SESSÃO DE 6 DE AGOSTO DE 1887 843
0 sol que lhe queimava 6:000$000, 8:000$000 e 10:000$000 réis, e tantas vezes se queixou que Mousinho da Silveira teve um anno a curiosidade de ir notando os prejuizos do amigo e diariamente os ir sommando; findas as colheitas attingiam muitas dezenas de contos de réis. Mousinho da Silveira quando veiu a proposito, disse-lhe, então tiveste um pessimo anno, foram grandes os teus prejuizos; o sr. José Pereira Palha, meu avô, respondeu, como assim? estás enganado as colheitas foram regulares e não perdi; perdeste retorquiu Mousinho da Silveira e em prova da sua asserção, exhibiu a conta que pacientemente elaborára. A Verdade era que não tinha perdido, pelo menos n'aquelle anno, visto que á agricultura deveu a sua ruina, não por falta de protecção, mas pelas contingencias que lhe são inherentes e porque tendo, até depois dos cincoenta annos, occupado um logar na magistratura, quando se dedicou á lavoura nem tinha a pratica nem os conhecimentos necessarios para d'ella tirar bom proveito.
Nas mesmas terras, nas mesmas propriedades em que meu avô comprometteu o seu patrimonio, quasi na mesma epocha, meu tio Antonio, que muitos n'esta casa conheceram, e se o conheceram sabem que foi um dos mais intelligentes agricultores do nosso paiz, fez do nada e pela lavoura uma fortuna superior a 400:000$000 réis, pois este homem com quem eu convivi muitos annos, posso dizer durante dez annos da minha vida, por que elle falleceu quando eu tinha vinte e comquanto já antes vivesse com elle, só dos dez annos em diante é que conscientemente o conheci, nunca o vi se não chorando-se, lamentando-se a todas as horas e por todas as differenças climatericas.
Se chovia mais de tres dias deixava de beber agua, e uma vez que a chuva era mais abundante, vi-o chegar á janella, e de punho fechado dizer, "é cobardia bater em quem não se póde defender". Pois, já o disse, pela lavoura constituiu uma fortuna solida e no seu testamento recommendava ao filho que nunca deixasse de ser lavrador.
Ora aqui está o que são muitas vezes os queixumes dos lavradores, ou dos agricultores; e não quero com isto dizer que todos são sem fundamento, mas não se queixem da falta de protecção.
Queixem-se da falta de intelligencia com que a terra é cultivada, queixem-se das contingencias naturaes a todas as industrias, e mais frequentes na agricola que depende de agentes que escapam á acção do homem, de motores que se não regulam com manometros, mas não da falta de protecção por parte dos governos, pois nunca lhes poderá servir para remedio dos seus males.
E que não eram só os agricultores de outro tempo que se queixavam sem rasão póde o sr. ministro da fazenda conhecel-o até dos factos passados ha pouco n'esta camara. São hoje o que foram sempre.
Sinto que o sr. Vaz Preto não esteja presente, porque desejo referir-me a algumas palavras por s. exa. pronunciadas n'uma das ultimas sessões.
Como o meu fim, porém, é apenas discutir uma asserção sua, asserção a meu ver perfeitamente gratuita, e filha de um inexacto conhecimento das necessidades de uma industria, eu não hesito em fallar na sua ausencia.
O sr. Vaz Preto, n'uma das sessões d'esta camara, pediu ao sr. ministro da fazenda que acabasse com o drawback do azeite, destinado ás fabricas de sardinhas conservadas, affirmando que elle só servia para disfarçar o contrabando por isso que em Portugal ha azeite tão bom como o importado e de que os fabricantes se podem servir.
Ora o que s. exa. pedia era pura e simplesmente a ruina de uma industria importante, a ruina por conseguinte de uma parte da riqueza nacional, e fazia este pedido sem fundamento.
É facil dizer que temos azeite igual ao melhor francez ou italiano, tão facil que não conheço productor a quem o não tenha ouvido, mas é difficil demonstral-o, pelo menos para a quantidade que as fabricas precisam.
Para ser verdade era necessario primeiro que houvesse onde o fazer e eu devo dizer que não conheço lagares mais detestaveis do que são geralmente os nossos, e o que é verdade é que os azeites portuguezes, por mais privilegiada que seja a região onde elles se produzem, por mais calcareo que seja o terreno d'essa região, emquanto forem fabricados n'essas nojentas pocilgas a que se dá o nome de lagares, hão de ser sempre inferiores aos azeites francezes e italianos. E são-n'o hoje não só porque são fabricados em peiores condições, mas porque pelos processos usados contêem materias differentes d'aquellas que contêem os azeites francezes e italianos, e que não conteriam se os processos fossem iguaes.
Para ter bom azeite é preciso que elle seja bem fabricado, e geralmente não o podemos fabricar peior.
Digo geralmente porque felizmente ha excepções; fabrica-o bem o digno par o sr. Margiochi aqui presente, segundo me consta, fabricava-o Alexandre Herculano, e depois d'elle outros lhe têem seguido o exemplo e a lição, mas apesar de todas estas excepções a quantidade produzida está longe de poder supprir as necessidades da industria. E não seria difficil obtel-o se em vez de injustificados queixumes como os do sr. Manuel Vaz, s. exa. e os demais pro-ductores se quizessem dar ao trabalho facil de transformar o seu producto.
Facil disse, porque se em Portugal se não póde levar a perfeição ao ponto que se tem levado em Italia onde a fabricação do azeite deixa de ter o caracter de uma industria accessoria da agricultura para ser explorada com a largueza de uma industria vivendo sobre si, pode-se, comtudo, fabricando nos lagares actuaes, beneficiados, obter uma perfeição relativa que habilite a vender mais caro e sobretudo com mais facilidade.
E o que é mais notavel, o que torna mais absurda a incuria dos productores, é que o processo custa mais barato que o que actualmente empregam.
Para fabricar bem gasta-se menos dinheiro.
Poupa-se sal, porque a azeitona não deve ser entulhada, poupam-se braços, porque a apanha deve ser muito mais demorada e poupa-se lenha porque as caldas ou se supprimem ou são menos, e apenas se augmentam os braços no lagar para evitar que os utensilios que servem ao azeite ordinario ou de segunda qualidade, não sejam confundidos com os que servem, ao de primeira, e tudo isto dá em resultado que a fabricação sáe muito mais barata e que uma parte do producto se vende muito mais cara sem prejudicar o preço do restante.
Não gosto de affirmar sem provase, n'este caso posso-as dar tão completas que não me dispenso de as produzir. Fabrico o meu azeite pelo processo que acabo de indicar e tenho presentes duas contas de venda que escolhi ao acaso, apenas com o cuidado de que tivessem datas approximadas.
Em 14 de março vendi 4:505 kilogrammas de azeite ordinario á rasão de 1$400 réis os 10 kilogrammas o que corresponde a 2$184 réis o almude de 17 litros, (e fallo em almudes porque supponho que aos que me escutam succede o mesmo que me succede a mim, isto é que educado a apreciar o valor da mercadoria pela medida antiga preciso sempre reportar-me a ella para fazer idéa exacta do preço); em 9 de abril, vinte e seis dias depois, vendi 2:495 kilogrammas fino á rasão de 1$800 réis os 10 kilogrammas ou 2$809 réis o almude, quer dizer com uma differença de 625 réis em almude, devida não a ter mudado o estado do mercado, que era o mesmo, mas á qualidade do genero.
E isto é tanto mais para apreciar quanto é certo que o genero que vendi mais caro foi o que produzi mais barato, aquelle com que não gastei nem sal nem lenha.
Estes preços, sr. presidente, são remuneradores, tanto o primeiro como o segundo e tambem me é facil demonstral-o.
A propriedade a que me refiro produziu na colheita passada 3:129 decalitros ou 1:840 almudes de 17 litros, ou