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DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES NO REINO 425

solo a cruz; ensinemos ás gentes rudes a religião da caridade, da moralidade, da civilisação. Sem religião não ha civilisação nem moralidade: a honradez mesmo, se não é absolutamente falsa sem religião, carece pelo menos da sua melhor garantia. A cruz santa do catholicismo é o symbolo de todos esses bens; tambem o é do mais nobre heroismo civico.

As missões são o vehiculo da cruz.

Eu tenho a honra de ser o superior do collegio das missões ultramarinas, e como tal, alem de membro, posto que mui indigno, desta camara, cumpre-me tomar dedicadamente parte sobre o momentoso assumpto de que esta casa do parlamento hoje se occupa.

Trata-se do triste incidente, a que já me referi, quando de outra vez aqui fallei, o desastre occorrido na Guiné. Trata-se de remediar esse desastre pela acção da administração civil e militar. Apresenta-se um projecto de lei estabelecendo diversas providencias, e um parecer das commissões sobre o qual versa a discussão.

Eu, como additamento á doutrina do projecto, acrescentarei, que alem das medidas ali contidas, as quaes eu voto de mui boa vontade, pois que nunca amesquinharei os meios, que em condições anormaes, como as do incidente occorrido, os governos do meu paiz pedirem para revindicar o nosso decoro offendido, e garantil-o contra mais offensas; acrescentarei, digo, que não só medidas de força para manter em respeito a representação activa do estado devem ser tomadas, mas não menos, ou mais ainda, não devem ser esquecidas aquellas que só têem a virtude bastante para curar o mal na sua raiz.

Eu encontro no relatorio da commissão que reviu aquelle projecto as seguintes palavras:

«Mas como isto só não possa bastar em uma região, cujos indigenas idolatras, privados de civilisação, etc., etc.»

Isto observa a illustrada commissão.

Diz que a força não basta, direi eu o que a dispensa; diz que os povos são idolatrados e privados de civilisação; aqui prende a minha reflexão, e apontarei os devidos meios de obviar a essa condição nefasta.

São idolatras, levemos-lhes a fé para que o não sejam; estão privados de civilisação, ensinemos-lhe o evangelho, entrarão na moralidade, passarão a ser civilisados.

São repugnantes os seus costumes, pendem para um dos extremos, indolencia ou ferocidade, e o estado selvagem os colloca fóra do tracto commum?

A espada, assim, espanca-os, não os melhora; fal-os errantes, e depois vingativos; rarissimas vezes uteis.

Envie-se-lhes o pendão da paz em logar da bandeira de guerra; o homem de abnegação em vez do exactor de tributos: falle-se-lhes de caridade, palavra que todos entendem; vel-os-hemos mudados.

O meio unico para aplanar o caminho contra estas difficuldades é o pacifico exercicio do missionario; mas esse exercicio permanente e abundante, porque de outra sorte faz desprestigio.

A missão feita de passagem é inefiicaz para poder incutir a luz da religião nos animos d’estes idolatras. A primeira das condições é deixar de ser idolatra. O meio para isso á levar-lhes a fé pelo evangelho; mas não só levar-lha, manter-lha com uma acção continuada, e acompanhada de meios e de signaes que demonstrem o nosso respeito por ella.

Já n’esta camara uma voz muito auctorisada a todos os respeitos, a do sr. Andrade Corvo, disse estas ou similhantes palavras:

«O nosso dominio foi curto, mas glorioso; primeiro entrou a espada, atrás da espada a cruz, atrás da cruz o progresso.

«Depois retirou-se a espada, depois da espada a cruz, atrás desta o progresso, o commercio, e as vantagens moraes.»

São estas as palavras d’aquelle illustrado orador.

Agora se nós queremos que se restabeleça a prosperidade, que se active o commercio, que se affirme o nosso dominio, que a nossa espada continue a sustentar-se cavalheirosa e gloriosamente, comecemos por onde devemos começar.

Appareça a cruz no meio destes povos, evangelisem-se, adocem-se-lhes os costumes, e a espada só será precisa para representar a magestade, e não para ferir.

N’este sentido, sr. presidente, redigi e apresentei eu já um projecto, que está affecto ás respectivas commissões, cujo andamento aguardo.

Fallando-se, porém, das missões, parece-me que não virá fóra de proposito o indicar quaes os meios, que actualmente temos, para lhes fornecer ministros; o numero de missionarios que desde o anno de 1875 têem sido enviados ás colonias ultramarinas, suas paragens e alguns de seus serviços, e bem assim as condições em que existem actualmente as nossas missões ultramarinas, isto é, o que de presente se está fazendo, e muito mais o que nos resta a fazer.

Eu fui em tempo convidado para exercer o cargo de superior do collegio das missões ultramarinas. Recusei, e devo confessar que a minha recusa não foi por modestia, foi pela minha absoluta falta de forças, pelas minhas poucas habilitações para tão importante commissão, e mesmo pela minha pouca energia para um encargo de tanta responsabilidade.

As forças vão-me abandonando, a idade augmenta e com ella as enfermidades; e se bem que o coração esteja vigoroso e continue sempre todo portuguez e todo catholico, as forças physicas negam-se a acompanhal-o nas suas. aspirações, e então, devo confessal-o, mais se aggrava ainda a minha mortificação.

Acceitando, finalmente, a referida missão, devo declarar que só o fiz pondo duas condições ao sr. ministro, que agora dirige os negocios estrangeiros, e então dirigia conjunctamente os da marinha e ultramar.

A primeira foi que não acceitava o caracter episcopal, pois me era offerecida a nomeação de bispo in partibus, porque eu então era conego da patriarchal, e administrava, como vigario geral, a diocese de Portalegre.

A segunda foi que, emquanto eu exercesse as fuucções de superior do collegio das missões, a verba destinada para remuneração ficaria em branco, e seria apenas representada no orçamento por uma cifra.

Não digo isto aqui para a camara, mas porque aquillo que é aqui proferido torna-se do conhecimento publico, e bem é que fique-sabido, que nem o interesse me levou áquella acceitação, nem agora, accumulando este serviço com o do regimen da minha diocese, eu por ventura accumulo algum vencimento: não possa o caracter de ministro da igreja soffrer por mim a pécha de interesseiro.

Passo, pois, concluido este incidente, a expôr resumidamente as condições do collegio pelo qual as missões são providas.

A lei de 12 de agosto de 1806, referendada pelo sr. marquez de Sá da Bandeira, de tão respeitavel memoria, deu existencia legal ao collegio das missões ultramarinas portuguezas da fórma por que se acha estabelecido em Sernache do Bom-Jardim.

Isto mais foi uma verdadeira ampliação e legalisação, por assim dizer, d’aquillo que já se achava estabelecido, do que propriamente dito uma fundação de collegio de missões para o ultramar portuguez.

O fundador e primeiro doador desta instituição tão meritoria da religião e da patria foi um padre, um missionario portuguez da congregação da missão, o sr. D. Verissimo da Serra, ultimo bispo eleito portuguez de Nanckin. O qual, voltando ao reino depois de 1834, com as esmolas que póde obter durante suas missões, e com os rendimentos do que possuia de patrimonio de sua casa paterna, em