16 DE MARÇO DE 1966 561
dos mais variados na vida social dos povos. E a política, para perdurar, não pede alhear-se, como é óbvio, do clima da ambiência em que a arte de governar retira as suas visíveis ou invisíveis virtualidades.
O que fica dito ilustra, julgo, com clareza, a razão de ser do valor que é hoje atribuído pela política à ciência económica e aos seus cultores, englobando, como é evidente, a ciência financeira. Assim, os processos inflatórios e deflatórios, manifestações doentias da saúde económica dos povos; a produtividade dos investimentos e a constituição destes por racional poupança; a rentabilidade dos factores de produção, função da dimensão das unidades empresariais e da extensão dos mercados; as características que revestem as situações marginais; o valor da relação capital-produto como indicador da rentabilidade, como as circunstâncias que exprimem a liquidez ou a fluidez financeiras e que condicionam a maior ou menor maleabilidade na gestão, com as consequentes implicações directas ou indirectas no crescimento económico, são, tudo, além de outros, conceitos que os políticos conscientes deverão ter, hoje, bem presentes nas tarefas essenciais da governação.
Assim, vemos, nos nossos dias, blocos gigantescos quanto ao seu potencial económico e financeiro, como o norte-americano, submetidos, periodicamente, a uma verdadeira medicina preventiva, permitam-me a expressão, compreendendo análises das mais diversas, que a economia engendrou, incluindo aquelas que só cérebros privilegiados apoiados na electrónica poderiam congeminar. E logo que surgem os resultados analíticos começa, então, um longo esforço da medicina curativa, a fim de evitar que crises periódicas da saúde económica possam atingir a intensidade daquelas que provocaram, por exemplo, tantos estragos na vida da grande nação americana após o findar da guerra de 1914-1918.
Outros países que já foram potentados económicos, como a Grã-Bretanha, hoje decepada, por erradas políticas, de precisosas fontes de rendimentos fundamentais ao seu equilíbrio económico e financeiro, lutam também desesperadamente para manter o seu vigor, procurando através de estímulos à exportação aguentar a moeda já decrépita.
E então chega-se ao contra-senso de se assistir, por um lado, ao apelo à iniciativa privada para melhorar os métodos de gestão e estimular as exportações, permitindo mais favoráveis condições de êxito na competência internacional, e, por outro, ameaça-se a própria essência dessa iniciativa, levantando como bandeira de partido, em actos eleitorais, o desenvolvimento das nacionalizações dos principais meios de produção. Mas isto são tudo circunstâncias que não só afectam os grandes da Terra ou os que já o foram, em época recente, como também os medianos e os pequenos. Não vale, porém, referir os reflexos destas crises nestes últimos, pois bastará para concluir sobre os seus casos mudar tão-sòmente a escala.
Para além da "cortina de ferro" estes problemas revestem também igual acuidade. E assim é que, nas sombras da sua intransponível muralha, submetidos a um desumano regime de escravatura, mineiros de todas as raças vão intensificando, afanosamente, a extracção do ouro, procurando-se, assim, compensar os desaires consequentes dos erros de base da economia marxista pagando, por exemplo, com esse vil metal o precioso trigo.
Trigo não só destinado ao sustento dos povos, mas também para que os potentados do marxismo possam constituir as necessárias reservas estratégicas, indispensáveis ao prosseguimento favorável da guerra fria. Por esta forma transitaram recentemente centenas de milhares de toneladas de cereal americano e canadiano dos silos descobertos que se levantam, majestosamente, nos seus grandes centros produtores e portuários para os depósitos subterrâneos russos, construídos à prova das explosões atómicas, em locais que o Ocidente desconhece.
E assim vai o Mundo, digo, nesta luta pela sobrevivência dos grandes da Terra. Aqueles que, como disse, em discurso já pronunciado nesta Assembleia política, dividiram certamente os espaços terrenos para seu exclusivo uso, após um novo Tordesilhas, que ficará possivelmente na história deste século com a designação de KK, iniciais dos seus dois subscritores.
Não nos devemos iludir, pois, atendendo à sua índole, com aspectos particulares desta luta titânica a que estamos assistindo, com pormenores que não definem directrizes fundamentais, pois estes são, apenas, pequenos avanços ou recuos consequentes do jogo das gigantescas forças em presença.
Há, porém, que procurar as verdadeiras causas das principais mutações.
São assim, por exemplo, os casos da dança dos Tchombés no Congo, das saídas e entradas dos N´Krumas nos Ghanas e Guinés, que o Dr. Augusto de Castro, príncipe do jornalismo português, pôs, com admirável ironia, no artigo "Ku-Kru em África", o insucesso completo das conferências carnavalescas de Adis Abeba, os recentes golpes militares que se verificaram, em cadeia, no continente negro, bem como todos os movimentos anticolonialistas onusianos, cenas de um verdadeiro teatro de marionnettes à escala mundial.
Todo o mundo sabe, hoje, porém, quem puxa, atrás da cena, os cordelinhos.
Da leitura do parecer, minuciosamente elaborado pelo relator das Contas Gerais do Estado, feito, como disse, com a maior independência e equilibrado senso crítico, pode, em síntese, afirmar-se que a Nação Portuguesa, no decurso da difícil conjuntura que atravessa, tem mantido, com um ritmo apreciável, o crescimento económico, tendo em atenção as possibilidades que o meio físico e as condições de trabalho facultam às gentes de várias raças que formam o Império Português.
Embora certos aspectos, como o desequilíbrio acentuado da balança comercial da metrópole e da de Moçambique, constituam pontos fracos a corrigir sem demora no sistema em que se apoia a extensa zona do escudo, e a falibilidade, melhor, a incerteza de um certo número de réditos que fazem parte do sector dos invisíveis, como as receitas do turismo e as transferências privadas de fundos dos emigrantes, possam, por circunstâncias imprevistas, diminuir, o que é facto indiscutível é que a sólida estrutura financeira da Nação, constituiu, e constitui, nesta difícil conjuntura que o País atravessa, o principal fundamento do inegável sucesso conseguido.
Nela se apoiou, como é sabido, a solidez da nossa moeda, condição fundamental de êxito quando houve necessidade, para suporte da acção militar, de aumentar, por forma significante, os encargos com a manutenção das forças armadas.
Nela se apoiou o ambiente favorável criado no mundo financeiro internacional em relação às possibilidades nacionais, favorecendo certas operações de crédito por parte de entidades estrangeiras.
Nela se apoiou a oportuna acção dos departamentos responsáveis da economia para diminuir a velocidade de elevação do custo de vida, facultando, em condições vantajosas para o consumo interno, as necessárias importações de géneros alimentícios, bem como de máquinas, utensílios vários e outros bens de equipamento para me-