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6 DIARIO DA ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE

desapegado da familia e da terra em que devia estar enraizado, na planicie alemtejana a guiar as machinas agricolas de uma cultura extensa e industrializada.

Bem peor que a actual, tão cruciante era alguns meses no sudario de amarguras dos ceifeiros... Mais valia então continuarmos exclusivamente na emigração alarmante que temos.

O ideal é fixar nos lotes de familia uma parte da gente que haveria de emigrar. Julgo o problema viavel.

Parto da hypothese de que o Governo vae mandar uns engenheiros competentes, práticos, trabalhadores, não peaveis com minucias de cálculos e desenhos, nem inquinados do bacilo burocratico, fazer o plano geral, e logo depois o primeiro projecto de irrigação, quiçá ligado á navegação interior, e que logo abre concurso para a empreitada de construcção.

Nós não podemos ir agora moldar de um jacto em boa educação technica (miserando ensino da engenharia portuguesa...) essa pleiade de homens de que tanto carecemos para remoçar a nossa actividade: mas não será difficil escolher meia duzia de engenheiros com amor ao trabalho e a esta empresa.

Não faltarão concorrentes como empreiteiros, nem haverá dificuldades de obter trabalhadores adextrados. A imprensa, o regime de economia do Governo mostrará a terra como fonte de regeneração nacional.

Gente de capital? Os que vêem de África e do Brasil com alguns recursos e desejosos de trabalhar; os lavradores do Minho e da Beira que mandarão os filhos para aqui em vez de os desterrar para o Brasil, como tanto acontece.

Que seja a 30$000 réis o hectare o valor da terra. Cada lote de 50 hectares custará 1:500^000 réia. Com este valor terá credito para correçar a exploração agricola, tanto mais que nem nós precisamos das grandes machinas, caras, e que reclamam um tirocinio de manejo que o povo ainda não tem, nem carecemos de culturas muito especializadas.

Começaremos pelo prado em grande escala e pela criação de gado, bem depressa aperfeiçoavel com os padrões das granjas do Estado, pela cultura do trigo e do milho, de collocacão segura no país, como a carne e a lã.

Foi assim que se procedeu na conquista do f ar West: das colheitas americanas nos terrenos irrigados sobresaem as forragens e o gado; depois os cereaes, os productos horticolas, e por fim os frutos.

A irrigação do trigo tem sido relativamente pouco empregada nos grandes países productores, porque outras culturas mais rendosas pela agua se lhe avantajam. Mas o nosso déficit cerealifero enthusiasma á cultura aperfeiçoada e irrigada, e á utilização das machinas auxiliares de semear, ceifar e debulhar, hoje tão perfeitas e ao alcance do pequeno lavrador.

Duas palavras agora acêrca do lado financeiro do problema: os Estados Unidos da America do Norte começaram com o credito de 2.500:000$000 réis annuaes, contando gastar em dez annos 30:000 contos de réis, será mais trabalho legislativo que os parcos dez artigos da Reclamation Law; logo no primeiro anno empregaram 200 engenheiros, novos e velhos.

Este projecto de lei propõe 600 contos de réis annuaes por economias orçamentaes: as obras principaes da hydraulica agricola e de navegação que interessara ao país com urgencia podem custar 6 a 8 mil contos de réis. Não carecemos de annuidade maior.

Não podia ter havido com aquelle desenvolvimento que demos á viação, nem sempre bem feita, e quasi sempre cara, e com toda a obra publica desastradamente encaminhada das ultimas decadas da monarohia, grande melhoria economica do país.

O primeiro passo é este da hydraulica agricola, acompanhado da viação respectiva, porque devemos saber que tensos em quasi metade do país uma região excepcional, e que é justamente essa região que, podendo ser a nossa maior riqueza, nos traz o grande embaraço de não ser cultivavel sem agua, e não poder supportar sem penurias e emigração a escassa gente que vive dos seus campos ou dos seus productos mal industrializados.

Deixando entre nós á simples iniciativa particular o desenvolvimento da agricultura e da outra industria, não podemos esperar uma modificação rapidamente sensivel do atraso vergonhoso em que vivemos, porque o problema é complicado de factores que só o Estado pode resolver e desembaraçar.

As medidas que proponho, se parecem muito avançadas, não estão fora, julgo, das attribuições que o Estado deve tomar no interesse geral economico, industrial e moral.

Precisamos de criar uma geração nova de caracter verdadeiro e afincada no trabalho productivo o util para a nação. Havemos de recrutar como sempre nos trabalhadores da terra essa camada de gente de vontade - o que nos tem faltado - e precisamos para isso de proporcionar os elementos para que se dê a selecção dos fortes e dos de iniciativa na torrente da emigração e do uibanismo, e elles dentro do país comecem a regeneração economica. De pouco servirá, para esta solução urgente a tomar, começarmos agora, tarde e mal, a fazer uma campanha pela educação e illustração papagueada e letrada; menos nos aproveita de momento encaminharmos para as colonias as nossas attenções exclusivas e a nossa gente; desillusões amargas tambem nos havia de trazer tentarmos um grande desenvolvimento industrial, ou até somente equilibrarmos umas industrias com outras que fossemos introduzir, ainda que ao mesmo tempo desassombrássemos ou resolvêssemos o problema do trabalho, que tão alarmante se nos mostra, e tivéssemos ensejo, que não temos, de trazer uma educação industrial, perfeita em pouco tempo, ao nosso operario fabril. Tudo isso é necessario fazer-se. Mas agora temos de resolver num salto, muito depressa, o atraso de juizo que temos posto nos orçamentos com uns grossos numores de deficit, nós temos de entrar em um lustro a saldar a conta do nosso movimento commercial; e para isto é demorado em demasia qualquer d'estes expedientes, porque, antes de o obtermos estariamos arruinados em toda a linha.

Só a terra poderá salvar-nos: e havemos de ir tornar conta d'ella tal qual estamos, sem o povo educado e instruido nos melhores processos de a explorar. Mas a nossa gente estima tanto a terra - ha tantos Thomés da Herdade por esse país alem - e tambem ha tanta penuria nuns e um horizonte tão carregado para o futuro das familias de outros que hoje ainda possuem capitães, é tão sombrio o campo economico do país, que, não haja duvida, saibamos nós pôr depressa e bem o problema da irrigação em pratica, e um regime de parcellamento e de convite para a terra, que este mesmo povo bronco e rude que com a foice roçadoura e o forcado, ou a morder cartuchos e a carregar zagalotes, tantas vezes deu provas de heroismo e de amor á vida, saberá tambem amanhã ir tomar saude, educar a vontade, illustrar o espirito e salvar a nação a guiar a charrua e a guardar o gado no campo enorme de paz, de trabalho ao ar livre, de cantos e alegrias, onde hoje ha o deserto... para que nós povo faminto, tuberculoso e decadente, comecemos a ter o alimento indispensavel á conquista do nosso logar entre os povos. E podemos ser mais felizes do que elles, porque temos muita mais riqueza do que nenhum outro: de raça criadora que por aguas afora nunca d'antes navegadas "ia, é esforço lindo! do misterio obscuro para o mundo arrancar mais mundo, outro mar" de terra fertil que só falta regar e lavrar, de thesouros mineraes que devemos arrecadar com usura para mais tarde, quando formos cultos.

"Volta-vos á grei Serneae, colhei..."