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8 DE JULHO DE 1988 4621

Ora, pergunto-lhe se acha que se pode fazer política sem informação técnica capaz.

Aplausos do PRD e do PS.

O Sr. Presidente: - Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado Ângelo Correia,

O Sr. Ângelo Correia (PSD): - Sr. Presidente, Sr. Primeiro-Ministro, Srs. Membros do Governo, Srs. Deputados: Portugal encontra-se, concretamente, há cerca de um ano e meio, a disputar uma prova de contra-relógio consigo mesmo e com a sua história e que resulta da assinatura do Tratado de Roma, da presença de Portugal na CEE como membro de pleno direito.
Um país cuja administração fiscal e pública é débil, cuja capacidade de formação e de educação era escassa, cujo ritmo de desenvolvimento era lento, cuja arritmia e dessincronização entre desejo de consenso, em termos privados ou públicos, e a capacidade de o sistema produtivo responder às necessidades de consumo, era manifesta, um país com distorções e com dificuldades aceitou um desafio. O desafio chama-se Europa, chama-se modernização. Este Governo assumiu-o com uma componente adicional: a solidariedade.
O Governo tinha duas vias, dois caminhos, para operar aquilo que considera no seu programa, na sua desejabilidade, a acção de modernização. Um desses caminhos era lento, escolhendo áreas em concreto, apoiando-se em concreto em cada domínio, em cada área, para resolver o problema em concreto, deixando outras questões lateralmente aguardando melhores tempos. Com este caminho encontraria, porventura, uma situação menos tensional, menos problematizada, menos criadora de circunstâncias difíceis e, até, de incompreensões. Era um método seguro, mas lento, moroso e quando se chegasse a 1992, algumas das reformas estariam feitas, mas o país não estaria preparado para o embate desse mesmo momento.

Vozes do PSD: - Muito bem!

O Orador: - O país optou por uma segunda via, a de atacar, simultaneamente, em todos os azimutes, um conjunto de áreas, de problemas, de distorções, de disfuncionalidades, de anomalias. O ataque a esses problemas e o seu transporte e projecção na sociedade portuguesa, nas classes e estratos sociais concretos que correspondem à sociedade portuguesa, é óbvio que implicam mais tensões, mais dificuldades, maiores antagonismos.
O caminho que o Governo escolheu é o mais difícil politicamente mas, politicamente, também é o caminho mais sério.

Vozes do PSD: - Muito bem!

O Orador: - É o caminho mais difícil que, eventualmente, provoca algumas tensões, incompreensões, algumas críticas e azedumes, mas é o único caminho - disso estou crente e, no futuro, o país também o poderá estar - que é mais justo, mais correcto, mais lógico, para sermos modernos.
O sacrifício de hoje, a incompreensão de hoje, pode ser a justiça e o progresso para o amanhã.

Vozes do PSD: - Muito bem!

O Orador: - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Esta interpelação - utilizo o conceito terminológico utilizado pela oposição - está, no meu ponto de vista, fundada em alguns equívocos e alguns paradoxos.
Começo pelo primeiro paradoxo, levantado pelos Srs. Deputados da oposição quando falaram da utilização excessiva, abusiva e quase manipuladora, pelo Governo e pelo PSD, dos órgãos de comunicação social. É um paradoxo que seja quem sabe, aliás, como o país sabe, que às vezes no passado, da sala dos Ministros se controlava o Telejornal, venha hoje fazer a acusação de que este Governo o queira fazer ou que mesmo o faça.

Vozes do PSD: - Muito bem.

O Orador: - É paradoxal que seja quem sabe que na prática se utilizou tudo isso, hoje em dia, venha fazer uma acusação dessas.
Mas o que está em causa por detrás dessa falsa acusação é uma questão política altamente relevante e que é a de, em Portugal, a comunicação social, os jornalistas, os analistas, irem, sobretudo, atrás de quem produz factos que interessam à opinião pública.
Aqui está a sincronia posicional em Portugal, que é a de, relativamente ao Governo, a oposição sentir, como o sente a comunicação social, que ele pode produzir factos. Diária, semanal e mensalmente o Governo produz coisas que os portugueses sentem: obras, realizações, legislação, acção.
Enquanto isso, a percepção que a opinião pública tem da intervenção política da maior parte da oposição é, apenas, o facto de a oposição dizer: «Governo de Cavaco Silva é incompetente, está mal, está tudo mal!»
Há aqui, por parte da opinião pública, um grau de percepção completamente diferente em relação à sua própria valoração do facto político: da oposição, a opinião pública recebe crítica permanente, sem que a opinião pública perceba qual seria o contraponto que a oposição daria a esses mesmos problemas; da parte do Governo, a opinião pública sente concretização, um élan de vontade, um conjunto de obras, seguramente com erros, defeitos, imperfeições, mas sente que há um dinamismo subjacente à acção do Governo e o élan e a concretização são substancialmente diferentes.

Aplausos do PSD.

Srs. Deputados da oposição, o que está em causa na vossa percepção relativamente à opinião pública e à comunicação social é que nela só projectam aquilo que de mais negativo ela não gosta de ouvir. O Governo projecta nela aquilo que de positivo e esperançoso, todos nós, mesmo por pouco, queremos ouvir e sentir.
Por isso, o problema foi mal colocado pela oposição e, do meu ponto de vista, sê-lo-á na exacta medida em que o PS continuar a comportar-se com o seu imaginário cortado do país real.
O problema básico do discurso do Partido Socialista, hoje, é o de ter criado um imaginário que pouco tem a ver com o país real e quando, porventura, em alguns momentos o tem, o PS só consegue atacar o problema pela superfície, sem conseguir chegar à essência.

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