei desanimado, e sem poder entender estes factos e estas declarações contradictorias. Por isso peço explicações ao sr. ministro;
A respeito da compra do vapor Hugh Parry desejava eu muito, que o sr. ministro da marinha se explicasse, porque- tem necessidade de o fazer, não só para nos mostrai o que vale a sua afirmativa, mas tambem porque s. exa. leu aqui hontem uma carta do proprietario do vapor, em que declara que nunca, tinha offerecido aquelle vapor a pessoa alguma, pelo preço de 12:600$000 réis, e leu essa carta para me responder a mim, que tinha feito, essa affirmativa pelo que ouvi á pessoa competente que me tinha dado auctorisação de o repetir na camara, e por isso eu disse hontem que aquelle vapor já tinha sido offerecido polo preço, de 12:600$000 réis.
Para corroborar a minha asserção lerei hoje uma carta que recebi, e pela qual o sr. ministro verá se eu tinha, ou não, rasão na minha affirmativa. Eis a carta:
"Illmo .e exmo. sr.- Tenho a honra de asseverar a v. exa. que o vapor Hugh Parry foi-me offerecido, em 1878, pelo engenheiro inglez Thomás Perkins, pelo preço de 2:800 libras, offerecimento que este não podia fazer se para tal não se achasse auctorisado.
"Pode v. exa. fazer desta carta o uso que entender.
"Disponha v. exa. de quem é, com a maior consideração - De v. exa - Muito attento venerador e amigo obrigado, - J. D'A. de França Neto.
"Lisboa, 10 de março de 1879.
"Ao Il.mo. e exmo. sr. Manuel Vaz Preto, digno par do reino."
Aqui tem s. exa. este documento, pelo qual pôde verificar que effectivamente se offereceu o vapor Hugh Parry, no anno passado, ao sr. França Neto, pelo preço de réis 12:600$000 réis, ou 2:800 libras.
Parece-me conveniente que se note que este offerecimento foi feitoro anno passado, e que, por consequencia, esse vapor deve hoje valer ainda menos, porque os vapores, passado algum tempo, e em serviço, perdem grande parte do seu valor, e então vendem-se por metade ou por menos.
Ainda ha pouco um vapor que tinha custado um preço muito superior, vapor de alto lote, que tinha feito muitas viagens para o Havre, foi posto á venda em Lisboa e não se chegou a offerecer, por elle mais de 18:000$000 réis. Supponho que chamava Aurora vapor aqui muito conhecido.
Em confrontação com os vapores de que já fallei, e com este a que me referi ha pouco, o vapor Hugh Parry é effectivamente caro pelo preço por que agora se pretende negociar.
Alem disso é um vapor que não está nas condições que se exigem para o serviço da Guiné, segundo a opinião de officiaes de marinha; sobretudo porque é uma embarcação que demanda muita agua, sendo ao mesmo tempo pouco veloz.
Estimei por consequencia saber que s. exa. não tinha ainda realisado essa compra; e desejarei que não venha, a realisa-la.
A responsabilidade do sr. ministro comprando p vapor Hugh Parry, depois da discussão que tem havido na im-