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6 Diário das Sessões do Senado

Ibireaa da sua atitude, pela elevação da sua mentalidade; assistia-me, muito especialmente, como Senador representante das Belas-Artes, a obrigação indeclinável de saudar a arte brasileira, infelizmente tam desconhecida ainda em Portugal.

Não há, no nosso país, espíritos cultos que ignorem a arte francesa, a arte italiana, a arte inglesa; poucos de V. Exas., decerto por insuficiência de informações, por ausência de intercâmbio artístico, por essa lamentável falta de interêsse com que é costume olhar-se o Brasil, sabem quanto vale pela sua opulência, pelo seu vigor, pela sua expressão, pelo seu carácter, a arte da grande nação irmã. Essa arte tem, já hoje, as mais belas tradições. Encontra-se no seu passado — porque a pintura e a estatuária brasileira já tem o seu passado de glória! nomes como o de Manuel Araújo Portalegre; O Conselheiro Mafra, autor do projecto do monumento a D. Pedro I; Agostinho da Mota, o paisagista notável: Pedro Américo, grande pintor de batalhas, cujo retrato se encontra na galeria Pilti de Florença ao lado do retrato de Ingno; Meireles, o autor da Primeira Missa no Brasil; Zeferino da Costa, o decorador magnífico da Catedral da Candelária. A arte contemporânea, a arte da República, é digna em tudo da arte do Império. Rodolfo Bernardelli enche de monumentos notáveis as praças do Brasil; Amoedo, o pintor histórico notável, Elyseu. Visconti, para quem a pintura não tem segredos e que vai desde o boticelismo até o plenarismo de Besnard. António Parreira, o pintor da floresta e do sertão, João Baptista da Costa, director da Escola de Belas-Artes do Rio dê Janeiro e glória da arte nacional, enriquecem cada dia a pintura dêste grande país; os próprios novos vêem chegando: Latour, o talentoso Lucílio de Albuquerque, o decorador Carlos Oswaldo, Chambelland retratista, aristocrático verdadeiro Lawrence carioca, Navarro da Cesta, marinhista de raro valor, que entre nós se encontra subsidiado pelo seu Govêrno e que tam notável se tem tornado pelo lusitanismo da sua arte. O Brasil, que exerce, nas Américas, a hegemonia literária, não é menos ilustre peias «excelências da sua pintura, da sua arquitectura, da sua estatuária. - Saudando o grande país irmão, não posso deixar de lembrar que alguma cousa
de prático já se tem feito no sentido duma mais íntima confraternização das literaturas e das artes das duas Repúblicas. A Sociedade Nacional de Belas-Artes, de Lisboa, que tam altos serviços tem prestado e está prestando ainda, e cujos estatutos não permitiam que nos salões expusessem estrangeiros, abriu uma excepção para com o Brasil, franqueando as salas da exposição aos artistas brasileiros, como se portugueses fossem. Já é alguma cousa; mas êsse nobre gesto da Sociedade Nacional tem de ser completado pelo Estado Português, para que aos seus generosos intuitos possa corresponder um verdadeiro benefício no campo das realizações práticas. Lamento que o Sr. leader da maioria não tivesse prevenido o Sr. Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, por que a sua presença estava indicada numa sessão em que devia apresentar-se uma proposta, de tam grande alcance, qual é a que respeita ao estreitamento de relações entre Portugal e Brasil.

Se S. Exa. estivesse presente, chamaria a sua atenção e a do Sr. Secretário de Estado das Finanças para a conveniência de ser completada pelo Estado Português a iniciativa da Sociedade Nacional de Belas-Artes, isentando-se de direitos aduaneiros as obras de arte brasileira que se destinassem a exposições ou certames artísticos em Portugal. Sem essa isenção, é inútil esperar que os pintores e os escultores brasileiros pensem em expor no nosso país, porque às despesas de transporte das suas obras acrescerão os onerosos direitos aduaneiros, tam pesados para as obras de arte estrangeiras. E a pintura, a escultura, a arte admirável dêsse grande país continuará inteiramente desconhecida para nós.

Um dia, o barão de Rio Branco, organizando o programa duma festa que devia realizar-se no Rio de Janeiro, incluiu os nomes dos representantes de todas as nações estrangeiras, deixando de mencionar o do representante de Portugal. Quando o nosso Ministro ia delicadamente lembrar-lhe a involuntária omissão, Rio Branco respondeu, sorrindo: — «Para quê? Portugal e o Brasil constituem a mesma pátria!»

Ora eu, Sr. Presidente, faço votos porque essa pátria comum seja em breve uma realidade, e para que, como disse

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