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604 DIARIO DA CAMARA DOS DIONOS PARES DO REINO

festa e acompanhado por musica, um vinho de valor intrinceco, inferior, o vinho de cevada: a cerveja!

A par d'isto, ignoram os estrangeiros que em Portugal o vinho chega para todos, no que não crêem, porque nas suas terras só os ricos bebem vinho.

Eu não quero mal á industria e ao commercio da cerveja.

Premiaria os productores com uma medalha, na qual estivessem inscriptas estas palavras - Valor e merito.

Valor, porque é preciso valor para ter a audacia de tentar introduzir o consumo da cerveja numa nação que devia ter o orgulho de possuir o melhor vinho do mundo.

Merito, porque a perfeição do fabrico colloca a cerveja em condições de concorrer francamente com o vinho, mas tirava-lhe a palavra lealdade, para obstar a que juntas as tres, Valor, Lealdade e Merito, se confundissem com aquella legenda que é destinada a premiar os actos heróicos de dedicação pela patria.

Permitta-me v. exa., sr. presidente, que eu peca venia ao sr. ministro da agricultura, como representante do corpo docente do instituto real de agricultura, para dizer uma blasphemia chimica - da, uva tambem se póde fazer cerveja!

Não tiro as conclusões, por serem obvias e para não cansar a camara.

Apresentarei outro facto.

Vou comparar duas cidades - Lisboa - e uma que seja proxima e que esteja situada n'uma região vinhateira- Santarem.

Posso affirmar a v. exa. que Santarem é um centro de producção vinicola, um centro vinhateiro de primeira ordem.

Tendo eu feito parte do conselho de agricultura que em 1880 fez uma exposição de vinhos, talvez a mais extraordinaria que se tem feito no nosso paiz, tive occasião de o conhecer.

Em Santarem, afianço - e não é gratuitamente que o faço porque o explico - que qualquer classe da sociedade, as pessoas menos favorecidas da fortuna, o mendigo, até, encontram para consumo, em qualquer venda, vinho de melhor qualidade dó que em Lisboa tem á sua mesa a classe remediada.

O consumidor em Santarem é na maior parte vinhateiro, ou operario agricola, conhecedor do producto e, se pela sua pobreza acceita ás vezes um vinho que não é de tão boa qualidade, aponta-o como mau, e assim obriga o commercio a manter-se á altura devida; mas a classe remediada, em Lisboa, sujeita-se ao que vae buscar mais proximo de casa, sem ter competencia para recalcitrar.

Se a differença de qualidade é tão grande entre Lisboa e Santarem, o que fará em qualquer outra parte do mundo, na America ou na Africa, por exemplo.

O que haverá por lá?!

Emquanto houver estas differenças em tão pequena distancia como a que vae d'aqui a Santarem, não creio que os nossos vinhos cheguem ás praças estrangeiras no seu verdadeiro typo. (Vozes: - Muito bem.)

Sr. presidente, outro facto vou referir á camara, e peco-lhe a sua benevolencia, porque, por mais que eu queira, não sei resumir as minhas considerações. (Vozes: - Falle, falle).

Sr. presidente, não se assuste a camara em ver estes volumes (indicando os que tem sobre a carteira); eu apenas vou ler algumas palavras dos relatorios consulares e de informações officiaes. New-York: (Leu.)

"Continuam a ser desconhecidas n'este paiz as ricas variedades dos nossos vinhos do Porto, e eu continuo a crer que mau grado não termos aqui colonia portugueza abastada que, consumindo-os, os tornasse conhecidos, circumstancia que muito favorece outras nações vinicolas, não perderia o seu tempo nem o seu capital quem tentasse introduzil-os."

Em New-York não conhecem os nossos vinhos. Outro importante potentado que se levanta proximo de nós; o Congo belga: (Leu.)

"Segundo uma correspondencia publicada na Belgique coloniale de 1896, dos vinhos importados no Estado Independente, os que resistem melhor á viagem e ás differenças de temperatura, que como é sabido variam de 15 a 50 graus, são os vinhos portuguezes. O vinho portuguez misturado com agua é a bebida geralmente servida á mesa do branco."

Uma esperança mais: a de se alargar o consumo do nosso vinho a par do desenvolvimento das colonias.

Pernambuco refere-se aos nossos vinhos: (Leu.)

"O commercio de importação portugueza tem declinado constante e rapidamente não só n'este estado mas creio até que em todo o Brazil.

"As poderosas industrias francezas e inglezas venceram ousadamente o nosso tradicional commercio, assim como a habil industria alemã procura hoje vencer, em toda a linha, aquellas duas.

"E n'esta grande lucta, n'este grande certame, sómente um dos nossos artigos triumphou brilhantemente sem trabalhos, sem sacrificios para ninguem; triumphou espontaneamente pelos seus proprios merecimentos, batendo até as contrafacções de que era victima."

Abro um relatorio que realmente não diz respeito aos vinhos, mas é curioso, e daqui o dedico ao espirito elevado, fino e gracioso, do meu particular amigo e digno par conde de Bertiandos.

É importante.

Nós não calculamos talvez a intensidade com que a concorrencia commercial incide sobre nós. Essa concorrencia incide como aquella chuva miuda que não sentimos e que em alguns minutos nos deixa completamente encharcados: (Leu.)

"As estatuas, e outros grandes ornamentos de louça branca e azul, que antigamente se recebiam do Porto para guarnecer os telhados, as portas e os jardins das casas em Pernambuco, vêem hoje de Allemanha fielmente reproduzidos sobre os nossos modelos, e apparecem estatuas de louça representando Vasco da Gama, Camões, Albuquerque, etc., as quaes só têem de portuguezas o distico, quando o proprio fabricante lho não escreve no pedestal, com erros de origem manifestamente germanica."

Vê-se que os nossos irmãos ainda continuam a querer usar de ornamentos propriamente portuguezes, no que, aliás, são illudidos na sua boa fé patriotica. (Leu.)

"Pretoria. - Abriu-se, o deposito official de vinhos portuguezes. É no Marquet Straat, rua do Mercado, segunda em importancia na capital.

"Compõe-se este estabelecimento de dois decentissimos armazens, modesta mas dignamente mobilados, com quatro mostruarios a que a vista tem accesso através de placas inteiras de vidro polido. Encima-os uma larga taboleta na qual ha letreiros sómente em inglez e portuguez, e que significam: Deposito official de vinhos portuguezes; venda por grosso.

"Dos vinhos de Portugal esperava-se um rasoavel fornecimento, mas nunca veiu.

"Disseram os jornaes da capital muito opportunamente, que a colheita do Cabo era insignificante e que a Africa do sul offerecia um bom mercado aos nossos vinhos. E offerecia. Mas, infelizmente, o productor não pôde, e o negociante receioso não o aproveitou.