16 DE MARÇO DE 1966 559
comunhão, contactando com povos diversos das cinco partes do Mundo, levaram-lhes a desejada mensagem, acordando neles novas virtualidades e redescobrindo, em muitos casos, o que se julgava ignorado por gentes tão distantes. É assim, não só o Ocidente alargou, sem limite, os limites do horizonte do seu saber, permitindo o sonhar de novos sonhos, como o Oriente, acordado de um sono letárgico de séculos, iniciou novos caminhares.
Infelizmente, povos houve desta velha Europa que também partiram, mas apenas para a conquista da riqueza, usando, como profissão, pirataria desenfreada, deformando assim o sentido espiritualista da missão ocidental. Por isso não nos devemos admirar que nesse ignoto Oriente ainda não se entenda hoje a linguagem daqueles que nunca reconheceram os primores dessas civilizações. Eis a razão também do milagre português, mantendo íntegro, como imorredouro farol, o humanismo cristão das nossas gentes nessas terras longínquas do Sol nascente. Foi necessário, é certo, o sacrifício de muitos e em todos os tempos para que o mundo pudesse reconhecer que a nossa presença foi sempre; apenas e só para iluminar e para trazer ao bom caminho todos os que ignoravam a Grande Verdade. Deus permita seja breve o impasse que escurece hoje as terras do Indostão, e que rosas de ouro em profusão venham atapetar o caminho do arrependimento de tão maus pastores, esse mesmo caminho desbravado, há séculos, por um santo missionário da palavra de Cristo.
Ficará então mais viva do que nunca a presença de Portugal e do ocidente cristão nesse ignoto Oriente, e o exemplo das suas gentes no martirizado território de Goa será, decerto, fértil semente para novos e árduos cometimentos.
A forte erupção materialista que irrompeu, na Rússia, em 1918, e que se generalizou depois à China no fim da última conflagração mundial, dominando quase um bilião de entes humanos, bem como o foco de incomensurável fulgor técnico e económico do capitalismo ocidental, definiram, na realidade, no mundo de hoje uma panorâmica política e económica totalmente nova na vida do povos evoluídos e subevoluídos, e isto em qualquer canto, por mais recôndito que o seja, do nosso planeta.
Façamos, para melhor compreensão do momento que passa, o ponto nesta confusa panorâmica. Vejamos então o que se nos afigura de mais significativo, nesta óptica de tão larga projecção, para se definirem tendências políticas e económicas consequentes das inúmeras linhas de força actuantes, algumas delas, até, por vezes, pouco evidentes, embora possuindo forte virulência.
E para tal talvez não seja de mais dizer algo sobre o seu processo de formação.
O silvo da máquina a vapor teria sido o primeiro aviso, embora muito recuado, da nova era. Depois seguiram-se, em cadência cada vez mais veloz, os diferentes passos do novo rumo sob o signo materialista.
Captações de energia sucessivamente mais produtivas e trabalho transformador mais profícuo. Racionalização de métodos de gestão e de trabalho, dando à empresa condições de progresso que a elevaram à situação culminante de principal instituição da revolução industrial.
Aproveitamento progressivo e incessante de metais e de metalóides extraídos das entranhas da terra para o fabrico de novas máquinas e dos inúmeros instrumentos que constituem hoje o complexo e extenso arsenal das unidades fabris, bem como para outros e variados consumos.
Foram estes alguns dos passos mais salientes.
E quando rarearam os materiais referidos e a terra não se mostrava já capaz de produzir novas matérias-primas no quantitativo desejado, venceram-se essas dificuldades à base de inúmeros sucedâneos criados pelo engenho de uma nova e progressiva alquimia.
Paralelamente à exploração do solo para o alimento de indústrias, a agricultura, como indústria que é das mais antigas, foi saindo, lentamente, dos seus processos rotineiros, não permitindo, contudo, a sua menor produtividade, isto no caso mais geral, que os trabalhadores da terra acompanhassem o nível social dos seus pares das indústrias de manufactura. E a terra, cada vez mais gasta por uso quase mineiro, diminuiu, a olhos vistos, de potencialidade produtiva, criando assim graves problemas de erosão e desequilíbrios pronunciados na harmonia da Natureza.
Assim se geraram profundas perturbações nas bacias hidrográficas, e isto em todas as latitudes, bem como alterações sensíveis nos ambientes climáticos, reduzindo a área já deficiente da terra emersa susceptível de produzir sustento e agasalho. E a falta de alimento levou a procurar intensificar a pesca, realizando-se verdadeiras lavras dos planaltos oceânicos, numa exploração quase esgotante, por erosiva, das riquezas piscícolas.
Quanto a comunicações, constituiu-se, progressivamente, densa rede Capilar, unindo veias e artérias em apertados laços. Os espaços e os tempos deixaram assim de pesar no domínio das distâncias a vencer nos contactos dos povos. Contudo, as disparidades de crescimento criaram e tornaram mais nítidas as assimetrias espaciais no mundo da economia, com as consequentes incidências em vários aspectos da vida humana.
Estes alguns dos aspectos mais salientes da evolução do processo tecnocrata materialista iniciado com o silvo da máquina a vapor e que na Norte América teve a expressão mais significante.
No extenso território asiático, onde se situa a maioria da população do Globo, gerou-se, como disse já, outro foco materialista, da maior evidência, dominando aí 1/100 dos viventes cerca de um terço da população da Terra.
É este, fora de dúvida, o bloco mais populoso. E aí o materialismo brutal permite, como apontei, que minorias reduzidas dominem, totalmente, espaços e populações imensas. É o vasto império comunista, emitindo hoje numerosos tentáculos socialistas lançados nas mais variadas direcções e sentidos para a conquista dos espaços, digo melhor, das riquezas e das posições estratégicas ainda hoje fora do seu domínio.
Foi, porém, da velha Europa donde irradiou a civilização ocidental e é a partir dela que poderá ainda erguer-se um terceiro mundo, árbitro político do momento presente.
Constituindo pequena e recortada península da grande Ásia, desde séculos que foram projectadas, em horizontes distantes, as fronteiras da sua transcendente missão. E para sucesso desta foi sempre entendido que o continente africano e as margens do grande mar interior formassem um único bloco de irradiação missionária. Foi esta a política que teve, no passado, como mais sublime intérprete, o infante de Sagres, e que a sapiência política do genial estadista que preside hoje aos destinos da Nação Portuguesa, e quem sabe se aos da própria Europa cristã, soube dar vivência excepcional, e nas condições mais adversas, neste período tão conturbado da história universal. Por isso a Europa está sofrendo ataques intensos que lhe dirigem as forças materialistas do mundo contemporâneo.