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0160 | I Série - Número 005 | 26 de Abril de 2002

 

Mas não sei se haverá entre nós alguém que possa testemunhar daquelas que foram, creio, as mais marcantes manifestações do imenso talento de Armando Cortez. Refiro-me às suas grandes interpretações no palco, numa extraordinária carreira que se iniciou ainda não tinha 20 anos, no final dos anos 40, e de que ficarão na memória colectiva dos verdadeiros amantes do teatro, tenham ou não assistido a essas representações, o pungente monólogo de Lucky em À Espera de Godot, de Samuel Beckett, ou inesquecíveis desempenhos que protagonizou no Teatro Moderno de Lisboa, de que foi co-fundador e que, como Luís Francisco Rebelo recordava há dias no Jornal de Letras, foi «o embrião de todos os grupos independentes que surgiram a partir de finais dos anos 60, coincidindo com a agonia do salazarismo».
Versátil, dominando com naturalidade todos os registos dramáticos, Armando Cortez será talvez recordado como um espantoso actor de comédia, um repentista nato, criador de expressões de que o povo português se apropriou carinhosamente, como o célebre «Já é uma hora?! Que grande banquete!», que a dupla Cortez-Nicholson inventou nos anos 70, numa emissão de Riso e Ritmo, o primeiro programa semanal de humor da televisão portuguesa, em que se viriam a inspirar sucessivas gerações de comediantes.
Mas além de actor, Armando Cortez foi também, como aqui já foi dito, tradutor de reconhecido mérito, autor e encenador, evidenciando em todas estas facetas um carácter de excepcional generosidade e de sentido de camaradagem que se explicam no profundo desapego que nutria pelas coisas materiais. Pessoa de grande modéstia, homem de pouca ambição, embora inteligente e culto como poucos, passou-lhe ao lado uma carreira de facilidades e honrarias que outros, de menor mérito, alcançaram.

Vozes do PSD: - Muito bem!

A Oradora: - Morreu tranquilo, depois de muitos anos de lúcida resistência à doença que teimava em persegui-lo. Morreu, por um acaso, na Casa do Artista, sonho de solidariedade que abraçou durante 20 anos, com Raúl Solnado, Octávio Clérigo, Carmen Dolores e Manuela Maria e que, felizmente, viu concretizado.
Até ao fim, partilhou com a sua mulher 42 anos da total cumplicidade que só é possível através da autonomia de cada um e da confiança partilhada. Estudavam juntos os seus papéis, continuavam juntos a ver televisão de mãos dadas, preocupados com os destinos do mundo e do teatro. Porque, e voltando a citar Garcia Lorca, «um povo que não ajuda, não favorece o seu teatro, está moribundo, se não estiver já morto; do mesmo modo, o teatro que não capta a pulsão social, a pulsão histórica, o drama do seu povo, a cor autêntica da sua paisagem e do seu espírito, com o seu riso e as suas lágrimas, esse teatro não tem o direito de se chamar teatro.»

Aplausos do PSD, do PS e do CDS-PP.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra a Sr.ª Deputada Maria de Belém Roseira.

A Sr.ª Maria de Belém Roseira (PS): - Sr. Presidente, Sr. Ministro dos Assuntos Parlamentares, Sr.as e Srs. Deputados: A bancada do Partido Socialista associa-se também a este voto de pesar, endereçando daqui as suas condolências à família e aos amigos de Armando Cortez.
No entanto, para além de ser de pesar, este voto é também um sublinhado do que é importante recordar na vida de alguém que desaparece, isto é, o que esse alguém fez pela dignificação de tudo aquilo em que se empenhou. O facto de alguém nos deixar constitui sempre uma grande pena, mas pode constituir também uma riqueza, se atentarmos no legado que nos deixou.
E Armando Cortez deixou-nos grandes legados! Desde logo, uma brilhante carreira profissional. Aliás, eu tenho idade suficiente para ser daqueles que hoje já se manifestaram, destacando a importância de Armando Cortez no desenvolvimento do nosso gosto pelo teatro. Naquela época, quando largamente difundido pela RTP, no cumprimento da sua missão de serviço público, Armando Cortez criou em várias gerações o gosto por uma manifestação artística que estava vedada a todos os que não estivessem nos grandes centros.
Armando Cortez foi um bom e um grande actor, como aqui já foi dito, e mereceu por isso reconhecimento público. Nesse aspecto, a sua vida foi de sucesso e, quando assim é, devemos também congratular-nos. Mas Armando Cortez foi, sobretudo, alguém que não viveu apenas para si próprio e para o seu sucesso; antes, soube, ao longo da sua vida, encontrar um espaço de intervenção que transcendeu em muito o seu próprio projecto. Afirmo-o pela grandeza da sua dedicação às insuficiências próprias das organizações marcadas por atrasos em desenvolvimentos sociais, os quais, infelizmente, a conjuntura do nosso país acabou por nos proporcionar. Não obstante, Armando Cortez, sempre acompanhado por outros amigos, mas, sobretudo, por sua mulher, Manuela Maria, teve um projecto de vida, um sonho que construiu e concretizou. Esse projecto foi uma obra grande e muitos de nós, nesta bancada como noutras, pelo exercício de funções públicas, tivemos o privilégio de a visitar e de a ajudar a criar.
Assim sendo, nesta hora de pesar, queria sobretudo sublinhar a lição de vida que nos deixam as pessoas que, nos seus momentos livres e, por vezes, nos momentos em que já deveriam ter determinadas coisas asseguradas, encontram a força para lutar pelos direitos básicos de outros que, por estarem longe de assegurados neste país, merecem, por isso, uma permanente atenção e dedicação.

Aplausos gerais.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Ministro dos Assuntos Parlamentares.

O Sr. Ministro dos Assuntos Parlamentares: - Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Queria também associar-me ao voto que está em debate e à homenagem que, muito justamente, todas as bancadas já prestaram ao falecido actor Armando Cortez.
De facto, a crueldade da vida fez empobrecer a cultura portuguesa. Armando Cortez, como já aqui foi, e bem, reconhecido em excelentes intervenções, foi um notável homem de cultura. Nos palcos e na televisão fez arte e promoveu a cultura portuguesa com um talento absolutamente incontornável. Por isso mesmo, o teatro, em particular, e a cultura, em geral, ficam mais pobres com o seu desaparecimento. Suceder-lhe será, naturalmente, necessário; substituí-lo será absolutamente impossível!

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