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2660 I SÉRIE - NÚMERO 80

acentuando que tudo se resolveria pelo negocismo ou pelo entendimento. Repetidamente, foi dando mostras de ter uma paciência infinita para adiar tudo ou quase tudo.

Vozes do PSD: - Muito bem!

O Orador: - Mas, ao mesmo tempo, verificou-se que o Sr. Primeiro-Ministro celebrou compromissos eleitorais que excediam e excedem claramente as possibilidades do seu Governo. E, perante este quadro, o Sr. Primeiro-Ministro só tem um de dois caminhos: ou apresenta factos consumados, ou consegue convencer os demais partidos da oposição.
O que o Sr. Primeiro-Ministro não pode é condenar tudo e todos por alguns não quererem pactuar com aquilo que ele próprio entende serem soluções justas mas que os demais consideram afrontas à igualdade.
O Sr. Primeiro-Ministro indispõe-se e farta-se porque está à frente de um Governo minoritário e não quer convencer-se do óbvio.
O Sr. Primeiro-Ministro não pode querer dar mostras de inventar a pólvora, de decidir pela bondade dos seus compromissos e medidas e de evitar a critica e a oposição.

Aplausos do PSD.

Mas o Sr. Primeiro-Ministro não pode ficar-se pela atenção a quem o não acompanha. Tem ainda o Trabalho ingrato e adicional de convencer o seu próprio Governo.
Se o Sr. Primeiro-Ministro fizesse um esforço por reconhecer os ensinamentos de Platão e Sócrates poderia reflectir, por exemplo, sobre a natureza tripartida da alma. A alma, diziam aqueles filósofos, assemelha-se a um carro alado, puxado por dois altivos corcéis - um branco e outro negro - dirigidos por um auriga moderador. O cavalo branco simboliza o ânimo ou a tendência nobre da alma; o negro, o apetite ou a paixão baixa; o auriga, a razão que deve comandar e ordenar todo o conjunto.
Na construção da decisão política há sempre quem esteja de um lado e de outro, há sempre quem defenda a preocupação pela igualdade e quem defenda a paixão demagógica. Se os segundos vencem os primeiros, pobre do decisor. Ganhou nesse dia, porventura, muitos adeptos que festejam a vitória de uma pressão exercida nesse momento, recompensada com os ganhos correspondentes. Perdeu todos quantos entendem não dever ceder no essencial que tenha a ver com os seus princípios ou com o desequilíbrio do edifício comum.

Aplausos do PSD.

Há coisas que o Sr. Primeiro-Ministro não pode decidir pelo mais fácil; há promessas que o Sr. Primeiro-Ministro não pode cumprir.
Somos levados a aceitar que, da parte do Sr. Primeiro-Ministro, às vezes, não há sequer uma intenção danosa. Talvez haja apenas impreparação e ingenuidade. Afinal, há de facto alguns problemas muito difíceis de resolver.
O Sr. Primeiro-Ministro tem de reconhecer, como implicitamente o fez já, pelo menos em duas ocasiões, que nem tudo o que foi prometido é possível. A acreditar nos interessados, a amnistia a Otelo e o negócio da transmissão do sinal de televisão revelaram-se impraticáveis nos termos convencionados.
Governar em minoria não é formular uma vontade e impô-la contra a lógica das coisas, a evidência ou o interesse do pais. É aí que o Sr. Primeiro-Ministro também se engana.
Mas, afinal, o Partido Socialista tem aquilo que pretendia. Nem mais, nem menos. Pediu estas condições ao povo e o povo conferiu-lhas. Seria agora terrível que viesse dizer que se enganou, que não sabe o que fazer.
Compreendemos que o Sr. Primeiro-Ministro queira transferir as culpas para a oposição. Quando o Governo é encarado publicamente como um palco de confronto entre os que são socialistas e os que professam independência, o Sr. Primeiro-Ministro sofre.
Quando um ministro celebra um compromisso e outro ministro dele se afasta, o critica e quer corrigir, o Sr. Primeiro-Ministro adoece.
Quando um ministro polaróide fala quando devia estar calado e sé cala quando devia falar, o Sr. Primeiro-Ministro esgota o chá de tília.

Aplausos do PSD.

Quando um ministro pune sem culpa e perdoa por fraqueza, o Sr. Primeiro-Ministro tem uma vertigem.
Quando um ministro se transforma em grande educador de qualquer classe e ostensivamente menospreza os que dele dependem, ao Sr. Primeiro-Ministro dá-lhe vontade de partir de novo para o Brasil.
Quando um ministro da educação não tem outra novidade que não seja a cartilha maternal, o Sr. Primeiro-Ministro transporta-se à infância eterna.
Quando um ministro existe apenas como ficção científica, ao Sr. Primeiro-Ministro apetece-lhe desaparecer.
Quando um ministro do emprego serve apenas para anotar o crescimento estatístico do desemprego, o Sr. Primeiro-Ministro sente desejos de emigrar para o Luxemburgo.

Aplausos do PSD.

O Sr. Primeiro-Ministro quase ficaria melhor se parte do seu Governo passasse a ser oposição. Ao menos clarificavam-se as coisas e sabia quem tinha do seu lado ou contra ele. Assim, o sofrimento é permanente.
Por estas e por outras, o Partido Social Democrata está preocupado com a ausência de rumo estratégico e solidez política do Governo demonstrada nos últimos tempos. Sem esta solidez, as decisões sobre questões essenciais tardam. Temos a sensação de passar o tempo em controvérsias estéreis alimentadas, como cortinas de fumo, pelo próprio poder.
Ainda ontem, quando pretendia responder às oposições, o Sr. Secretário de Estado penitente não conseguiu senão mencionar duas pálidas amostras de decisão do Governo em sete meses. E francamente pouco.
Depois, tudo se consome em tentativas, tudo se procura realizar aos solavancos. Não faltará muito tempo para que nas áreas próprias dos anúncios classificados os cidadãos encontrem estupefactos o último dos anúncios julgados possíveis. A todo o tamanho de uma página de um branco imaculado, rezará o texto: Ministros procuram-se! Governo precisa-se!

Aplausos do PSD.

O Sr. Presidente: - Para pedir esclarecimentos, tem a palavra o Sr. Deputado José Magalhães.

O Sr., José Magalhães (PS): - Sr. Presidente, Sr. Deputado Carlos Encarnação, V. Ex.ª apresentou-se hoje perante o Plenário para fazer, aparentemente, uma de

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