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16 DE MARÇO DE 1966 563

anos, em região hoje muito avançada, mas então em franca situação de subdesenvolvimento económico.

E essa história, que pode aplicar-se tanto ao Douro como ao Cuanza-Bengo, ao Tejo como ao Cunene, ao Mondego como ao Zambeze, ao Vouga como ao Limpopo, não se refere, na realidade, a nenhuma destas parcelas cujo integral constitui grande parte do território da Nação, mas a elas pode aplicar-se, de facto, em muitos dos seus aspectos, se for bem compreendida.

Eis por que a conto, certo de que os bons timoneiros que orientam superiormente a cultura, a economia, a vida social, a obra pública, as actividades circulatórias e as relações com o ultramar estarão de acordo com o que nela se contém, julgando assim decerto útil que a apresente com o devido realce nesta Assembleia política.

E, para evitar que exageremos, enriquecendo, apaixonadamente, pormenores, sigamos, passo a passo, o texto escrito por simples operários das Trade Unions norueguesas que visitaram e viveram, durante vários dias, no local onde a cena se desenrolou, a experiência feita por um punhado de homens empenhados em dar alegria e felicidade a irmãos tocados, há muito, pela dor e pela tristeza. No Report from Amenoa, publicado pela delegação das referidas Trade Unions que visitou os Estados Unidos, lê-se, em relação ao Tennessee Valley, mais ou menos o seguinte:

No vale do Tenessi qualquer indivíduo pode aprender como o homem, destruindo os recursos naturais, é conduzido infalivelmente à pobreza, e como o mesmo ser humano, dominando as forças da Natureza, as pode utilizar para a criação de novas condições de prosperidade. Os nossos compatriotas, diz a delegação das Trade Unions, têm muito que aprender neste vale, hoje de resto tão conhecido em todo o Mundo como exemplo que convém imitar.

Porque esta história nos conta a transformação da pobreza em relativa prosperidade, pela utilização da energia das águas correntes, recurso natural que a Noruega tem com a maior abundância, compreende-se o interesse que ela tem para o público desse país. E acrescentarei, mas agora da minha lavra, que isto foi dito e escrito por operários de uma nação com 2800 kWh por habitante. Parece, pois, legítimo dizer que nós, portugueses, com uma capitação muito menor, muito mais teremos a aprender ouvindo este conto.

Já lá vão 150 anos a partir do dia em que chegaram a um vale quase desconhecido da Norte América os primeiros colonos dispostos ao trabalho rude de desbravar. Começaram por limpar os matagais que cobriam as baixas, iniciando, assim, pouco depois, em horizontes mais rasgados, as culturas, que já lhes eram familiares, do tabaco, do algodão e do milho, especialmente as destas duas últimas espécies. Fizeram, entusiasmados, um cultivo activo e esgotante, durante os primeiros tempos, com resultados assaz satisfatórios. E, durante várias décadas, houve terra suficiente para todos, com uma expio- ração esgotante do tipo mineiro. A vida, embora simples, foi, contudo, feliz durante esses primeiros tempos.

A floresta começou a ser, porém, progressivamente cortada, e os campos de milho então treparam pelas encostas. Chegou, assim, o dia em que acabou o manancial de terra virgem. E então começou o triste reinado da pobreza. O solo esgotado começou a criar gente pobre, e uma população ignorante foi gerando, progressivamente, uma terra menos fértil e produtiva. Estava, assim, formado o ciclo vicioso de miséria.

As culturas alternadas eram então desconhecidas nesta região, enraizando-se cada vez mais a ideia nas gentes do Tenessi de que a prosperidade estava unicamente na cultura do algodão nas planícies e na do milho nas encostas. Durante outonos e invernos sucessivos o solo ficou nu ou coberto apenas por magras espontâneas, e exposto à acção destruidora do vento e das intempéries. Nenhum cultivador utilizava a terra durante os largos períodos que se seguiam às colheitas.

Uma agricultura deste tipo haveria, fatalmente, do declinar em valor, mas no vale do Tenessi a ignorância antecipou a catástrofe em resultado de as chuvas muito intensas apressarem o mal, destruindo, rapidamente, as boas terras e .assoreando extensos e férteis territórios. Como consequência de todos estes desatinos do homem davam-se, com frequência, cheias violentas em vários rios afluentes do Tenessi e isto verificava-se mesmo no rio principal, logo após poucas horas de chuva. E, como resultado final, o empobrecimento rápido desse desgraçado povo.

Este ciclo de pobreza agrária teria, porém, que ser quebrado num país progressivo como este. Mas isto só se conseguiria introduzindo novos métodos de cultura da terra com rotações adequadas e substituindo a monocultura do algodão e do milho por cultivos mais variados. Os trevos e outros vegetais herbáceos deveriam vir a cobrir encostas para evitar o arrastamento das terras para os vales. E seria necessário, também, novamente difundir a floresta por muitas encostas desarborizadas.

Ao mesmo tempo era indispensável regularizar os leitos dos rios, por forma a evitar os graves prejuízos das cheias. Mas, se não era fácil levar a cabo qualquer destas tarefas, ainda era muito mais difícil efectuá-las em conjunto. Já estava enraizada uma tradição de 150 anos de cultura do algodão e do milho, e toda esta gente tinha a sua vida adaptada a estes cultivos, sendo pouco permeável a novos métodos de granjeio, especialmente no que se refere à criação de gado, cultura das árvores de fruto, horticultura e outras. A agravar este triste quadro é ainda de dizer que o empobrecimento tinha levado esses povos a um grande atraso de instrução, havendo já inúmeros analfabetos e uma grande percentagem de inaptos para a assimilação de inovações técnicas.

Foi em 1932 que se deu o início da sonhada reviravolta, com a eleição do Presidente Franklin Eopsevelt para a primeira magistratura da Nação. O Congresso dos Estados Unidos aprovou, pouco depois, uma lei criando a Junta Autónoma do Vale do Tenessi - a T. V. A. -, organismo ao qual competia o estudo do plano de aproveitamento dos recursos naturais de todo esse vale e sua posterior execução.

A T. V. A. seria, conforme a ideia do Presidente Boosevelt, uma corporação possuindo todos os poderes necessários para o aproveitamento racional dos recursos naturais da bacia hidrográfica do rio e com o único objectivo de elevar o nível de vida da sua população.

Até essa data, nos Estados Unidos já se tinham realizado inúmeras obras hidráulicas e hidroeléctricas e ainda em muitos casos trabalhos vários para se evitarem os malefícios das cheias. Mas neste novo esquema teria tudo isto de ser feito, num conjunto devidamente encadeado e escalonado, para o aproveitamento integral dos recursos da bacia hidrográfica. Teria assim que surgir uma nova agricultura, uma floresta melhorada e ampliada, um aproveitamento integral dos minérios do subsolo e um povo melhor iluminado pela instrução geral e técnica. Em suma, como resultado final, uma vida nova, mais feliz, para cerca de 2 milhões de habitantes, tantos, digo de passagem, como os que povoam, hoje, grande parte do nosso árido Sul.

E o que foi feito, para tal conseguir, pela T. V. A.?