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Não o fez ainda ninguem; só o governo o podia fazer. Eis a rasão por que em certa occasião, fazendo allusões transparentes, conhecidas e claras á pessoa do digno par, appellei para aquelle homem de auctoridade, de força e energia, em cujas mãos eu queria ver a administração...

O sr. Eugenio de Almeida: — V. ex.ª permitte que eu lhe diga duas palavras? O Orador: — Pois não... O sr. Eugenio de Almeida: — Se ha cousa desagradavel para mim são as allusões da especie d'aquellas que o digno par esta fazendo. Sei bem que não é com essa intenção que o digno par as faz, porque conheço a delicadeza dos seus sentimentos, e tenho provas da sua amisade obsequiosa para commigo. Mas é tão prolongada essa allusão, que eu não posso conter algumas palavras que lhe servirão de resposta.

Eu tenho ouvido tantas profissões de falsa modestia, tão desmentidas depois, que tremo sempre pelo ridiculo que póde caír sobre uma profissão similhante, embora eu a faça com a convicção mais sincera. Vou pois faze-la, e pense cada um o que quizer.

Sou homem, e têem entrado em mim muitas paixões falsas e vãs; mas a vaidade de occupar aquellas cadeiras apontando para as cadeiras dos ministros), se vaidade póde haver em as occupar depois do que nós temos visto, nunca entrou no meu espirito; nunca entrou, nem ainda quando procuraram tentar-me para que ella entrasse. Ha bastantes testemunhas que souberam que eu resisti ás tentações, e duas d'ellas são collegas nossos e amigos particulares meus, o sr. marquez de Ficalho e o sr. conde de Peniche. Entre os muitos favores que devo a Deus é sem duvida um dos maiores o de conhecer as funcções para que sirvo, e aquellas para que sou improprio. Posso consagrar-me como humilde operario ao serviço do meu paiz; não tenho algumas das qualidades physicas e das qualidades moraes que são necessarias para funcções mais elevadas. Não faço falta nenhuma. Temos abundancia de candidatos a ministros, e emquanto são candidatos sómente não é possivel acha-los mais perfeitos.

O sr. Presidente: — Estas interrupções são muito contra rias á boa ordem da discussão, e eu não posso consentir n'ellas.

O sr. Visconde de Chancelleiros: — E verdade; mas tambem muitas vezes estas interrupções apressam a ordem do debate, e pela minha parte não posso deixar de folgar com as explicações que o digno par acaba de dar á camara. Mas apesar d'ellas, não deixarei de pugnar pela idéa espontanea e sincera que se traduz no desejo de ver s. ex.ª n'aquellas cadeiras (apontando para as dos srs. ministros).

Sr. presidente, o que eu digo, e o que tenho já dito n'outras occasiões, é que não é possivel nem se póde exigir do governo que faça reformas repentinas. E muito facil proclamar a necessidade de se fazerem economias; é porém muito difficil apresentar as condições em que ellas devem ser feitas; é muito possivel dizer theoricamente que ha necessidade de reformar de pelo a pelo, e da terra até ás nuvens, mas o que é difficil é fazer encarnar essas idéas de reforma na pessoa de qualquer ministro, com as condições de força e energia para as poder fazer (Interrupção do sr. Eugenio á Almeida, que se não ouviu.) Se o digno par, se a opposição me mostra no paiz esses intuitos, se este movimento de reacção que se nota, significa que se procura occorrer a essa necessidade, se assim se quer lavrar o terreno para lhe lançar depois esta semente, estou ao seu lado, não só com o meu concurso e apoio, mas com a minha dedicação e enthusiasmo. Se se quer crear no espirito publico a força precisa para servir de base a um governo forte e energico que possa fazer desassombradamente as reformas de que o paiz carece, se se quer formar uma opinião publica forte e illustrada, conhecedora dos seus interesses, zeladora d'elles; que possa dar força e firmeza a um governo reformador no interesse legitimo do paiz, eu associo-me a essa idéa, porque caminho tambem para o mesmo fim. Mas se ao contrario a agitação que se promove tem por unico fim um interesse partidario, pôr difficuldades e obstaculos á marcha do governo, para só se conseguir uma mudança de homens n'aquellas cadeiras, eu divirjo completamente d'esses intuitos, e opponho-me a elles. Nem comprehendo que pessoas que tiverem certa illustração possam acompanhar similhante movimento para obterem tão mesquinho resultado.

Ha grande agitação no paiz contra as propostas do governo. Fazem-se representações contra ellas, com grande numero de assignaturas. Mais representações, e com maior numero de assignaturas vieram ao parlamento contra a medida do ensino, por occasião da questão das irmãs de caridade, e ninguem disse que o paiz estava sobresaltado. Pois a febre de representar era então muito maior. Todos sabem o que significam estas representações com grande numero de assignaturas, e como ellas se podem obter; todos sabem tambem que muitas vezes não representam a verdadeira opinião do paiz.

O Sr. presidente, eu fui solicitado por uma camara municipal do districto de Lisboa para que lhe dissesse se devia tambem representar contra as medidas do governo, mas louvando-se na minha opinião, como mais conhecedor das circumstancias em que se achava a nossa politica, e pediu-me informações e conselho. Eu expuz a questão em termos taes, que a camara de que fallo não representou. Appellei para a minha consciencia, e disse o que entendia ser conforme com ella. Hoje, com perto de dez annos de vida publica, não tenho outros desejos senão ver seguir o caminho da ordem e da legalidade, e manter os principios de um bom governo; quero o governo mantido e apoiado. Reconheço a abstenção de certos homens que podem fazer serviços ao paiz e não os fazem, não porque lhes faltem as condições moraes ou physicas, mas porque j

não querem. A rasão é que têem a consciencia de que o paiz lhes não agradece os sacrificios que por elle façam.

Sr. presidente, eu não tenho vocação para ser ministro, nem nunca essa idéa me passou pelo espirito. Se me passasse, e sentisse aquelle famoso estoiro que o padre Antonio Viera sentiu na cabeça, e lhe deu um talento tão brilhante, que o tornou tão fecundo orador, o mais fecundo orador sagrado do nosso pulpito; se a luz da divina graça me illuminasse agora, se me sentisse com todas as condições de poder ser ministro, e me offerecessem se-lo ámanhã, declaro a V. ex.ª, debaixo da minha palavra de honra, que não aceitava uma tal missão nas condições em que vejo este governo e todos os que o precederam; e emquanto o espirito publico não se reformar...(O sr. Eugenio de Almeida: — Essa é que é a questão.) E a questão, mas o espirito publico não se reforma com a propaganda que o digno par esta promovendo.

(Interrupção do sr. Eugenio de Almeida, que se não ouviu.)

Banca rota!! O que eu vejo é a reacção contra o augmento dos impostos, augmento que é uma necessidade, que não entendo como se possa desconhecer.

Vou fazer ponto a estas minhas observações, pois a hora esta adiantada e a camara fatigada.

Sr. presidente, o que é verdade é que não ha senão um meio de remediar estes males, e é que os homens sinceros e de illustração auxiliem todos os governos, que se apresentarem com intuitos generosos, fallando verdade ao paiz, que é o que se não tem feito até aqui.

(O orador não reviu o seu discurso.)

O sr. Presidente: — Creio que a camara quererá que esta discussão continue na proxima sessão (apoiados), mas como os srs. ministros não podem comparecer ámanhã na camara, só poderá haver sessão na proxima sexta feira.

A ordem do dia será pois a continuação da interpellação do sr. visconde de Fonte Arcada, e mais o parecer n.° 151, que tambem estava dado para a segunda parte da ordem do dia, e o parecer n.° 155 sobre o projecto n.° 149.

O sr. Marquez de Niza: — Continua a discussão sobre a interpellação?

O sr. Presidente: — Julgo que a camara assim o entendeu, e mesmo como ha ainda muitos dignos pares com a palavra, e são os seguintes (leu), parece me que esta discussão não póde deixar de continuar (apoiados).

Está levantada a sessão.

Eram cinco horas e meia da tarde.

Relação dos dignos pares que estiveram presentes na sessão de 1 maio de 1867

Os ex.mos srs.: Condes, de Lavradio e de Castro; Marquezes, de Niza, do Pombal, de Sá da Bandeira e de Vallada; Condes, de Alva, de Cavalleiros, de Campanhã, de Farrobo, de Fonte Nova, de Fornos, de Peniche, da Ponte, do Sobral e de Thomar; Viscondes, de Benagazil, de Chancelleiros, de Fonte Arcada, de Gouveia, de Monforte, de Seabra e de Soares Franco; Moraes Carvalho, D. Antonio José de Mello, Costa Lobo, Rebello de Carvalho, Pereira de Magalhães, Silva Ferrão, Braamcamp, Silva Cabral, Pinto Basto, Reis e Vasconcellos, Lourenço da Luz, Eugenio de Almeida, Casal Ribeiro, Rebello da Silva, Fonseca Magalhães, Preto Geraldes, Canto e Castro, Menezes Pita, Fernandes Thomás e Ferrer.