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428 DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES NO REINO

tendo de procurar os 800 christãos, de que consta, disseminados em vinte povoações, algumas das quaes distam a mais de 40 leguas, encontra pela maior parte indifferença e até desprezo, ou quando muito curiosidade.

«A mudança do trage, dos usos, dos alimentos; as dificuldades da lingua, as durezas do trato e o mau trilho dos caminhos, as angustias de muita especie, e os perigos sempre imminentes e sem abrigo; tudo é para mais virtude do que a minha, e reclama um perfeito modelo de Xavier e de João de Brito.

«Todavia Deus Nosso Senhor em sua infinita bondade tem sido prodigo em dispensar-me a sua graça, apesar da minha falta de correspondencia. Na passada quaresma pude dar começo aos trabalhos do confessionario. Deus louvado, julgo poder afirmar que tambem em Hai-nan Deus tem os seus eleitos!, e que este numero é susceptivel de augmento logo que o missionario conheça bem os costumes, e alguns dialectos da ilha; e perante as auctoridades chinas tenha garantidos os seus direitos, e a liberdade concedida aos subditos de outras nações».

A camara ouviu certamente com interesse a leitura de um documento sobre tão peregrino assumpto, e concebido em phrase de tanta lhaneza e comedido estylo, que por isso me parece ser bello.

Em separado enviou-me um resumido esboço do seu serviço religioso em 1878; ainda o leio, porque de Hai-nan escasseiam as noticias.

«A missão d’esta ilha, escreve elle, estabelecida no meiado do seculo XVII pelo padre Bento de Matos, missionario jesuita portuguez, esteve n’essa epocha muito florescente, contando-se na capital Kem-txeo-fu 3:000 christãos; hoje, porém, segundo o ultimo arrolamento feito por um missiorario francez, conta dispersos por toda a ilha 834.

«Pela minha parte no anno corrente administrei 138 confissões annuaes, 61 repetidas; communhões 99 annuaes, repetidas 55; matrimonios 2; baptismos 12.»

Não é certamente muito; mas tambem não se póde dizer que seja pouco para um missionario novel ainda no primeiro anno de sua missão em condições tão pouco lisonjeiras; prova-se que não esteve ocioso.

Não preciso dizer mais para se saber como são dignos de consideração os serviços d’estes missionarios e de outros, que são filhos do collegio das missões.

Que ha, pois, a fazer com estes clementes? Nós podemos fazer alguma cousa; mas o collegio das missões não póde sustentar actualmente mais de cincoenta alumnos, porque não tem capacidade para mais. Os pedidos são numerosos, como já aqui observei, e ha na secretaria do collegio mais de vinte requerimentos, e muitos pretendentes não requerem, porque não têem meios para em suas localidades frequentar estudos, e não podem ainda ser admittidos no collegio, senão á proporção das vacaturas que se forem dando; e estas por ora ainda são poucas, porque os estudantes de preparatorios estavam atrazados; e os exames são austeros, como bem é que sejam.

No começo d’este anno acrescentei eu, cem approvação, do governo, pelo ministerio da marinha, uma aula de lingua konkani, para alumnos que hajam de missionar nas, terras da India portugueza: outras de dialectos africanos desejo eu tambem estabelecer, e não o tenho conseguido: por falta de professores. Assim mais demorados irão sendo os cursos.

Não sae do collegio nenhum missionario, bem ter completado os estudos preparatorios, e o curso theologico, o qual dura tres annos.

Estas cousas não se fazem sem tempo. Não tem havido, por isso, tantas vacaturas, quantas seriam necessarias para as admissões requeridas.

O remedio para as consequencias d’esta demora acha-se previsto na lei de 12 de agosto de 1856.

Nesse sentido apresentei eu aqui ha alguns dias um projecto, para se estabelecer um collegio filial do que existe em Sernache do Bomjardim, aproveitando-se o convento de Chellas, nos suburbios de Lisboa, que está devoluto.

N’esse collegio filial, estabelecido dentro das faculdades da citada lei, desejo eu estabelecer, como expressado vae no indicado projecto de lei, uma secção para ensino de artes fabris e estudos agronomicos e hygienicos, pois succede haver, como já aqui referi n’outra occasião, vocações para o serviço humanitario e religioso em alumnos, que por varias circumstancias não podem consagrar-se ao estado ecclesiastico, mas desejam empregar-se em o coadjuvar no serviço das missões. Para aproveitar estas vocações desejo eu abrir aquella secção; e persuado-me que ha de dar bons fructos, e ser concorrida por filhos de gente pobre e moralisada.

Estes alumnos terão no collegio vantagens como os ecclesiasticos, sustento, vestuario e instrucção; assim elles tomarão uma habilitação util, honesta e meritoria, como consagrada directamente ao amor de Deus, á dedicação humanitaria, ao honroso serviço da patria: não precisam mais pensar, nem de pae, nem de mãe, senão para os respeitar, e um dia serem-lhes uteis, quando elles o necessitem.

Esses alumnos deverão tambem, pela mesma fórma que os ecclesiasticos, comprometter-se a ir servir nas missões, conforme o regulamento e condições que o governo prescrever.

Serão estes os coadjutores dos missionarios propriamente ditos, porque, emquanto estes ensinam a doutrina, aquelles ensinam a fazer a casa, a desbravar o terreno, a crear os gados, a manipular os productos vegetaes, a combinar e fundir os metaes; enfim, ensinam as artes uteis e fabris.

Os missionarios não se acharão sósinhos nos seus exercicios religiosos têem aquelles bons companheiros para os auxiliarem.

Este é o pensamento que presidiu á redacção do projecto, que apresentei, e que está dependente da approvação do sr. ministro da marinha, e da do parlamento, para a concessão difinitiva do referido convento e de sua dotação, que não é larga, mas sufficiente para começarmos esta instituição: o rendimento em titulos e fóros não excede 5:000$000 réis.

Ha pouco recebi uma carta do meu digno collega, o sr. bispo do Funchal, que teve conhecimento d’este projecto, e na qual me diz que muito desejava, e era muito facil, estabelecer tambem na sua diocesse um collegio filial de missões.

Expõe as vantagens com que esse collegio pederia ser creado, e entre ellas apresenta a consideração, de que o Funchal é uma terra essencialmente mariante e um ponto naturalmente adaptado para servir como escala de aclimatação aos missionarios, que do continente passam aos ardentes climas da Africa, bem como de restaurador de saudes, que logo de começo sejam affectadas.

Esta idéa de animação dai, missões vae-se ramificando; é como um novo incentivo de fé religiosa e do amor da patria; é um campo de descobertas e de conquistas não menos heroicas do que as dos seculos XV e XVI, menos ostentosas e lucrativas por certo, menos ambiciosas tambem, mais humanitarias e talvez mais seguras.

Preoccupa-nos o estado da nossa Africa, temos approvado companhias exploradoras e concessões, vamos mandar para lá artilheria e força militar; em fim vae-se estabelecer ali um governo mais proprio para sustentar a dignidade nacional: são providencias adequadas.

Mas as missões tambem são muito neccesarias para acudir ás necessidades moraes e religiosas d’aquella parte d’esses povos, que já são christãos, e d’aquelles que, por não serem, nós encontramos inimigos: façam-se elles discipulos do Evangelho, adoradores da cruz santa, e não serão mais inimigos de quem estes elementos lhes leva; não se prefira saltar barreiras, marchemos pelo caminho chão; não se derrame sangue, diffunda-se antes a luz.