O texto apresentado é obtido de forma automática, não levando em conta elementos gráficos e podendo conter erros. Se encontrar algum erro, por favor informe os serviços através da página de contactos.
Não foi possivel carregar a página pretendida. Reportar Erro

1242 I SÉRIE - NÚMERO 43

Foi um trabalhador da escrita a tempo inteiro, sem férias nem licenças. Morreu no seu posto de trabalho. Apagou-se o homem, mas continua a iluminar a escrita.
A Assembleia da República, na sua primeira reunião após o triste acontecimento, curva-se reverentemente, e em respeitoso silêncio, perante a memória de um grande português.

Dou a palavra a quem a solicitar, por um período de três minutos, para se pronunciar sobre este voto.
Tem a palavra a Sr.ª Deputada Teresa Patrício Gouveia.

A Sr.ª Teresa Patrício Gouveia (PSD): - Sr. Presidente, Sr. Primeiro-Ministro, Srs. Membros do Governo, Srs. Deputados: Virgílio Ferreira morreu. Entrou, como ele próprio anunciara, no Paraíso a escrever. A morte de Virgílio Ferreira constituiu uma dura perda para a cultura portuguesa, mas também a perda do convívio com o homem de grande estatura moral e cívica para todos os portugueses.
A sua obra e a sua vida significaram o confronto, essencialmente humanista e moral, do homem com a sua condição. Uma experiência que ele soube transformar num exemplo de integridade pessoal e numa obra literária central da cultura portuguesa deste século.
Como nos disse Eduardo Lourenço, o seu grande amigo, "conferir um sentido à vida quando se considera absurda foi a aposta que Vergílio Ferreira ganhou". Eu acrescentaria que ela ganhou também um pouco para todos nós e para cada um de nós.
Assim, gostaria de associar-me sentidamente a esta homenagem, em nome do Grupo Parlamentar do PSD.

Aplausos gerais.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado José Calçada.

O Sr. José Calçada (PCP): - Sr. Presidente, Srs. Membros do Governo, Srs. Deputados: Vergílio Ferreira morreu, foi um grande escritor. Em bom rigor, o que é legítimo dizer é que é um grande escritor. Não faz sentido dizer que Camões foi...
A sua posição no mundo cultural e literário português, já que não faz sentido atribuir classificações como se de um campeonato se tratasse, deixamo-la à consideração da História. Marcou, no entanto, o bastante pára que justifique aqui a posição da Assembleia da República e da nossa bancada.
É de todos conhecido que, ao longo dó evoluir da história recente de Portugal, nos planos político ou cultural, algumas coisas nos uniram a Vergílio Ferreira e outras também dele nos separaram. Mas não é isso que está agora em balanço.
Morreu um grande escritor. Somos solidários com a continuação da sua existência.

Aplausos do PCP, do PS e do PSD.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Joaquim Sarmento.

O Sr. Joaquim Sarmento (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Morreu Vergílio Ferreira. Certamente, todos concordarão que Vergílio Ferreira era um dos maiores escritores portugueses do nosso século, quiçá, na minha modestíssima opinião, o maior romancista português do século XX.
Romances como Aparição, Alegria Breve, Para Sempre, Até ao Fim, Em Nome da Terra, Na tua Face e tantos outros constituem monumentos do deslumbre da escrita literária. Foi também Vergílio Ferreira um notável pensador, como prova a vastíssima e riquíssima obra ensaística que nos legou. A tensão dramática da sua interrogação permanente sobre o nosso destino humano, tantas vezes a atravessar-nos num desamparo total e no limite do suportável, faz de Vergílio Ferreira uma referência profunda da cultura lusíada e do património de toda a humanidade.
Naturalmente, Vergílio Ferreira, era também um homem da liberdade, da democracia, de notável estatura humana, moral e humanística, tantas vezes estigmatizada pelo Estado Novo e pela crítica do neo-realismo, por vezes intolerante para com os seus referenciais e valores.
É, pois, justo que, a Assembleia da República o recorde com ternura e afecto.
Dizia o grande ensaísta Eduardo Lourenço que gostaria de terminar a sua vida num convento em que o Padre director fosse Álvaro de Campos. Eu acrescento: concordo inteiramente com essa bela metáfora, mas que nesse convento se estudasse a obra fascinante de Vergílio Ferreira, a quem comovidamente presto a minha homenagem, em nome da bancada do Partido Socialista.

Aplausos do PS e do PCP.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Nuno Abecasis.

O Sr: Nuno Abecasis (CDS-PP): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Quem sou eu para classificar Virgílio Ferreira como escritor. Ele está escrito por si próprio, com as suas próprias palavras, com o seu valor na História de Portugal como uma das maiores figuras literárias que conhecemos.
Queria aqui dizer alguma coisa de pessoal sobre Vergílio Ferreira: foi professor de quatro dos meus filhos no liceu Camões, em Lisboa, onde, aliás, eu e toda a minha família estudámos. Penso que aí Vergílio Ferreira deu uma outra dimensão: a de cidadão, de professor, de mestre que abriu a inteligência e a alma dos seus alunos para essa riqueza que para um país representa a literatura. Podia não tê-lo feito, podia ter escondido com a sua arte e reservá-la para si, mas Vergílio Ferreira distribuiu-a abundantemente pelos milhares de alunos que teve num dos principais liceus de Lisboa.
Há uma frase notável, que nos dá que pensar, que ele escreveu e que dizia aos seus alunos: há duas coisas que não percebo, acontecem, uma é a vida, outra é a morte.
É curioso que Vergílio Ferreira, que teve uma vida tão operativa, tão útil para todos nós seus contemporâneos e para aqueles que nos hão-de suceder, não entendesse a vida. A sua vida deu frutos e dará ainda mais.- A morte inscreve-o para sempre na nossa memória.
É isto que o meu grupo parlamentar quer aqui traduzir, salientando, para lá do artista e do escritor, o homem extraordinário que foi Vergílio Ferreira.

Aplausos gerais.

Tem a palavra a Sr.ª Deputada Isabel Castro.

A Sr.ª Isabel Castro (Os Verdes): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Em nome do Grupo Parlamentar do Partido Ecologista Os Verdes, também eu me associo a este voto.
A perda de Vergílio Ferreira é a perda de alguém que se apropriou, com particular rigor, da língua portuguesa, de alguém de extrema sensibilidade, de alguém que, com inquietude, interferiu em áreas extremamente complexas do