682 DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO
guerra, respondeu que tres cousas - dinheiro, dinheiro e dinheiro.
Esta resposta, tanto expressiva como profunda, quer dizer que os governos, para obterem dinheiro sem sacrificar o paiz, precisam ter economia, bom senso, administração rigorosa e organisação da fazenda publica.
Sem estas condições, sr. presidente, sem estas idéas postas em pratica, sem estes principios realisados, jámais poderemos ter exercito disciplinado e instruido.
Sr. presidente, o melhor de todos os exercitos é um bom governo. Se nós o tivessemos, escusavamos de fazer despezas enormes com as fortificações, com as praças de guerra e com o exercito; mas, se as quizessemos fazer, fal-as-íamos sem penosos sacrificios para a nação.
Eu desejaria bem, e o paiz lucraria bastante, se o sr. Fontes se compenetrasse uma vez da necessidade de governar economicamente, e de que é dever da todo o homem publico administrar os haveres da sociedade com rigoroso escrupulo. O sr. Fontes lançou-se já n'um caminho de que difficilmente poderá retrogradar, porque perdeu a rigidez e austeridade de outros tempos.
Houve tempo em que eu admirei muito o sr. ministro da guerra. Era quando elle governava com as suas idéas, com os seus principios e com as suas convicções; era quando essas convicções profundas ennobreciam o seu caracter pela orgulhosa tenacidade com que as defendia; era quando se me afigurava o sr. Fontes um d'estes homens de antes quebrar que torcer, firme nas suas opiniões e admiravel pela coragem com que arrostava a impopularidade quando tratava de cumprir o seu dever. O sr. Fontes de então, a quem eu prestava homenagem pelo seu caracter, offuscado pelo poder e seduzido pelos seus attractivos, esqueceu-se da sua missão; e levado pela tendencia fatal para as prodigalidades, lançou-se n'um caminho fatal e errado. O paiz indignou-se, e a sua queda foi a consequencia. Então a idéa de reformas e economias elevou ao poder o sr. bispo de Vizeu, que, apesar dos bons desejos, nada obteve. Parece que o sr. Fontes deveria ter aprendido com a experiencia, com a observação e com a desgraça. Mais tarde, depois de alguns annos, quando voltou ao poder, quiz seguir o systema de governar com a opinião publica; era então que publicava os sensatos relatorios de 1872 e de 1874, e que pronunciava os judiciosos discursos de 1872, dos quaes a camara conhece já alguns trechos ultimamente aqui citados.
Pouco durou aquelle proposito: seduzido outra vez pelo brilho do poder, e impellido pela sua inclinação fatal, lançou-se no caminho dos desperdicios, mas agora peior do que nunca, porque em troca da conservação do poder sacrificou idéas, convicções e principios.
Grandes devem ser os prazeres nas altas regiões do poder, para que um homem nas condições do sr. Fontes se veja vergado n'aquellas cadeiras sob o peso de todas as humilhações, de todas as censuras, de todas as contradicções que lhe lancem em rosto, sem que ouse levantar a sua voz indignada para as afastar de si, para as repellir e para desafrontar a sua dignidade offendida.
Sr. presidente, o silencio, que é mais uma humilhação no systema parlamentar, agora é a pressão da consciencia que se angustia.
Sr. presidente, a situação do paiz é triste e assustadora como a descrevi, e a administração mestra do sr. Fontes é que tem conduzido Portugal á borda do abysmo. Espero, comtudo, que não clamarei no deserto; que o acordar do Leão será terrivel; e que o povo, um dia, conhecendo a sua força e os seus direitos, fará justiça por suas mãos, libertando-se dos especuladores que o têem explorado em proveito proprio e dos seus.
O sr. Marquez de Sabugosa: - Sr. presidente, não tencionava tornar a pedir a palavra n'esta discussão, principalmente sobre a generalidade do projecto, porque não queria de maneira alguma abusar da paciencia da camara.
Para lavrar um protesto a respeito da illegalidade, que julgo existir com relação á conservação da reserva no serviço do exercito, já tenho dito bastante.
Não podia, comtudo, deixar sem resposta algumas asserções que ouvi ao digno par o sr. Camara Leme, asserções que ouvi ou pareceu-me ouvir, e sinceramente desejo ter-me enganado.
Dirigindo-me ao sr. camara Leme, desejava antes ter de o fazer n'aquelles termos que mais naturaes eram a quem é parente, antigo amigo e admirador das suas qualidades, e como fiz na sessão passada quando citei o seu interessante livro.
Não posso, comtudo, deixar de responder devidamente ao que s. exa. aqui disse, e devo fazel-o, senão com severidade, comtudo como a dignidade propria e partidaria o exigem.
E o caso de dizer: Amicus Plato sed magis amica veritas.
Pareceu-me ouvir dizer a s. exa., que os ministros da guerra do partido progressista tinham feito as reformas ou organisações do exercito no intuito de beneficiarem as armas a que pertenciam. Não sei se foi isto o que s. exa. disse, mas o seu silencio parece confirmal-o.
(Áparte ao sr. Camara Leme,}
S. exa. não affirmou, disse que lhe parecia!
Isso indica, perdoe-me o digno par que lhe diga, que as suas palavras não foram devidamente meditadas. Perdoe-me s. exa. que lhe diga isto, porque não se accusam homens como o sr. marquez de Sá da Bandeira, como o general Passes, como o general Luiz Maldonado, sem se provar a accusação que se lhes dirige.
Todos estes generaes, como homens publicos, podem ter errado; os seus actos estão sujeites á critica, mas essa critica não se exercita dizendo que s. exas. favoreceram as armas a que pertenciam.
A critica faz-se apresentando os erros de quem se pretende accusar, mas não levantando duvidas ácerca cãs suas intenções. As palavras, pois, do digno par, ou não exprimiram o seu pensamento ou não foram devidamente meditadas.
Não é necessario defender aqui a memoria do sr. marquez de Sá; a sua memoria todos aqui a respeitam, é venerada por toda a camara; e mesmo o sr. Canara Leme affirmou no seu discurso o respeito que tinha por aquelle nobre caracter (O sr. Camara Leme: - Apoiado.), e quanto acreditava nas suas rectas intenções.
O sr. Passos e o sr. Maldonado são tambem dignos da nossa consideração. (Apoiados,} E a estes dois generaes, um que já não existe, e outro que grave doença tem atormentado, e que não tem logar n'esta casa, não se podem fazer: aqui accusações sem as necessarias provas, e muito menos attribuir intenções que não sejam as do verdadeiro zêlo pelo serviço publico.
Sr. presidente, todos aquelles cavalheiros quando fizeram importantes reformas no exercito já eram generaes, não lhes aproveitava, pois, qualquer beneficio para a sua arma, mas seria pela rivalidade entre as differentes armas? Essa póde dar-se mais nos criticos do que nos homens na posição d'aquelles tres generaes. Conveniencia partidaria ha de ser difficil provar que a podesse haver.
Não é necessario ter grandes conhecimentos militares, para se entender, pelo relatorio do nobre marquez de Sá da Bandeira, de 1868, a rasão que elle teve para fazer as reformas que emprehendia; ali explica os motivos de conveniencia publica que o levaram a diminuir o quadro do estado maior e augmentar o da engenheria.
Tenho aqui esse relatorio, e não procurei mais documentos para defeza dos actos dos ministres accusados, porque a accusação era vaga, vinha desacompanhada de provas, e não me obrigava, pois, a contra-provar.
Fal-o-ía, comtudo, se fosse necessario, com muito trabalho de certo para mim, leigo n'estes assumptos, mas estou