DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES NO REINO 433
po onde se acha é estreito e é esteril; tenha largueza de animo, como tem de espirito.
Deixando porem a Zambezia, que se está discutindo na outra casa do parlamento, sem que eu possa assistir, com magua o digo, e fallando só na Guiné, deixe-me dizer-lhe o digno par que não me parece muito justo quando aggride o governo, e principalmente o ministro da marinha e do ul-mar, porque elle não deu desde logo severas instrucções ás suas auctoridades em Cabo Verde, para instaurar processo contra quem s. exa. suppõe, com fundamento ou sem elle, ter sido a causa d’este desastre de Bolor.
Eu não emitto juizo aqui sobre o procedimento de ninguem.
Desde que a auctoridade superior de Cabo Verde mandou abrir syndicancia sobre as causas que tinham motivado o desastre, entendi que devia deixar bem desassombrada a acção do tribunal administrativo, judicial ou militar, sobre materia da sua competencia.
É verdade que o governo póde dar instrucções aos seus agentes sobre a instauração ou andamento dos convenientes termos dos processos; mas tendo havido tanta solicitude da parte do governo de Cabo Verde, não seria a minha recommendação excesso de zêlo ou manifestação de má vontade contra alguem de cujos actos se vae conhecer, e cujo procedimento se ha de julgar?
Parece-me que o governo fez bem em aguardar o resultado da syndicancia; e por isso declaro francamente que, não tendo eu mandado instaurar processo, me limitei apenas a fazer perguntas ao governador de Cabo Verde, sobre se havia ou não processo crime instaurado ou preparado.
Devo tambem dizer ao digno par, que s. exa. se engana completamente, se cuida que ha influencias particulares que me desviem do caminho direito, influencias de que nem sempre póde estar isento quem governa. Não ha nenhuma d’essas influencias, nem tenho relações com quem quer que seja (e peço ao digno par que tome nota d’isto), que possam influir no meu animo, ou no meu espirito, para deixar de fazer justiça seja a quem for, e em que circumstancias for.
Esta questão está entregue aos tribunaes; aguardemos a decisão d’elles para podermos fazer o nosso juizo e conhecermos quem tem culpa, quem merece castigo, e qual o castigo que essa culpa merece.
Justiça, moralidade e disciplina, é o que o digno par quer que se mande para a Guiné. Pois peco a s. exa., em nome d’esta mesma invocação, que vote o projecto do governo, porque eu entendo que com elle mando o que deseja o sr. conde do Casal Ribeiro.
Justiça, moralidade e disciplina, são a trindade em que o digno par baseou o seu discurso. Pois é isso mesmo o que eu desejo, e essa a trindade que eu adoro e diviniso no meu credo politico.
Sr. presidente, depois d’este projecto convertido em lei, o parlamento ha de ver as consequencias d’elle, podendo então o governo ser accusado ou louvado, conforme tiver merecido.
Antigamente era opinião dos nossos maiores que muito convinha á boa governação a propaganda ou a missão religiosa.
Vieram os modernos pensadores, alguns modernos pensadores, não todos, que não são nessa parte meus correligionarios, nem do digno par, e não o julgaram assim.
Eu penso ainda hoje que as missões sobre serem salutares, são talvez indispensaveis nos nossos dominios de alem mar. Creio mesmo, sr. presidente, que nós não podemos, nas circumstancias especiaes d’este paiz, prescindir de tão salutar elemento; se quizermos conservar digna e honradamente o nosso grande patrimonio e trabalhar para o seu engrandecimento.
Eu sou, como o digno par, dos que entendem que é necessario levar ás nossas colonias o ensino religioso; mas o que é necessario tambem é fazel-o acompanhar de elementos civis e militares.
É preciso. não destacarmos os differentes remedios uns dos outros; antes pelo contrario, unil-os, completal-os e achar a verdadeira força no seu conjuncto e na sua harmonia.
Eu sou dos que acreditam, voltando ainda ao elemento religioso, que por elle em grande parte, e n’este ponto respondo tambem ao sr. conde de Rio Maior, que não sei se está presente, obteremos o que muita vez a força nos não dará.
Referirei á camara um facto, que posso provar com um livro que tenho presente, e casualmente encontrei na India; livro que é um verdadeiro monumento de gloria para nós.
Os dignos pares sabem quão pouco tempo possuimos Ceylão.
Todos sabem que nos foi conquistado pelos hollandezes, e que depois tomaram d’elle posse os inglezes. Ha seculos já que perdemos este dominio, pois ainda hoje, quando um. portuguez ali desembarca, se a sua voz é ouvida por algum natural, responde-lhe este logo em um idioma que se quer assimilhar ao nosso, dizendo-lhe: «Nós tambem somos portuguezes».
Quando os inglezes quizeram derribar as muralhas de uma antiga fortaleza, que foi nossa, edificada nos bons tempos da poesia épica, a que alludiu tambem o sr. conde do Casal Ribeiro, com aquella proficiencia e a elegancia que lhe são proprias, aquelles povos presenciaram impassiveis a demolição; mas, ao chegarem ao portico que estava encimado pelas armas portuguezas, oppozeram-se, dizendo, que aquellas eram as suas armas.
Quando os missionarios inglezes quizeram implantar ali a sua lingua, e com ella as suas biblias, encontraram uma forte resistencia; e sabem v. exas. o que aconteceu? Sujeitaram-se a imprimir biblias no portuguez de Ceylão, e assim o têem feito em edições consecutivas, porque esta que tenho aqui é de 1833, o que prova que a resistencia tem sido tenaz e que os nossos missionarios souberam arraigar ali o amor do nosso nome.
Se eu tentasse ler á camara este livro, não o entenderiam, em muitas partes, os dignos pares, porque é escripto n’um portuguez mascavado, mas nem por isso deixa de ser um verdadeiro monumento das nossas glorias.
Por isso, sr. presidente, eu creio muito na efficacia das missões, e parece-me que nenhum governo, qualquer que elle seja, e venha donde vier, deve desprezar este elemento, que tão proveitoso póde ser.
Os missionarios no ultramar são não só um elemento de civilisação, como o disse o digno par, mas uns verdadeiros intermediarios, que obtêem e garantem a paz com muito mais efficacia, do que, muitas vezes, os grandes exercitos.
Sr. presidente, é bem certo que a maior parte das vezes se governa mais pela rasão do que pela força, e folguei de ver a justiça feita pelo digno par áquelle preto, que não era conselheiro, mas que era commendadpr, e bem merecidamente commendador.
Aos que nos pregoam por sempre barbaros contra os pretos, é bom dizer-lhes que já os temos feito governadores, titulares e commendadores; o que nem todos os philantropos sabem fazer.
Consinta-me ainda a camara que de passagem lhe diga, que a memoria d’esse homem tem merecido toda a attenção do ministro da marinha.
O sr. duque d’Avila consta-me que mandára já em tempo perguntar ali pela familia d’este benemerito, familia que vive pobre, porque elle gastou tudo quanto tinha com a nação portugueza.
Pois eu tambem já tive a honra de mandar saber qual o destino dos filhos d’este homem, para que o governo de Portugal possa dar-lhes o galardão devido á memoria de seu pae e de sua avó! Não esqueçamos a sua avó, uma santa e venerada preta, a sra. D. Rosa, que se arriscou muita