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24 Diário da Câmara dos Deputados

Mas do nada se quis saber, e o Sr. Ministro das Finanças de então continuou absolutamente cego.

E porquê?

Porque havia políticos do regime metidos na questão.

Entre êles, o Sr. Carlos Pereira, o ainda hoje vejo nos jornais que ao Sr. Carneiro Franco foram mandados aprender os bens em Angola, por um telegrama.

O Sr. Calem Júnior: - Isso vai ser desmentido.

O Orador: - Não sabia.

Mas em África também se praticaram roubos.

Alves dos Reis, que era a pessoa do que o Sr. Vitorino Guimarães, desconfiava, partiu de Lisboa para África no meio de um luxo extraordinário, levava dois secretários o mandou reservar uma cabine, que nunca se abria e de que só êle tinha a chave.

E nada disto deu nas vistas da polícia, nem de ninguém afecto ao Govêrno!?

Pois nessa cabine iam dezenas do malas cheias de notas!

Espere V. Exa. pela remessa das notas levadas para África, e verá a quanto monta a sua cifra.

E quem paga esta grande burla?

Quem paga, diz-se, é o Banco de Portugal.

Mas V. Exas. já pensaram que êle não pode arcar com tamanha responsabilidade?

Diz-se que o roubo devo atingir corça de 300:000 contos; ora o Banco de Portugal não pode pagar tanto, porque tem apenas o capital social de 13:000 contos.

Quem terá, portanto, de pagar? Já estamos todos a ver.

Daqui a pouco, daqui a algumas horas, entra nesta sala o novo Govêrno, o atrás do Sr. Presidente do Ministério vem o Sr. Ministro das Finanças, trazendo dentro da sua pasta um decreto determinando um novo aumento de circulação fiduciária.

Já estou à espera disso, porque não há outra maneira de solucionar a questão.

Ficando, pois, esperando as cousas, para ver êsse aumento da circulação fiduciária; porém, tendo o Banco duas séries, não sabemos para qual delas irá êsse aumento, isto é, se para os seus juros privativos, se para débito do Govêrno.

Êste é um assunto que havemos de apreciar a seu tempo.

A situação financeira do Banco já hoje é de 198:000 contos e a do Estado de 1.600:000 contos, o que nos dá já a entender que, com mais êste aumento, se deverá elevar a 2.000:000, pouco mais ou monos, situação esta que se deve, única e exclusivamente, à política republicana que se tem seguido.

Sr. Presidente: não me quero alongar no uso da palavra, tanto mais quanto é certo que não quero por forma alguma concorrer para que a Câmara dos Deputados esteja a tratar do assunto há três sessões e não chegue a uma conclusão, perdendo-se o tempo, como a maior parte das vezes acontece, o que é prejudicial para o país e para todos nós.

Apoiados.

Estando aqui, Sr. Presidente, a discutir que deve haver inquérito parlamentar, eu devo declarar desde já à Câmara que estou pronto a fornecer a essa comissão todos os esclarecimentos que lhe possa dar, visto que não costumo fugir ao cumprimento dos meus devores.

Eu não compreendo, na verdade, que tendo o Sr. Ministro das Finanças desconfiado, conforme tivemos ocasião de ver pelo relato que tem vindo nos jornais, de que se tratava de capitais holandeses e alemães, não consultasse, como devia, as entidades consulares e diplomáticas que temos em qualquer daqueles países.

Não sei, francamente, para que serve então o nosso quadro diplomático!

O que na verdade se vê em tudo isto é que houve um grande desleixo e uma grande incúria.

Isto, Sr. Presidente, é uma daquelas questões que têm de afundar o regime.

Apoiados.

Sr. Presidente: eu não ouvi aduzir contra o inquérito parlamentar senão duas ordens de razões.

A primeira é que os inquéritos parlamentares tudo afundam, que são uma maneira de baralhar e confundir.