554 DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO
caminhos de ferro, tem-se feito tudo quanto tende a desenvolver os interesses da cidade do Porto. (Apoiados.)
Será todavia justo auctorisar melhoramentos era que se vão gastar quantias enormes, quando se não sabe ainda se elles serão proficuos?
Vamos aggravar mais ainda as nossas finanças, e no ponto a que e lias chegaram, temos nós obrigação de ser nimiamente cautelosos. (Apoiados.)
Esta situação financeira não póde continuar.
Sr. presidente, sobre o projecto, que está em discussão, pesam fatalmente opiniões de illustres engenheiros; não se julgue que a opinião favoravel a estas obras, mesmo entre os homens da especialidade, é geral. O proprio sr. Cood, que, alem de ser engenheiro distinctissimo, sabe escrever perfeitamente, teve todo o cuidado, sem deixar de satisfazer a todos os pontos sobre que a sua opinião era exigida, em resalvar a sua responsabilidade. Não se comprometteu, não é terminante, como se quer dizer, a sua opinião. O sr. Cood diz-nos no seu parecer:
«Na minha opinião a questão de que se trata é — se o melhoramento das accommodações do commercio maritimo do Porto (que todos reconhecem ser tão necessario) deve ser realisado pela construcção de um porto commercial, junto da entrada do Douro ou na vizinhança de Leixões.
E mais adiante acrescenta: «tendo eu mesmo chegado á conclusão de que nos interesses do Porto, Leixões é decididamente o melhor sitio, que póde ser escolhido na localidade proxima».
Este documento foi escripto em inglez, e a publicação no Diario do governo foi feita em portuguez; póde por isso não ser uma traducção fiel. Parece todavia que o sentido genuino das palavras do illustre engenheiro, a expressão exacta do seu pensamento, é que a questão lhe foi submettida por forma que elle teve de dar a sua opinião debaixo de um ponto de vista restricto.
Vejam pois os dignos pares que elle teve todo o cuidado em não se manifestar senão sobre o que lhe perguntavam; e assim devia ser; desde criança nos ensinaram que pelo caso que se faz a pergunta, peio mesmo se dá a resposta.
A pergunta feita a Cood foi limitada, limitadissima, e elle respondeu como devia.
O sr. visconde de Moreira de Rey, cujas orações teem sempre o cunho de uma graça especial, disse-nos hontem com muito espirito, que não eram uns nescios, esses com quem tinha conversado, e que todos se mostravam contrarios a estas obras.
O sr. visconde de Moreira de Rey disse tambem que estava admirado da rapidez com que o sr. Cood deu o seu parecer.
Tem s. exa. rasão; lembra-se o que succedeu com a companhia das aguas e o celebre abbade Richard.
Veiu este homem distincto, andou a correr um dia a cidade e suburbios, e quando chegou ao alto de Campolide olhou para aquella região, e disse:
«lei il y a de l’eau.»
Creio que disse o mesmo em outros pontos, e foi-se rapidamente embora: ganhou o seu dinheiro!
Francamente, este parecer, dado em breve tempo, é o resumo, em muitos pontos, de outros relatorios feitos por engenheiros portuguezes; prova que o engenheiro inglez satisfez ao seu compromisso de dar parecer; deu esse parecer, é exacto, mas não tão positivo como se quer fazer suppor.
Eu peço desculpa á camara; mas isto é uma questão importante, e não posso resumir-me; tenho de ler o que disse o sr. Cood em outros pontos do seu parecer.
É significativo o que elle escreve:
Agitação do mar aã barra
«Em consequencia da agitação do oceano (ocean swell) que reina tão frequentemente nesta parte da costa durante todo o anno, e que nos seis mezes de inverno de facto é constante, as arrebentações do mar (breakers) na barra do Douro são (como é bem sabido) tão fortes, que frequentemente cansam consideraveis interrupções na entrada e saída dos navios. Nas instrucções dadas pelo almirantado britannico, para servirem de guia aos maritimos, declara-se que desde novembro até maio a barra raras vezes está livre de rolos de mar (rollers), e que quando as vagas de oeste (Westerly Ocean stcell} se encontram com as correntes das cheias do Douro estes rolos se tornam terriveis.
Frequentes interrupções no accesso do porto
«Nos registos que, para satisfazer a minha requisição, me forneceu o sr. Nogueira Soares, acho que tomando os cinco annos terminados em dezembro ultimo, o porto foi inaccessivel a navios durante o numero de dias e pelos motivos designados na seguinte tabella:
Durante o anno Em consequencia da violencia das correntes do rio sómente – Numero de dias Em consequencia das correntes do rio ou da agitação do mar – Numero de dias
[ver valores da tabela na imagem]
O sr. Cood diz mais:
«A fim de chegar a um conhecimento exacto dos factos pelo que respeita ao predominio relativo e força dos ventos dentro do quadrante entre o oeste e norte, comparados com os dentro do quadrante entre oeste e sul (e são estes os dois quadrantes a que esta parte da costa está exposta), obtive copias das observações meteorológicas registadas no observatorio da escola medico-cirurgica do Porto, e dellas extrahi os resultados diarios colhidos nos dez annos decorridos desde 1867 a 1876, inclusive, os quaes são muito instructivos.»
E mais adiante acrescenta:
«Assim parece, que emquanto com ventos brandos (light breeze) a frequencia é a mesma, praticamente fallando, de qualquer dos ditos quadrantes que sopre o vento, os ventos frescos (fresh breezes), a saber, os que teem uma velocidade media de 240 kilometros em vinte e quatro horas, dentro do quadrante do sul são tres vezes, e os fortes ventos sete vezes os do quadrante do norte.
«Os ventos rijos ordinarios (ordinary gales) no quadrante do sul são para os do norte na proporção de dezenove para um, ao passo que os mais fortes ventos, registados no periodo de dez annos acima referido, foram oito do quadrante do sul, e nem um de correspondente violencia do quadrante entre o norte e oeste. É, portanto, sobejamente evidente, em vistas dos registos, que os mais fortes ventos, e mais especialmente os que deviam dar ás vagas, quando quebram nas praias, uma inclinação sufficiente para determinar a marcha da areia ao longo da costa, de facto sopram muito mais frequentemente e com muito maior força do quadrante entre oeste e sul do que do quadrante entre oeste e norte.»
Sr. presidente, o sr. Espregueira tinha indicado umas certas obras para o quebramar do norte, indispensaveis para resistir á força dos ventos, e sobre isto diz o sr. Cood:
«Algumas partes dos quebramares, acima descriptos, approximam-se muito dos projectados pelo sr. Manuel Affonso de Espregueira; comtudo, eu não proponho abertura alguma no quebramar do norte, como este engenheiro indicava, e a largura da entrada entre os quebramares do norte e ao sul, segundo o meu projecto, é consideravelmente inferior á que elle propunha. Considero estas duas altera-