430 DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES NO REINO
corpo sacrosanto, que ha pouco ainda esteve em exposição na Velha Goa, nenhum christão, mais ainda, nenhum gentio ou mouro, deixou de prostrar-se reverente! Só a religião póde fazer estes milagres, só a virtude estes prodigios. (Muito bem.)
Sr. presidente, a voz do illustre varão, que todos nós ouvimos com grande prazer, estava-me eu lembrando que devia ser acompanhada pelo repique dos sinos da sé de Gôa, unica voz ainda bastante poderosa para se ouvir até os confins do oriente.
Nós possuimos realmente na India 20 leguas de comprido sobre 10 de largura, no que chamamos nossos territorios e nossos dominios, mas pertence ao nosso padroado quasi todo o oriente, que os soldados da cruz, principalmente, souberam conquistar.
Sr. presidente, rege felizmente a christandade n’aquella vasta região um homem dignissimo, o sr. arcebispo de Gôa, de quem n’este momento me não posso esquecer.
O sr. Ornellas: — Peço a palavra.
O Orador: — Quando outros serviços não fizesse, esse digno prelado, que ha de prestar muitos e valiosos, porque está na sua mocidade e tem virtude e talentos que lhe darão sempre logar glorioso ao pé dos varões mais prestantes d’este paiz, já os serviços que tem prestado á religião e á patria bastavam para lhe assegurar um logar distincto na historia da nação. (Apoiados.)
Sr. presidente, eu não digo isto para lisongear alguem a quem na verdade tributo amizade; digo isto, porque me parece que é dever do ministro da corôa fazer justiça a todos, para que um dia tambem lhe possa ser feita a justiça que merecerem, se não os seus actos, pelo menos os seus desejos e as suas intenções.
Fallemos dos alvitres do sr. bispo do Bragança. Não acompanharei o illustre prelado em todas as suas considerações com respeito ás missões ultramarinas, e sinto não o poder fazer, mas tambem é certo que seria audacia imperdoavel, seria faltar a mim proprio, querer apresentar asserções ou informações em abono da palavra auctorisada do digno prelado.
Quero, pórem, dizer a s. exa. que tambem me preso, não direi de ser religioso, seria pretensão exagerada; mas de estimar os que o são, e de reconhecer e reverenciar a virtude onde ella existe e os serviços que a religião tem prestado nos paizes onde por toda a parte, e sempre, nos tem acompanhado, se porventura alguma vez não nos; tem antecedido.
Eu não tenho descurado, sr. presidente, de nenhuma fórma a questão religiosa do ultramar. Pouco póde, porém, um ministro, que tem a seu cargo os negocios do ministerio da marinha e ultramar, quando tão poucos meios, infelizmente, se lhe podem dar para acudir ás vastissimas necessidades que por lá se encontram.
Começâmos por nem ter lá igrejas, sr. presidente, e algumas que tivemos vão caindo. Pois um dos primeiros cuidados que tive, logo que entrei para o ministerio, foi obter de outras nações coloniaes, typos de igrejas modestas e baratas, mas sufficientes, como compete a uma nação que não é rica.
Encontrei e já enviei para as nossas colonias dois typos que realisavam os meus intuitos. Um d’elles, o mais modesto, é orçado em 4:000$000 réis approximadamente, e reune igreja, escola, residencia do professor e do administrador do concelho.
Outro, para terras mais importantes, tem tudo isto em ponto maior, e casa para algumas repartições publicas.
Ainda assim não deve exceder a 8:000$000 réis.
Eu sei que nem todos approvam estes esforços ou applaudem estes designios.
Sei que alguns dignos pares não têem esperança que das missões nos venham proveitos moraes ou materiaes. A este respeito quero lembrar á camara, lembrar unicamente porque ella sabe quanto eu lhe possa dizer e não tenho
pretensões a illustral-a; quero lembrar-lhe o que está fazendo a França ainda hoje, a França republicana, a França cuja commissão de fazenda é presidida por mr. Gambetta.
A França gasta com as suas missões no ultramar sommas consideraveis, e não só subvenciona lá o culto, mas os missionarios e todo o ensino religioso. E não para aqui, faz mais.
Na Cochinchina ha hoje padres, que não têem relações nenhumas officiaes com a governação do estado, que são postos ali por institutos romanos, e estão por consequencia independentes inteiramente da auctoridade local. Apesar d’isso a França republicana subvenciona estas missões na Cochinchina, e os seus collegios. Um verdadeiro estado no estado.
Que diriam os nossos ultra-liberaes se imitássemos n’isto a França republicana?
Sem pretensões a ser propheta, direi á camara que nenhum governo de Portugal póde bem governar as suas vastissimas colonias, se ao elemento militar e administrativo não juntar o elemento religioso.
Creio em minha consciencia, que não ha ninguem mais liberal do que eu; mas não creio que possa haver verdadeira e boa liberdade, sem que o espirito religioso depure a atmosphera social das impurezas que a viciam.
A respeito das missões na China, de que tão sabiamente, fallou o illustre prelado de Bragança, tenho instado com o governador de Macau, o qual tambem é nosso ministro ante as côrtes da China, Japão e Sião, para que empregue todos os meios para concluir um tratado com a China.
Agora mesmo, muito recentemente, aproveitei um ensejo casual para instar de novo e neste sentido com aquelle funccionario. Aconteceu que o governo hespanhol, precisando procurar ali emigração para as suas colonias, se dirigiu ao nosso governador para que elle o auxiliasse n’este empenho.
Manifestou-lhe este a impossibilidade em que estava de o poder auxiliar pelas disposições expressas das nossas leis com respeito á emigração dos culis. Communicando-me estes factos, fez-me sentir que o governo de Hespanha estava em via de fazer um tratado com a China.
Pelo telegrapho mesmo o instei a que aproveitasse a occasião para realisarmos o nosso tratado.
Sr. presidente, eu tenho sido accusado aqui de mudar de opinião. A primeira cousa para que peço licença é para não responder a esta arguição. Se os meus actos me não defenderem, as minhas palavras serão vãs.
Refiro-me agora ao que entendo a respeito da India.
Eu julgo ainda hoje que a India portugueza não é só um padrão das nossas immorredoras glorias, mas que deve ser tambem uma succursal da metropole que nos póde fornecer elementos, que porventura em Portugal não possamos encontrar, para uma boa administração colonial.
A India póde dar-nos, como nos tem dado, e está dando, excellentes soldados, que vão servir em Moçambique. A India póde fornecer-nos da sua escola medico-cirurgica, como já o tem feito, excellentes facultativos para servirem nas nossas colonias, e que podem ali aclimar-se, como o não conseguem os filhos da metropole. A India póde prestar-nos muitos e valiosos serviços ás nossas colonias da Africa, principalmente da Africa oriental. A India póde fornecer-nos para as nossas missões excellentes missionarios, sob a direcção de padres europeus, a India póde até dar-nos muitos e bons colonos agricultores e artifices.
Por todas estas rasões, cada vez estou mais convencido da necessidade de dotar aquelle estado com todos os meios necessarios para poder desenvolver-se, e prestar-nos os valiosos serviços que d’elle se devem esperar. Eu não peço que voltemos ao antigo tempo dos vice-reis, mas o que desejo é que se criem os meios necessarios para que a India portugueza se desenvolva, prestando-nos os serviços e forne-