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DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO 681

homens promptos em parada, se poderia dispensar parte da força das situações temporarias na occasião em que começassem as manobras no acampamento de Tancos.

Toda a força que está em destacamentos e em diligencias está nas situações temporarias.

O serviço das diligencias é um serviço accidental e não permanente, e por isso a força que hoje está impedida póde estar ámanhã desembaraçada.

Emquanto aos destacamentos, direi que muitos são desnecessarios, como, por exemplo, todos aquelles que são mandados para os locaes onde existem outros corpos.

O destacamento que está em Castello Branco, o que está em Vizeu, o que está em Evora, e muitos outros, eram dispensaveis, e se os não quizessem dispensar sempre, pelo menos era dispensaveis na occasião das manobras.

Sr. presidente, o sr. Fontes conhece bem as cousas, e sabe com certeza que os 18:000 homens são o sufficiente na actualidade.

Não póde duvidar de que o mappa lhe dá forças bastantes e disponiveis para os exercicios e manobras, e, não obstante, não quer acceitar a minha proposta, e insiste na força de 23:000 homens.

Porque será isto, que fim occulto haverá aqui?

Sem duvida, alguma rasão imperiosa, que a camara não conhece, deverá existir.

Parece-me que vou direito ao alvo, parece-me ter descoberto essa rasão mysteriosa que determina a pertinacia do sr. Fontes.

Sr. presidente, como v. exa. muito bem sabe, o parlamento acabou com as remissões a dinheiro, fonte importante de receita de que o sr. Fontes tirava recursos prestantissimos para occorrer ás despezas illegaes.

Já não existe, e era necessario substituir esta fonte por uma outra não menos productiva. O que fez, pois, o sr. Fontes? Pediu em logar de 18:000 homens 23:000, e manda licenciar uma parte d'esta força para gastar n'outras despezas o que fóra votado no orçamento para aquelle fim.

Aqui tem a camara a rasão porque o sr. Fontes não traz o relatorio que a lei exige que acompanhe este projecto.

O relatorio não vem, porque o sr. Fontes não nos quer dizer quantos mil homens estiveram em armas durante todo o anno; porque o sr. Fontes não nos quer dizer, quantos morreram, quantos estiveram licenciados, e sobretudo o que fez d'essas importantes verbas que não se gastaram, e que reverteram em beneficio do thesouro.

Aqui tem a camara qual o verdadeiro motivo, qual a rasão mysteriosa que determinou a pertinacia do sr. Fontes em sustentar o projecto tal qual está.

Sr. presidente, as rasões por que se pretende que no orçamento se vote a verba para 23:000 homens, são estas. Creia-o a camara, e veja na sua consciencia, que o sr. ministro da guerra não apresentou uma unica rasão que colhesse, que fosse seria e grave, e que para se justificar diz apenas, que quando as camaras votavam meios para pagar a 15:000 homens, havia sempre praças a mais nas fileiras e se gastava mais da verba votada pelo parlamento, e que isto succederia sempre, porque não chegava aquelle numero de praças para occorrer ás necessidades do serviço.

Isto quer dizer que os ministros da guerra não cumprem as resoluções do parlamento, isto significa, que elles não têem respeito pelo systema representativo e pelos corpos que fazem as leis; isto quer dizer, que sem escrupulo, nem consideração o poder executivo por arbitrio proprio se substitue ao poder legislativo.

Sr. presidente, esta audacia do sr. ministro da guerra de declarar diante do parlamento que, embora elle vote 18:000 homens, ha de gastar mais do que a verba votada, exprime bem o que é o systema representativo entre nós.

Isto, por certo, não ousaria o sr. Fontes pronunciar diante de um parlamento, cujas maiorias não tivessem sido preparadas por s. exa.

Se o sr. Fontes tivesse a convicção de que o systema representativo entre nós não era uma ficção, mas uma realidade; se estivesse convencido de que o governo do paiz devia ser e era feito pelo paiz elegendo livre e independentemente os seus representantes; se, finalmente, estivesse convencido que lhe tornariam effectiva a responsabilidade de qualquer infracção da lei que praticasse, e que o parlamento lhe tomaria escupulosas contas dos seus actos, o sr. Fontes não se atreveria a elevar a força alem da legalmente votada; não se atreveria a pagar-lhe, e muito menos a vir dizer ao parlamento que não tinha feito caso da sua resolução.

O que eu vejo, por esta declaração do sr. presidente do conselho de ministros, e o que eu reconheço agora é que em 1872, quando o sr. Fontes sustentava tão boas doutrinas, nos estava illudindo, que estava dizendo uma cousa e sentia outra no seu coração, que nos estava affirmando aquillo que tinha intenção de não fazer, como os seus actos posteriores vieram demonstrar.

Sr. presidente, se querem exercito disciplinado e instruido, organisem primeiro as finanças; sem isso nunca o conseguirão.

A administração dos governos regeneradores, presididos pelo sr. Fontes, é a negação da disciplina no exercito, e da organisação das finanças.

A melhor organisação militar não poderá existir quando não haja boa administração no paiz.

Isto é intuitivo; mas não obstante quero escudar-me n'esta opinião com os factos historicos, com a auctoridade de grandes homens de estado.

O sr. Thiers, que prestou tão relevantes serviços á França, e que entendia das cousas militares, como se fosse militar, dizia que o primeiro elemento militar de um paiz era o equilibrio da sua receita com a sua despeza.

Elle não dizia só isto, traduzia-o em factos, mostrava por obras que as suas palavras eram filhas de profundas convicções.

Depois dos grandes revezes por que passou a França, levantada do abatimento, pagava a enorme contribuição de guerra, e evitava que o solo francez fosse pisado pelo vencedor orgulhoso, e conseguia tudo isto pela sua sabia, economica e sensata administração.

Sr. presidente, não era só o sr. Thiers que proclamava e praticava esta doutrina, eram todos os homens eminentes da França que o acompanhavam e seguiam n!este caminho, collocando assim a França de novo n'uma posição elevada diante da Europa e da sua rival.

Esta doutrina é que engrandeceu a Prussia, e que fez da Prussia de hontem a Allemanha de hoje.

Esta doutrina tem sido seguida de ha longos annos na Prussia por todos os seus homens de estado; Frederico, o grande da Prussia, compenetrado d'esta doutrina, applicando-a á administração e ao systema financeiro, elle, o rei de um povo cujo territorio era de pouco mais de 2.000:000 habitantes, teve de combater durante sete annos contra a Europa inteira, e depois de ter sustentado uma lucta collossal e gigantesca, morria deixando os seus estados augmentados no dobro, as suas finanças organisadas, porque nem a guerra havia podido desorganisal-as, e os cofres transbordando de oiro.

Mais tarde o general Charnorst, que estabeleceu o serviço obrigatorio na Prussia, depois da batalha de Jena, para a salvar, e eximir das humilhações por que estava passando, compenetrou-se d'esta miraculosa doutrina; e não obstante, nada poderia fazer senão tivesse a seu lado o sr. Stein, que era ministro da fazenda de então, que punha em pratica e em execução estes bons principios.

Lembrarei ainda n'esta occasião um dito memoravel de um general francez; refiro-me ao general Turenne. Perguntado a este general o que era necessario para fazer a