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Sessão de 4 e 5 de Janeiro de 1926 17

tirou-se-lhes a exigência de números de justificação, para se lhes responder apenas com afirmações.

E nem assim, nem assim se conseguiu responder em termos, já não digo de justificação, digo em termos de decência; falseia-se a verdade, e a verdade aparece no punho dos próprios que a falseiam.

Sai de uma cloaca de mentiras, mas é a verdade ainda.

Quanto aos relatórios do Banco, eu admiro, curvado, a capacidade mental do homem que os saiba compreender.

São feitos, como certos artigos de certa imprensa, no propósito indiscutível de emparvecer quem os leia. Como trabalho de contabilidade, um aleijão, uma vergonha; como trabalho de gazua são uma perfeição, um monumento. Há de tudo lá dentro, há molas ocultas, subterrâneos e alçapões.

As rubricas modificam-se de ano para ano, numa mixórdia infernal de contas que chega ao descaramento de se misturar, compreende-se que é asneira, na resposta às preguntas do Sr. Tôrres Garcia (se fôsse apenas asneira), a verba de "móveis e edifícios" com a verba de "notas de Banco em existência". E para se mascarar a porcaria, as notas são incluídas na designação "outros objectos". Êsses "outros objectos" são as notas que estão em armazém compradas no tempo do dinheiro barato, e que vão ser pagas pelo Estado, muito acima dos preços actuais do mercado, conforme a ruinosa, para o Estado, claro está, convenção de 24 de Março de 1924.

Na conta de ganhos e perdas, ao lado das rubricas dos diversos juros e dos diversos lucros das agências, aparece uma conta global de diversos juros e diversos lucros para que ninguém se entenda.

As despesas de estampagem e emissão de notas andam misturadas com as despesas de amortização.

Os títulos ouro das reservas estabelecidas pelo contrato de 1918, que deviam ser escriturados ao par, andam lançados com ágio, e assim aparecem no relatório de 1924 os efeitos ouro lançados a 9$70 por libra e a 2$12 por dólar. E assim sucede que no relatório do 1921 aparecem 150:000 dólares escriturados por 176.700$00, e no relatório de 1923 surgem os mesmos 150:000 dólares lançados por 295.930$92. Nenhuma das duas cifras é a verdadeira, que devia ser 138.750$00.

Não há desenvolvimento respeitante à importantíssima verba de balanço, fundo de amortização e reserva criado pela lei de 9 de Setembro de 1915, e assim se esconde a misteriosa vida dêsse fundo. E etc., etc., etc.

Seria um nunca acabar só eu continuasse examinando o sujo aspecto geral dos relatórios. E preciso ter a alma de um Sherlock Holmes para se perceber qualquer cousa nesses papeluchos.

Mas mesmo assim alguma cousa se entende inegável, insofismável, real. O confronto das respostas às preguntas do Sr. Tôrres Garcia com as verbas do relatório, com os diplomas que regulam a vida do Banco, produz conclusões esmagadoras para a administração do Banco.

Comecemos.

Já me afirmou uma alta personalidade da administração pública que as respostas do Banco são triunfantes. Vamos lá a ver alguns dêsses triunfos, começando pelo final da prosa do Banco, que é uma girândola em que o Sr. governador faz a apologia do colosso da rua dos Capelistas, inteiramente convencido de que os homens que hão-de ler a sua prosa são patetas de raiz.

Só assim se explicam as heresias e as confissões vergonhosas que nessa girândola retórica se contêm.

Diz o Sr. Governador:

Os balanços anuais do Banco demonstram, sem o menor esfôrço, que, longe do Banco ter perdido um quarto do seu capital, o activo é de tal modo seguro, certo e bom que as acções de valor nominal de 100$00 se cotam muito acima de 900$00.

"E são leigas, pessoas inconscientes as que adquirem estas acções? Não. Pelo contrário, são os conhecedores do mercado do valores, são os banqueiros, são as companhias e emprêsas bem geridas que adquirem êsse papel conscientemente, como um valor seguro; é o próprio Estado que adquiriu um grosso lote dessas acções, porque vários Srs. Ministros das Finanças assim o decidiram, certos de que bem empregavam os fundos de Estado".