42 DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO
hemencia e a commoção, mas eu não posso, não sei, não quero dizer o que sinto (apoiados. - Vozes: - Muito bem.)
(Pausa.)
(O orador descança por um instante, e acto continuo responde ao sr. Vaz Preto, que entretanto se lhe dirigia, sem que todavia nos logares dos tachygraphos se podesse perceber o que dizia.)
V. exa. tem os meemos direitos, ha de usar da palavra, pois bem tratará de expor factos segundo a sua ordem de idéas, e se eu tornar a fallar responderei a v. exa.
O campo está aberto para todos nós, na certeza de que o paiz não quer senão a verdade.
Sr. presidente, ligando o fio das minhas idéas, e seguindo a ordem genealogica porque os factos se deram, direi a V exa. que a insistencia por parte do illustre presidente do conselho não logrou modificar a minha resolução, senti, porém, e bastante que em seguida ás considerações que s. exa. apresentou, e que já tive a honra de expor á camara, s. exa. fizesse referencia a uma opinião, que s. exa. disse não ser sua, mas que declarou poder ser opinião de alguem.
"Sabe v. exa., exclamou o illustre ministro, o que alguem poderá dizer? E que quem lhe insinuou o telegramma, o fez com o intuito de proteger os candidatos da opposição."
A esta asserção respondi, dizendo ao meu official de gabinete, o sr. Mouta e Vasconcellos, que chamasse á minha presença com os documentos que se referiam á questão o sr. director geral. S. exa. entrou no gabinete do sr. presidente do conselho pouco tempo depois, e na sua presença declarei ao sr. presidente do conselho, que eu não pedia conselho nem opinião aos empregados superiores do meu ministerio, senão quando entendia carecer d'elle para resolver conscienciosa e illustradamente os negocios sujeitos á minha resolução; que, porém, n'esta questão eu não tinha perguntado a opinião de s. exa., que aliás m'a daria sempre, inspirando-se da consciencia do seu dever.
O telegramma e o officio ao director interino das obras publicas do districto de Castello Branco, haviam sido expedidos em cumprimento das minhas ordens clara e expressamente definidas, logo que me foi dado conhecimento da carta d'aquelle funcionario.
Isto mesmo confirmou o sr. director geral, e logo em seguida lhe dei para expedir o telegramma, que eu havia escripto, e de que a camara tem já conhecimento, declarando ao mesmo tempo que o expedisse, e que a responsabilidade da resolução não era minha, porque eu havia deixado de me considerar ministro. A isto redarguio o sr. director geral, que á falta de despacho e havendo eu declarado que não era já ministro, que nota devia lançar no processo, e o sr. presidente do conselho replicou: ponha como resolução do conselho de ministros.
Por consequencia, sr. presidente, expedi o telegramma, mas a responsabilidade da resolução que por esse telegramma se communicou como contra ordem ao director interino das obras publicas do districto de Castello Branco, não era minha desde o momento em que eu para a não tomar sobre mim havia declarado não continuar a ser ministro.
Que importa que escrevesse o telegramma? Era como ministro de expediente, e como tal me considerava até ser substituido, era obrigado a transmittir sempre todas e quaesquer resoluções do conselho de ministros! (Apoiados.)
Mas se a responsabilidade do telegramma fosse minha, se me coubesse uma parte qualquer na responsabilidade do facto contra o qual protestei; para o qual não concorri e de cuja responsabilidade por consequencia não podia ser participe, que rasão justificava a minha saída do ministerio?
É exactamente sob a influencia poderosa d'esta consideração que eu insisto, que tenho insistido e que quero continuar a insistir sobre este ponto. Pois eu quero porventura que alguem supponha, posso consentir e tolerar que alguem imagine que tomei sobre mim o encargo do governo como uma creança póde tomar um brinco dos jogos infantis, despedaçado entre as mãos sob o impulso do menor despeito, do menor amuo, do mais pueril capricho? Eu que para não crear difficuldades á situação politica a que me havia associado, dominei em mais de uma occasião o impulso da minha susceptibilidade ferida pela grave dessidencia de opinião em mais de uma questão importante!
Sr. presidente, insisti e não podia deixar de insistir pela minha demissão. Communiquei a inabalavel resolução em que estava, aos meus collegas que n'essa noite se reuniram em conselho de ministros, e não cedi nem mesmo perante a consideração apresentada pelo sr. presidente do conselho, declarando em vista de um telegramma do sr. visconde de Morão que o meu telegramma do dia 5 não havia sido cumprido, e que as obras na estrada da Covilhã continuavam a despeito da ordem expressa em contrario expedida por mira quando ministro. A isto respondi que se ainda me considerasse tal, mandaria metter em processo o dito visconde.
Sr. presidente, as festas da Covilhã podiam ser luzidas e patrioticas; podia ser pequena, insignificante mesmo a somma despendida com os trabalhos na estrada, creio até que o panem et circenses custava mais caro; como ministro, porém, não subordino a minha resolução nem ao jubilo dos enthusiasmos patrioticos, nem á consideração de que uma despeza por pequena, mas illegal, se deva auctorisar (leu).
Concluo, sr. presidente, entregando á consideração da camara e ao juizo do paiz o meu proceder como homem publico. Creio ter cumprido com o dever que me impunha a dignidade do poder que representava, o respeito pela minha propria dignidade e pelas tradições do nome que represento n'esta casa (apoiados. - Vozes-: - Muito bem, muito bem.)
O sr. Presidente dó Conselho de Ministros: - Sr. presidente, como a camara acaba de ver, o discurso do digno par revela uma cousa, que eu declaro formalmente que ignorava, e que segundo deprehendi, produziu profunda desgosto em s. exa., e foi que a commissão que veiu da Covilhã não o tivesse procurado. Foi esta de certo a circumstancia que mais contribuiu para que s. exa. fallasse no tom que a camara acaba de ouvir.
O sr. Visconde de Chancelleiros: - Não me importa nada com isso.
O Orador: - Importou tanto, que o revelou bem patentemente no seu discurso mostrando o ressentimento de que estava possuido por a commissão me ter procurado em vez de ter tratado directamente com o ministro das obras publicas. Se eu tal tivesse previsto, declaro que teria prevenido a commissão, de que s. exa. desejava tratar com ella.
A commissão procurou me, é verdade; foi-me apresentada pelo sr. Vaz Preto, mas devo declarar e insisto n'este ponto, que não me disse uma unica palavra sobre politica ou eleições.
O digno par não reparou de certo, que o seu discurso era a propria refutação do que estava dizendo, o que não admira attendendo ao estado de agitação em que todos acabâmos de o ver, estado de agitação, que decerto lhe fez tambem omittir algumas circunstancias, as quaes não lhe teriam deixado de occorrer, se s. exa. estivesse a sangue frio. S. exa. disse: "E verdade que escrevi o telegramma, mas depois de ter declarado que já não era ministro D. Isto não é assim, nem podia ser, por que é absurdo.
O sr. Visconde de Chancelleiros: - Foi exactamente assim, mas v. exa. póde dizer o que quizer.
O Orador: - Perdoe v. exa., mas não foi, nem podia ser, e appello para o bom senso da camara a fim de julgar-se era possivel, que o digno par se tivesse dirigido ao presidente do conselho para lhe declarar que já não era ministro, e depois d'isto escreve com a sua propria mão um telegramma dando uma ordem? Pois se não era ministro, e se não considerava como tal, podia porventura expedir um telegramma dando uma ordem?
Vozes: - Como expediente.
O Orado: - Não havia o secretario do gabinete quando