424 DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES NO REINO
da sua expulsão os naturaes têem continuado a ensinar-se uns aos outros.
Cazengo, diz elle ainda, é notavel pela abundancia e excellencia do seu café, de que ha extensas plantações pelas encostas de varias altas montanhas: foram plantadas pelos missionarios que trouxeram a semente de Moka.
Tanto n’estas localidades, como em Golungo Alto, onde elle visitou outro convento, o dr. Livingstone conta que a memoria dos missionarios é tida em alta estima até ao dia de hoje, e que elles se applicavam cuidadosamente á instrucção das creanças.
Todavia não se ganha nada com exagerações. Uma boa causa não precisa que, em seu favor, se desnature a verdade.
Ora, é certo que se houve missionarios que, como S. Francisco Xavier, deram a vida pelas suas ovelhas, outros houve que as souberam mui bem tosquiar.
Poderia citar muitos factos em confirmação; mas isso nos levaria muito longe.
Direi apenas, já que citei o testemunho de Livingstone, que elle mesmo conta que os jesuitas de Tete não deixaram lá saudades, que o conceito que d’elles ficou n’aquellas terras foi o de habilissimos negociantes, muito ricos e muito industriosos, mas exclusivamente empenhados em seu negocio e proveito proprio. Portanto não me resta a menor sombra de duvida a respeito da exacção do facto que apontei na citação que fiz do livro do sr. marquez de Sá.
O bem e o mal, sr. presidente, andam n’este mundo intimamente amalgamados, e uma instituição é boa ou má, segundo a proporção que n’ella ha de um e de outro.
O que se deve fazer e tratar de aproveitar o bem e de expungir o mal.
O que é certo é que aos missionarios muito devemos no passado, e que é de intuitiva evidencia que devemos hoje, mais que nunca, empregar esta poderosa e benéfica influencia para a conservação e prosperidade das nossas colonias., (Apoiados.)
O sr. Bispo de Bragança: — Peço a palavra.
O Orador: — Já que não temos nem homens, nem industria, nem capitães, aproveitemos ao menos aquella maravilhosa força que nos subministra a religião que professámos.
O sr. Presidente: — O sr. bispo de Bragança inscreve-se a favor ou contra?
O sr. Bispo de Bragança: — A favor.
O sr. Presidente: — Então tem v. exa. a palavra.
O sr. Bispo de Bragança: — Em primeiro logar, sr. presidente, devo declarar a v. exa. e á camara que, por incommodo de saude não tenho comparecido no parlamento: foi renittente o meu incommodo e alongou-se, e por isso bastantes são as faltas que tenho dado, e é ainda mal convalescido que hoje aqui compareço.
O meu fim principal, sr. presidente, é pedir explicações ao sr. ministro da marinha, a quem desde muito tenho annunciado uma interpellação sobre o estado das missões portuguezas no ultramar, assumpto importantissimo, ácerca do qual eu tenho a honra de me ter adiantado em pedir, já de outra vez, a attenção dos poderes publicos, para que do modo que se julgar mais adequado haja de providenciar-se, e de occorrer ás necessidades moraes das nossas colonias.
O estado da minha saude e das minhas forças pouco me permittirão que eu faça para corresponder condignamente ao que se deve exigir de mim com relação a este assumpto que tão grave é; entretanto, não posso deixar de aproveitar este ensejo para apresentar algumas considerações sobre o projecto que se discute, expondo á camara as minhas idéas na parte, que mais de perto, póde dizer respeito ao fim que cumpre ter em vista, e isso conforme as poucas luzes que possuo.
Sr. presidente, desejo fazer ver á camara o que nós actualmente temos feito para acudir em parte ás necessidades a que acima me refiro, para ver tambem o que devemos fazer por’ora, sem maiores esforços, e o que é para desejar que se faça de futuro.
Esta questão de que se está tratando attinge realmente interesses muito consideraveis, tanto no que diz respeito especialmente ás colonias, como a todo o paiz; e é do interesse de todos que se trate com aquella circumspecção com que esta camara costuma occupar-se de todos os assumptos que são submettidos á sua consideração.
Tem a camara ouvido discutir calorosamente, e com pronunciada feição politica nas precedentes sessões os varios assumptos que, relativos ás nossas colonias, têem sido propostos ao seu illustrado exame. Não cumpre, porém, ao especial caracter, pelo qual tenho voz n’esta casa, seguir os mesmos tramites.
Eu não sou politico, nunca o fui; menos agora o posso, nem o devo ser aqui: bispo catholico, sou de todos, todos são meus, a todos abraço. Eis-aqui está a minha politica. (Vozes: — Muito bem.)
Não hesito em declarar que a situação, que actualmente está dirigindo os negocios do estado, merece, quanto a mim, completa e conscienciosa confiança, tanto pelo exame dos seus actos, como pelas relevantes qualidades dos cavalheiros que a constituem, aos quaes pessoalmente dedico sincera estima.
De igual sorte professo subida consideração aos illustres membros desta camara, que actualmente representam n’ella a opposição á marcha do governo, e para com alguns d’elles são de mui antiga data estas cordeaes relações: reconheço a utilidade que para o melhor acerto na gerencia dos negocios póde resultar do concurso das opposições cordatas; nem do outra sorte póde conceber-se a feição dos governos representativos.
Não entrará por fórma alguma no espirito das minhas asserções o pensamento de hostilidade, nem de adulação, nem de censura, a pessoas ou a situações, porque entendo, que todas as difficuldades, com que luctâmos, todas as faltas que tem havido, não nasceram da vontade de ninguem, nem é da vontade de ninguem que continuem a existir; mas tem sido uma triste consequencia logica das complicações em que nos temos achado. Nem seria proprio do meu caracter sacerdotal que eu por forma alguma discutisse quem quer que fosse: é esse um dos meus deveres, é o que me ensina a doutrina do Evangelho, é o que nos manda o nosso Divino Mestre, quando diz n’uma occasião muito solemne: Qui sine peccato est vestrum, primus in illam lapidem mittat.
E a igreja consignando este soberano ensino em um dos seus mais solemnes actos, o da instituição canonica de seus ministros, exhorta, que se alguem lhes conhece defeitos, de que os possa accusar, falle desaffrontadamente; mas acrescenta logo: Memor autem sit conditionis suae.
Tenho muito presentes estas palavras, porque ainda não ha muitos dias as proferi no desempenho do meu ministerio, conferindo a sagrada ordenação.
Por consequencia, não poderia nunca ter a intenção de censurar nem situações, nem pessoas. Considero todos estes factos filhos de uma triste consequencia das commoções dos tempos, e cujos resultados de ordinario são mais duradouros do que ellas.
Todos estão accordes em que devemos prestar attenção especial e empregar todos os nossos esforços para a sustentação da autonomia portugueza e seu decoro nas nossas conquistas, e não menos para promover a civilisação e a moralidade dos povos, que de nós dependera, e d’aquelles todos, aos quaes a Providencia como que nos chama, para d’elles curarmos.
A necessidade das missões no ultramar portuguez é um corollario dos deveres humanitarios que nos ligam aos seus habitantes. Devemos-lhes providencialmente moralidade e civilisação? Pois arvoremos no centro d’elles o pendão religioso; levemos lá o symbolo sagrado; cravemos n’aquelle