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SESSÃO N.° 64 DE 6 DE JULHO DE 1899 603

Sr. presidente, peço licença a v. exa. e á camara para, n'esta occasião, me referir a um jornal que me foi enviado.

Eu dou toda a attenção a qualquer jornal que tratar sincera e lealmente de qualquer questão de interesse publico.

O jornal a que me vou referir conta entre os seus collaboradores duas pessoas que me merecem especial consideração.

Refiro-me aos srs. conselheiros Eduardo Villaça e Marianno de Carvalho.

Este jornal insere um artigo que é o inicio de outros que promette apresentar sob o titulo A questão do alcool, e começa por estabelecer a these Tudo a vinha e tudo para o vinho.

Como é natural, refuta a these.

Sr. presidente, eu acceito esta these; mas, pela consideração que me merece a industria do alcool, daqui lhe respondo pela seguinte fórma: tudo a vinha, tudo para o vinho, respeitando os direitos adquiridos e os legitimos interesses da industria do alcool.

Eu antevejo, sr. presidente, em parallelo duas questões importantissimas.

S. exa. o sr. ministro da agricultura apresenta hoje um projecto de conciliação entre moageiros e lavradores.

Não virá longe o momento em que s. exa. terá de apresentar tambem um projecto de conciliação entre os productores de álcool e os vinhateiros.

Sr. presidente, tudo a vinha e tudo para o vinho, é a minha these.

Dizer que Portugal deve produzir vinho é dizer uma banalidade.

É claro que estando na região da vinha, naturalmente está indicada esta cultura no plano de exploração technica.

Mas, considerada esta disposição debaixo do ponto de vista politico, não são menos valiosos os argumentos em seu favor.

Se, porventura, as nações estrangeiras nos censurassem o alargamento da nossa area vinicola, nós podiamos responder que estando o nosso paiz situado numa parte privilegiada da região da vinha, sentiamos o dever, imposto pela natureza, de aproveitar os beneficios que ella nos indicasse, e se algum paiz tinha direito a queixar-se da concorrencia eramos nós, porque nos consideravamos os primeiros vinhateiros do mundo!

Mas qual é o argumento que se antepõe á these enunciada? É a crise da abundancia.

Eu cairia certamente no maior dos erros se não considerasse esta questão á altura da sua justa importancia.

A crise da abundancia é grave e importante, sem duvida; mas se é grave e importante esta crise, quando for verdadeira, não é menos grave nem menos importante para a orientação e desenvolvimento da agricultura a crise da falsa abundancia.

Sr. presidente, a batalha de Alcacer-Kibir perdeu-se por uma palavra.

Quando El-Rei D. Sebastião, depois de ter mandado tocar á Ave-Maria, por sentir a impaciencia, que reinava entre a flor dos seus nobres cavalleiros, de querer atacar o inimigo, deu ordem para avançar, e quando todos, com aquelle fervor de enthusiasmo, que fez o pasmo dos mouros, tinham rompido as fileiras do inimigo, uma palavra fatal: - "Ter! Ter!" que hoje equivale a dizer: - "Alto!" foi o bastante para determinar o momento de Hesitação que, transmittida como um choque electrico de uns para outros, fez nascer no inimigo a grande reacção que trouxe a funestissima perda da batalha.

Sr. presidente, impressiono-me quando ouço fallar na crise da abundancia, porque póde ter funestos resultados para o nosso progresso agricola no caso de não estarmos ainda no momento de a recear.

Affirmo a v. exa., e vou mostrar á camara, que não tive competencia nem habilidade para me convencer se temos a recear desde já a crise da abundancia.

O calculo, que importa fazer para esse fim, é bem facil.

De um lado escreve-se o numero que representa a producção e do outro o numero que representa o consumo, e da sua comparação concluiremos qual é o maior.

A producção ainda a acceito pelos dados estatisticos, mas o consumo? Bem sei que a questão se regala pelas leis da offerta e da procura; desde o momento em que a offerta seja superabundante e a procura se restrinja, é claro que se sente a crise da abundancia.

Mas appello para o criterio e conhecimentos scientificos do sr. ministro da agricultura, para que me diga se isto é ou não uma maneira de calcular, pela qual ficamos no campo das conjecturas.

Eu não quero enfastiar a camara, sei que estão todos cansados de uma larga sessão parlamentar, mas v. exa. comprehende que uma asserção d'estas tem por qualquer modo de ser justificada.

Vou apresentar a justificação e escolhi escrupulosamente alguns factos da minha convicção, que se bem me parece, abrangem varios pontos de vista e tendem a provar que a nossa area de producção de vinho ainda póde ser alargada sem receio de uma crise de abundancia immediata.

Sr. presidente, comprehende v. exa. que cada um falla segundo o seu temperamento; por consequencia, desculpe-me a camara se o argumento que peço licença para apresentar não for concludente.

Consta-me por um amigo meu, não posso lembrar-me quem fosse, que em Inglaterra, nalguns institutos de educação, obrigam os educandos a fumar.

Este facto, sr. presidente, numa nação tão pratica e commercial como a Inglaterra, prova bem quanto ella zela os interesses do consumo do tabaco, a ponto de estabelecer no programma do educação s crear consumidores.

E paralellamente o que acontece entre nós?

Sr. presidente, está nos nossos usos e costumes recatar o acto de beber vinho.

Eu pergunto se é verdadeira esta impressão.

Entre nós, a não ser um boçal, ou um rapaz estravagante, qualquer homem que se preze, em qualquer classe social, não bebe numa praça publica um copo de vinho, sem sentir que está praticando um acto contrario aos costumes estabelecidos pela nossa educação?

Será isto verdade?

(Ápartes dos srs. Fernando Larcher e Cypriano Jardim, que se não ouviram.).

Dizem-me que sim.

Então, sr. presidente, peço licença para soltar um brado de indignação patriotica.

Uma nação que, pela sua historia, prova triumphantemente que, desde o principio, todas as classes mostraram quanto eram dedicadas ao seu paiz: a começar pelos nobres, que conquistaram territorios, seguindo aos procuradores dos concelhos que, pugnando pelos seus direitos, provavam bem quanto os seus interesses estavam ligados á terra; até ao povo, que pela sua independencia morria de fome junto ao seu querido Rei D. João I, ali na cidade de Lisboa (e digo ali, porque então a cidade não chegava até aqui; aqui onde nós agora estamos estava então o, arraial festivo de D. João de Castella), esse Rei, progenitor do grande infante que foi pae, não de sangue, mas do espirito dos heroes, conquistadores do commercio dos mares.

Este povo, cuja geração actual ainda ha pouco mostrou em Africa quanto era digna da tradição que herdamos; este povo, sr. presidente, tem na sua educação o preceito, que eu não discuto, de não beber vinho em publico! É este povo patriota que por uma incoherencia inexplicavel acceita o uso estrangeiro de beber em publico, em ar de