DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO 551
coes muito importantes, visto que ellas muito consideravelmente attenuam a força da agitação dentro do porto durante as tempestades.»
E depois apresenta a seguinte affirmação, extremamente significativa:
«A mais conveniente disposição» e largura da entrada são questões importantes; a entrada que eu proponho daria facil accesso ao porto a navios de vela, durante os ventos de todos os quadrantes, sem permittir dentro d’elle qualquer agitação inconveniente (undue run) que prejudique a ancoragem. A largura exacta é um ponto que sómente a experiencia pôde, finalmente, decidir a observação durante a construcção das partes exteriores dos quebrantares indicará se elles devem ser ligeiramente avançados ou recuados em relação aos pontos determinados na planta, a fim de se augmentar ou diminuir a largura; comtudo, tenho forte convicção (I am strougly of opinion) de que a largura de 180 metros será a melhor que se póde adoptar.»
Ora aqui está em relação ao grande remedio, que se quer dar ao effeito dos ventos, p que ali se diz: que só a experiencia mais tarde o póde decidir!
Sangrou-se em saude, como se costuma dizer. Aqui tem v. exa. o que é o parecer do sr. Cood, e portanto não me parece tão insignificante, como se quer fazer ver.
Mas temos muito mais do que este parecer.
Na camara dos senhores deputados um ornamento della citou um outro parecer, que é conveniente .trazer á lembrança desta alta assembléa. Ali leu o sr. Dias Ferreira:
«Os dois engenheiros, Silverio Augusto Pereira da Silva e Adolpho Pereira Loureiro, no seu relatorio de 13 de março de 1880, dizem o seguinte:
«Tem elle f o local de Leixões) a seu favor o voto unanime e auctorisado de engenheiros nacionaes e estrangeiros, que igualmente o têem considerado preferivel para o fim que se pretende.
«Mas não adquiriu a commissão a plena confiança de que, ali creado (o porto -artificial), não venha a soffrer pelas causas que mais costumam prejudicar estabelecimentos maritimos d’esta natureza, assim na execução das obras, como na conservação do mesmo porto, em um futuro mais ou menos remoto, nem tão pouco ella se atreve a decidir se a importancia do desenvolvimento provavel do commercio do norte do paiz compensará os enormes sacrificios que a realisação desta grande obra ha de demandar.»
Ora, quando dois engenheiros distinctos, que são homens praticos, que conhecem perfeitamente aquella costa, porque um serve ha muito nas obras da barra da Figueira e outro nas da barra de Aveiro; quando estes dois homens, que não teem só o saber philosophico, que anima muita gente, mas teem o saber da experiencia; vem affirmar o que eu acabo de ler á camara, entendo que os poderes publicos teem necessidade de pensar e estudar antes de tomar um parecer definitivo este respeito.
Peço a attenção da camara.
Nós estamos aqui a discutir um projecto que traz um enorme augmento de despeza para o thesouro, e que de antemão sabemos que ha de ser votado pela maioria.
Peço, portanto, á camara que reflicta muito.
O ministerio está resolvido a fazer questão de honra d’este projecto; é sempre a honra do gabinete que está em campo; a primeira questão, a questão capital, embora a verdade se veja claramente como a luz do dia.
Requeiro a attenção do sr. presidente do conselho para o parecer dos dois illustres engenheiros.
S. exa. tem a responsabilidade politica do gabinete, e tambem está á frente dos negocios, da fazenda.
Rogo a s. exa. que me faça a distincta honra de me escutar um momento; ouça s. exa. o que dizem estes dois homens competentissimos.
O estado da fazenda publica é gravissimo, repito, e torno a repetir! Não posso deixar de combater com todas as minhas forças este governo que só sabe gastar, e que nos traz um projecto que vae augmentar enormemente a nossa divida publica.
Fallo com este calor, porque sou essencialmente patriota, e porque, se amanha vier a bancarota, receio que este paiz perca a sua independencia!
Attendamos aos interesses do Porto, mas attendamos tambem aos interesses do paiz. (Muitos apoiados.)
Sr. presidente, a opinião de illustres maritimos a respeito d’este projecto tambem é uma opinião grave.
Não se esqueça a camara que tres distinctissimos marinheiros negaram a sua assignatura na camara dos senhores deputados ao parecer da commissão a respeito do projecto que se discute.
A este respeito não digo mais nada.
Restam outras questões graves.
Sr. presidente, é indispensavel ligar o porto de Leixões com o rio Douro, e então claro está que não sé trata apenas de um porto de abrigo, porque mais tarde ha de vir o porto commercial
Esto ninguem o dispensa, e reflicta bem a camara.
Quem nos diz que este projecto não está completo sem o canal é o proprio sr. ministro das obras publicas.
Attenda a camara ao que vou ler.
É necessario que se veja a independencia do governo, e como elle resolve as questões .mais importantes da fazenda publica de um momento para o outro, considerando só as conveniencias politicas.
Diz o sr. ministro das obras publicas:
«Resolvida a formação de um porto de abrigo, é a primeira parte d’este projecto, que propomos que se execute.»
É o proprio sr. ministro que diz: esta é a primeira parte do meu projecto.,
É s. exa. que faz esta infeliz confissão.
O adjectivo parece-me que não offende!
Acrescenta s. exa. mais:
«E menos prudente seria votar-se a construcção do canal, sem primeiro se determinar a direcção que deve seguir, sem verdadeiramente se calcular a importancia do seu custo, e sem, finalmente, se poder julgar das condições em que se póde levar a effeito, para que as vantagens que d’elle se esperam praticamente se realisem.»
E isto é a respeito de uma parte integrante do projecto.
Foi mais cauteloso o digno relator. S. exa., com a habilidade que lhe é propria, foi mais cauteloso; não disse uma só palavra no parecer a respeito d’este ponto importantissimo.
Não será de grande inconveniencia approvarmos este projecto, quando o governo não tem estudos para a construcção do canal?
Não sabe ainda a direcção que lhe deve dar, não sabe as condições em que deve ser feito, nem mesmo a quanto montarão as despezas com a sua construcção; e entende-se que o porto de abrigo é a primeira parte, e que o canal faz parte desta obra immensa?!
Vou ler o que se diz n’um parecer sobre o porto de Leixões:
«Mas se os estudos daquelle canal, cuja impossibilidade relativa da execução é já proclamada por muitos, e cuja, inefficacidade e inconveniencia no aproveitamento da sua construcção são sustentadas por outros, até pelo engenheira inglez sir John Cood, se estes estudos, depois de principiadas e adiantadas as obras do porto de abrigo, viessem, demonstrar que existem realmente, quer aquella impossibilidade relativa da execução, quer estes perigos e inconveniencia no aperfeiçoamento da construcção, que aconteceria?»
Sr. presidente, eis aqui a opinião de pessoas do Porto, e pessoas competentes; fazem ellas estas interrogações.
Mas a grande quantidade de areias representa o principal impedimento da barra do Douro.